Capítulo 6

Renata

Entramos na sala. Era enorme, com cadeiras fixas em formato de auditório e um telão ligado com o título da disciplina no fundo:

Bases da Anatomia e Fisiologia Humana  Prof. Daniel Moretti

Ana Júlia soltou um assobio baixo.

— Jesus amado… dizem que esse professor é uma lenda. Exigente pra caramba.

Sentei na terceira fileira, mais por reflexo do que por escolha. Nunca fui do tipo que se esconde no fundo. Sempre aprendi melhor quando conseguia olhar nos olhos de quem ensinava.

A maioria dos alunos continuava conversando, rindo, parecendo despreocupada  alguns nem escondiam o tédio. Até que a porta lateral se abriu.

E o silêncio caiu como um peso.

Um homem entrou, alto, postura impecável, jaleco branco e um olhar sério que parecia atravessar as pessoas. Tinha cabelo escuro, barba muito bem cuidada e segurava uma prancheta com a firmeza de quem não tolera erros.

Ele nem se apresentou. Apenas caminhou até a mesa e bateu a prancheta uma vez seca, direta.

— Bom dia. Sejam bem-vindos ao primeiro semestre. O olhar dele percorreu a sala como um scanner.  Antes de começarmos, quero fazer uma avaliação rápida.

Alguém atrás de mim murmurou:

— Avaliação? No primeiro dia? Tá de sacanagem.

O professor continuou como se não tivesse ouvido:

— Quero saber se vocês realmente merecem estar aqui.

Alguns alunos ajeitaram a postura. Outros tentaram parecer confiantes. Eu senti o coração acelerar.

— Vamos começar com algo simples.  Ele apontou para o telão, onde surgiu a imagem de um crânio.  Quem pode me dizer quais são os principais ossos que compõem a calota craniana?

Silêncio.

O professor cruzou os braços.

— Ninguém? Ele arqueou uma sobrancelha.  Mas todos tiraram nota alta no vestibular, não é?

O rapaz chamado Bernardo, sentado duas fileiras atrás, tentou arriscar:

— Frontal… parietal… e… maxilar?

O professor virou lentamente o rosto para ele.

— Maxilar? Na calota craniana?  A voz dele era fria.  Interessante. Espero que nunca opere ninguém.

Todos riram baixinho. Bernardo abaixou a cabeça.

Eu senti Ana Júlia me cutucar com o cotovelo.

— Renata… você sabe isso, não sabe?

E eu sabia. Minha mãe me ensinava anatomia quando eu era criança, apontando partes do corpo e me fazendo repetir nomes. Não porque esperava que eu fosse médica mas porque ela achava bonito entender o mundo.

Respirei fundo e ergui a mão.

O professor me observou por um instante.

— Nome?

— Renata.

— Pode responder, Renata.

— Os ossos da calota craniana são: frontal, parietais, occipital, temporais, esfenóide e etmoide.

A sala ficou muda.

O professor segurou a prancheta com mais força, estudando meu rosto como se estivesse tentando decifrar algo.

— Correto.  Ele andou alguns passos, sem desviar o olhar.  E já que começou bem… me diga então qual sutura separa os ossos parietais do frontal.

Alguns alunos riram, achando que agora ele me pegaria.

Mas eu respirei novamente.

— Sutura coronal.

O silêncio que veio depois foi diferente. Um silêncio respeitoso.

Ana Júlia arregalou os olhos, maravilhada.

— Mulher… você é um gênio escondido.

O professor apoiou as mãos na mesa e falou, ainda olhando diretamente para mim:

— Excelente.  E então, pela primeira vez, um leve sinal de aprovação surgiu em sua expressão.  Espero que mantenha esse nível durante o semestre.

Eu assenti, tentando segurar o sorriso.

Mas por dentro…

Por dentro eu estava brilhando.

Porque naquele instante, ninguém viu minha roupa simples.

Ninguém viu a menina que chegou de ônibus.

Ninguém viu a noiva traída, a filha esquecida.

Eles viram a Renata.

E eu, pela primeira vez, também.

O resto do dia passou mais rápido do que deveria.

Depois da aula do professor Moretti, tivemos apresentações básicas, explicações sobre o cronograma, orientações de laboratório. Mas, para mim, nada se comparava ao que tinha acontecido naquela primeira aula. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, alguém tivesse enxergado o que eu realmente carregava dentro de mim.

Ana Júlia ficou ao meu lado o tempo todo, repetindo:

— Renata, pelo amor de Deus, você destruiu metade da sala! Eu nunca vi o Moretti elogiar alguém… nunca!

Eu só ria, sentindo um orgulho tímido, quase infantil.

Quando as aulas terminaram, o movimento de carros de luxo na porta da universidade voltou com força. Gente chamando motoristas pelo nome, meninas tirando fotos com carros esportivos ao fundo, garotos falando alto sobre viagens para fora do país.

E eu ali, caminhando até o ponto de ônibus com a minha mochila velha, do mesmo jeito que cheguei.

Mas pela primeira vez isso não me incomodou.

Porque naquele dia… eu tinha vencido.

O ônibus veio cheio, barulhento, mas eu estava tão leve que parecia nem sentir o balanço nos buracos da rua. Fiquei olhando pela janela, vendo Lavras passar ao meu lado, e senti algo que há muito tempo eu não sentia:

Esperança.

Quando desci no ponto perto da lanchonete, o cheiro de pão fresco e café me abraçou antes mesmo de eu entrar. Minha madrinha estava no balcão, servindo uma cliente. Assim que me viu, abriu um sorriso que quase iluminou o lugar inteiro.

— Minha filha! ela chamou. Vem cá, me conta! Como foi?

Entrei atrás do balcão e ela me puxou para um abraço apertado, daquele que só ela sabia dar.

— Foi… foi incrível, madrinha  falei, sem conseguir segurar o sorriso. Eu estava nervosa, mas… eu consegui. Respondi perguntas difíceis. O professor elogiou. E fiz uma amiga também.

Ela segurou meu rosto entre as mãos, emocionada.

— Eu sabia. Eu sabia que você ia brilhar.

— Madrinha…  minha voz tremeu um pouco  eu me senti… capaz. Pela primeira vez depois de tudo aquilo que aconteceu… eu senti como se a vida estivesse começando de verdade.

Ela respirou fundo, os olhos marejando.

— Renata, minha filha… você passou por muita coisa. Mas Deus vê tudo. Ele não ia deixar você cair. Você merece cada passo desse caminho. Sua mãe tá orgulhosa lá de cima, e eu tô orgulhosa aqui.

Eu encostei a cabeça no ombro dela, deixando a emoção vir.

— Obrigada por tudo. Se não fosse a senhora…

— Eu sempre estaria aqui  ela interrompeu, beijando minha testa.  Você é minha menina também.

Ficamos ali por alguns segundos, abraçadas, até a campainha da porta tocar, anunciando um cliente.

Minha madrinha secou as lágrimas rapidamente, com aquele jeitinho forte dela.

— Vamos trabalhar, doutora disse com um sorriso brincalhão.  Porque o mundo não gira sozinho.

Eu ri, meu coração tão cheio que parecia até maior dentro do peito.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App