Capítulo 4

Renata

A lanchonete ainda estava silenciosa quando entramos. As luzes amarelinhas foram acesas uma a uma, iluminando o balcão, as mesas simples e os potinhos de açúcar que minha madrinha sempre deixava alinhados, mesmo quando jurava que era “desorganizada”.

O cheiro característico de lugar que abre cedo  café, massa, limpeza  começou a preencher o ar assim que ela acendeu a cafeteira.

— Senta ali, minha filha. Minha madrinha apontou para a mesa perto da janela, onde o sol ainda não chegava.  Vou fazer uma coisinha pra você.

Eu obedeci, sentindo algo apertar o peito. Aquela mesa… quantas vezes eu não tinha sentado ali, criança, enquanto minha mãe conversava e ria com a madrinha?

O barulho da frigideira quente me arrancou desse pensamento.

— Madrinha, a senhora está fazendo panqueca?  perguntei, reconhecendo o cheiro antes mesmo de ver.

Ela olhou por cima do ombro e sorriu.

— A mesma receitinha que sua mãe adorava. disse com ternura.  Você sempre comia duas, bem quentinhas, lembra?

Meu coração amoleceu.

— Lembro…  murmurei, sentindo os olhos arderem.  Lembro da senhora fazendo café e das duas conversando enquanto eu desenhava no balcão…

— Pois é ela disse, virando a panqueca com habilidade.  E eu sempre dizia pra sua mãe que você ia ser alguém grande. E vou dizer de novo: você vai ser.

Ela colocou o prato na minha frente. Panquecas fofinhas, douradinhas, manteiga derretendo por cima. Um abraço da infância.

Dei a primeira garfada e quase chorei.

— Estava com saudade disso… admiti, sorrindo pequeno.  De tudo isso.

A madrinha se sentou na minha frente com uma caneca de café e ficou me observando como só alguém que realmente ama faz.

Respirei fundo, sentindo que precisava contar.

— Madrinha… faz uma semana que saiu a nota da universidade.  comecei, com a voz ficando baixa.  Eu passei em medicina.

Ela arregalou os olhos, depois abriu um sorriso que iluminou o rosto inteiro.

— Minha filha, que orgulho! Eu sabia!  Ela bateu palmas baixinho, emocionada.  Sua mãe deve estar lá no céu fazendo festa!

Mas meu sorriso não acompanhou o dela.

— O problema é que… eu não sei se vou conseguir fazer. É um curso caro. Material… transporte… alimentação… tudo isso pesa. E agora então…

Tereza me interrompeu com a mão levantada.

— Renata, olha pra mim.

Eu ergui os olhos lentamente.

— Você vai estudar medicina sim.  disse com firmeza.  Você não vai morar longe. Não vai gastar com aluguel. E aqui…  ela olhou ao redor da lanchonete qui você pode me ajudar sempre que puder. Não precisa ser todo dia, não precisa ser pesado. Só quando der.

Ela encostou a mão sobre a minha.

— Seu foco vai ser os estudos. O resto… a gente dá um jeito. Sempre demos.

O nó na minha garganta era quase impossível de engolir.

— Madrinha… eu não quero pesar pra senhora…

Os olhos dela se encheram, mas não de tristeza  e sim de verdade.

— Filha… eu daria tudo pra ter meu filho aqui comigo dividindo essas despesas.  Ela respirou fundo, a voz embargando.  Mas ele se perdeu nessa vida. E eu… eu sou sozinha. Me deixa te ajudar. Me deixa fazer isso por nós duas… por mim, por você, e pela sua mãe.

As lágrimas escorreram antes que eu pudesse segurar.

— Madrinha…

Ela apertou minha mão com força.

— Você usa meu carro pra se locomover pra universidade, tá? Assim chega descansada.

Balancei a cabeça imediatamente.

— Não, madrinha. Eu posso ir de ônibus. Não é tão longe assim. Não quero atrapalhar.

Ela riu baixinho, limpando a lágrima que escapou dela também.

— Você é igualzinha à sua mãe… teimosa. disse, mas com amor na voz.  Vai de ônibus, então. Mas prometa uma coisa.

— O quê?  perguntei, soluçando leve.

— Prometa que vai me dar muito orgulho.

Eu sorri, apesar do choro, e segurei a mão dela com carinho.

— Eu prometo, madrinha. Eu juro que prometo.

Assim que terminamos o café e eu lavei meu prato no balcão, o sininho da porta tilintou pela primeira vez naquela manhã. Era como se a cidade estivesse despertando junto com a gente.

— Pronta, minha filha? Agora começa o movimento.

Assenti, ainda um pouco nervosa, mas decidida.

Mais duas mesas ocuparam lugar, e logo a porta abriu de novo.

— Bom dia, Dona Tereza!  um senhor de chapéu entrou esfregando as mãos, como fazia todas as manhãs. — Hoje eu quero um café duplo e o de sempre, viu? Que tô com uma fome daquelas!

— Já vou preparar, Seu Joaquim. Senta ali que daqui a pouco sai.

Ele se acomodou na mesa de costume, mas seus olhos me encontraram rapidamente. Ele deu uma piscadinha simpática e perguntou, alto o bastante para a lanchonete toda ouvir:

— E essa morena linda aqui ajudando a senhora? É a nova empregada?

Fiquei vermelha na hora. Minha madrinha veio atrás do balcão e deu um tapinha suave no ombro dele.

— Nada disso, Seu Joaquim. Essa aqui é a minha filha de consideração.  anunciou, cheia de orgulho.  A Renata. Ela resolveu vir ajudar hoje.

Meu peito se aqueceu com aquela apresentação… filha.

Seu Joaquim olhou para mim com aquele sorriso de quem já conhece todo mundo na cidade.

— Ahhh, então é a famosa Renatinha!  ele disse, animado.  Cresceu, hein? Ficou ainda mais bonita. Sua mãe era assim: bonita e de olhar doce.

Eu sorri, tímida.

— Obrigada, Seu Joaquim.

Ele apoiou os cotovelos na mesa.

— Se veio ajudar, então vou aproveitar. Traz pra mim aquele pãozinho na chapa caprichado, igual a Dona Tereza faz. Quero ver se você tem o mesmo talento.

Tereza riu e me chamou para perto.

— Vem, minha filha. Vou te mostrar como faz o pão na chapa do jeito que ele gosta. Você aprende rápido.

Ali, enquanto ligava a chapa, passava manteiga e sentia o cheiro quentinho se espalhar pelo ar, me dei conta de que aquele pequeno começo… aquele pequeno gesto… era mais importante do que parecia.

Era a vida seguindo. Era o primeiro passo do meu recomeço.

E, do outro lado da lanchonete, Seu Joaquim já chamava:

— Dona Tereza! Se ela fizer igual à senhora, vou querer ela aqui todo dia, viu? minha madrinha olhou pra mim e piscou.

— Eu disse que você ia conquistar todo mundo.

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