Capítulo 5

Renata

Acordei antes do despertador. Na verdade, nem consegui dormir direito. O primeiro dia na universidade… só de pensar meu estômago dava um nó. Fiquei alguns segundos olhando para o teto do quarto que a madrinha arrumou para mim  e respirei fundo. Parecia que a vida tinha finalmente começado a se mover outra vez.

Levantei devagar, tentei não fazer barulho e fui até o banheiro. A água fria no rosto me despertou na hora. Olhei meu reflexo no espelho: olhos ansiosos, cabelo preso às pressas e aquele medo escondido no fundo, o medo de não dar conta.

Mesmo assim, um sorriso pequeno apareceu.

— Vai dar certo  sussurrei para mim mesma.

Vesti a calça jeans mais confortável que eu tinha, uma blusa clara e o moletom que eu adorava. Depois coloquei o tênis novo  presente da madrinha e ajeitei os cadernos dentro da mochila como se isso me desse mais coragem.

Quando saí para a cozinha, a madrinha já estava acordada, mexendo no fogão.

— Bom dia, minha filha. Não ia deixar você sair sem comer  disse, virando-se com uma xícara de café quente na mão.  Hoje é dia importante.

Sentei, comi as torradas que ela fez e tentei não parecer tão nervosa.

— Madrinha… e se eu não me adaptar? Se for difícil demais?

Ela colocou a mão no meu ombro.

— Renata, você nasceu pra isso. Eu sei. Sua mãe sabia. A universidade só vai te ajudar a mostrar pro mundo o que você já é.

Eu respirei fundo. Aquele tipo de frase que parece um abraço.

Terminei o café, peguei a mochila e fui até ela para um abraço apertado.

— Obrigada por tudo.

— Vai, minha filha. E anda ligeiro, que o ônibus não espera ninguém.

Sorri e saí.

O ar da manhã de Lavras estava frio e úmido, típico dos dias nublados. A cidade começava a acordar: o barulho de portões abrindo, o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina e um cachorro latindo preguiçoso para algum movimento invisível.

Ajeitei a mochila nas costas e segui até a parada de ônibus. Cada passo parecia parte de um caminho maior, um caminho que eu sempre quis, mas nunca imaginei que realmente alcançaria.

A parada ficava a duas quadras da lanchonete. Quando cheguei, já havia duas pessoas esperando: uma senhora com sacolas de feira e um rapaz com o uniforme azul de uma loja do centro. Eles me cumprimentaram com um aceno de cabeça, aquele tipo de educação simples que só cidade pequena tem.

Eu me sentei no banco e abracei a mochila no colo. Sentia o coração batendo forte, como se quisesse sair pela boca.

O ônibus demorou um pouco, e nesse intervalo eu fiquei observando as ruas, pensando na minha mãe, pensando em como ela ficaria orgulhosa. Pensei também na madrinha, no seu jeitinho de cuidar de mim, e senti uma vontade enorme de não decepcioná-la.

Quando o ônibus finalmente virou a esquina, soltando fumaça e fazendo aquele barulho típico de motor velho, eu me levantei.

Era isso.

Primeiro dia.

Primeiro passo.

Assim que as portas se abriram, inspirei fundo, subi o degrau e me preparei para a nova vida que estava começando.

O ônibus parou na frente da universidade e, assim que desci, senti o impacto daquele mundo que eu estava prestes a enfrentar. Os prédios modernos, o movimento constante e a sensação de que tudo ali era grande demais para mim… ou pelo menos para quem eu era agora.

Ajeitei a alça da minha mochila 

Carros luxuosos estacionavam um após o outro perto da entrada principal. SUVs brilhantes, sedãs com bancos de couro, esportivos que pareciam mais caros do que tudo o que havia dentro da lanchonete da minha madrinha somado. Jovens desciam deles com mochilas de marca, roupas impecáveis, perfumes caros que pareciam anunciar sua presença antes mesmo de chegarem.

Eu caminhei em direção ao portão.

Ainda não fazia nem dois meses desde que minha vida tinha virado do avesso. Dois meses desde que eu descobri meu noivo na cama com a minha irmã. Dois meses desde que meu pai  o homem que sempre teve tudo, absolutamente tudo  olhou para mim e disse para eu não “complicar os negócios” com o fim do noivado.

Doía. Ainda doía.

Mas eu estava ali. Com roupa simples, cabelo preso do jeito que deu, tênis que não chamava atenção. Não porque eu nunca pudesse ter o que eles tinham… mas porque eu escolhi largar tudo.

E isso, aparentemente, chamava atenção.

Assim que atravessei o portão, alguns olhares pousaram em mim. Não eram olhares curiosos eram olhares avaliadores. Olhares que mediam o que eu vestia, quanto custava, e concluíam que eu não pertencia àquele mundo.

Duas meninas, perto de uma SUV branca, olharam para mim e trocaram um sorriso debochado. Abaixei os olhos, fingindo não ver. Eu tinha prometido a mim mesma que não deixaria nada nem ninguém me tirar desse caminho.

Foi quando ouvi uma voz suave, vindo do meu lado:

— Oi… você é caloura de medicina também?

Me virei e vi uma garota baixinha, de cabelos castanho-claro presos num rabo de cavalo e um sorriso tão sincero que parecia deslocado naquele ambiente cheio de pose.

— Sou sim  respondi.

— Eu também!  Ela sorriu ainda mais.  Ana Júlia. Você é de onde?

— Sou daqui de Lavras.  hesitei um pouco. Moro com minha madrinha.

Ela assentiu como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

— Ah, que bom! Pelo menos conhece a cidade. Eu vim de Perdões, tô perdida até no mapa da universidade.

Eu ri.

— Eu também tô meio perdida.

— Então vamos ficar perdidas juntas  ela disse, balançando a cabeça com humor.  Você percebeu que o povo chega como se estivesse desfilando em Milão?

— Percebi  murmurei.

— Eu vim de carro hoje porque meu pai quis fazer graça, mas amanhã já tô no ônibus de novo  ela confessou, rindo.  Aqui metade finge ser rica e a outra metade é mesmo. Mas a gente só precisa sobreviver.

Eu sorri pela primeira vez naquela manhã.

Caminhamos juntas até o mural onde estavam as listas das salas. Enquanto esperávamos para ver nossos nomes, ela me olhou com calma, como se enxergasse além da roupa simples.

— Você parece meio tensa… tá tudo bem? perguntou.

— Estou me sentindo meio nervosa, mas deve ser por que é tudo novo! 

— Não se preocupa, já já nos adaptamos a Ana Júlia falou sorridente.

— Vem  disse Ana Júlia, puxando minha mão com leveza.  A gente vai achar a sala juntas. E se alguém olhar torto pra você de novo… olha torto de volta. Ou ignora. É o que eu faço.

Assenti.

E seguimos.

O corredor principal da universidade era amplo, claro e cheio de vozes ecoando. Quadros com fotos de turmas antigas nas paredes, cheiro de café vindo de uma cantina próxima e o barulho das portas batendo enquanto alunos entravam e saíam das salas.

Cada passo que eu dava ali parecia empurrar pra longe um pouco do que eu deixei para trás.

Da traição.

Do noivado destruído.

Da minha irmã.

E principalmente do meu pai… que ainda preferia um casamento de negócios do que a felicidade da própria filha.

Mas agora…

Agora era tudo comigo.

E, pela primeira vez naquela manhã, eu senti que podia realmente começar de novo.

— Renata?  Ana Júlia chamou, percebendo meu silêncio.

— Hm?

— Vai dar certo, tá?  ela sorriu.  Eu senti isso no momento em que te vi.

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