Mundo ficciónIniciar sesiónCAPÍTULO 7
A sala de espera VIP do Hospital Universitário Central parecia mais um funeral antecipado do que um encontro familiar.
Toda a família De la Vega estava ali. Tinham passado dez anos à espera daquele momento, ou talvez à espera do desfecho fatal que lhes permitisse repartir o império.
Rodrigo De la Vega, o primo perfeito, estava sentado com uma postura impecável, rodeado pela sua própria imagem de sucesso: a esposa, uma mulher da alta sociedade com um sorriso ensaiado, e os dois filhos quase adolescentes, que olhavam para os telemóveis, aborrecidos. Rodrigo tamborilava os dedos no braço de couro da cadeira, impaciente. O seu olhar percorria o corredor sempre que as portas do elevador se abriam.
No sofá ao lado, Eleonor e Ricardo, os pais de Alexander, sussurravam entre si. Eleonor torcia um lenço de seda entre as mãos. Durante uma década, o filho proibira-os de conhecer a sua esposa sob o pretexto de respeitar os desejos do avô e proteger a privacidade dela. Mas a mente de uma mãe, alimentada pelos rumores da alta sociedade, tecera as suas próprias teorias obscuras.
Com certeza é uma mulher da vida, pensava Eleonor, com o estômago embrulhado. Uma caça-fortunas vulgar que aceitou casar por dinheiro e que o Alexander mantém escondida por vergonha.
O avô Augusto não quisera receber ninguém. Nem os filhos, nem os outros netos. Desde que acordara, com aquela lucidez aterrorizante que sempre o caracterizara, só tinha uma exigência: ver Alexander e a sua esposa.
Quando os médicos lhe confirmaram que o seu neto "travesso" continuava legalmente casado após uma década, o velho sentiu um alívio profundo que não admitiria em voz alta. O legado estava a salvo. Ou assim esperava.
As portas do elevador privado abriram-se com um tinido suave.
Todas as cabeças se viraram em uníssono.
Alexander saiu primeiro, ajustando os punhos da camisa, irradiando aquela arrogância natural que costumava usar como armadura. E ao seu lado, caminando com uma elegância serena que ninguém esperava, vinha ela.
Lucía sentiu dezenas de olhos cravarem-se na sua pele como agulhas. Sentiu o julgamento, a inveja e a curiosidade mórbida daquela gente. Por dentro, o estômago era um nó de nervos e as mãos tremiam ligeiramente, mas manteve-as firmes a segurar a sua mala de cabedal.
Já não era a rapariga de vinte e dois anos que chorava debaixo da chuva porque um homem a desprezara. Tinha trinta e dois anos. Era médica veterinária. Salvara vidas, negociara com fornecedores difíceis e construíra o seu próprio caminho.
Alexander tinha razão: estavam a entrar num tanque de tubarões. Mas os tubarões não atacam se não sentirem cheiro a sangue.
Lucía ergueu o queixo, mostrando o pescoço, e avançou.
— Bom dia a todos —cumprimentou Alexander, com um tom casual que roçava a insolência. Parou no centro da sala, pousando uma mão possessiva, mas protetora, na base das costas de Lucía—. Família, tenho o prazer de vos apresentar, finalmente, a Lucía De la Vega. Minha esposa.
O silêncio partiu-se com o som das respirações contidas.
Rodrigo levantou-se lentamente. Os seus olhos percorreram Lucía de cima a baixo, procurando a fenda, o defeito, a vulgaridade. Procurava a "mulher da vida" que a sua tia Eleonor temia.
Mas deparou-se com uma mulher vestida com um fato de linho impecável, sem jóias ostentosas além do anel de noivado que cintilava na sua mão, e com um olhar verde e inteligente que sustentou o escrutínio sem pestanejar. Era objetivamente bela. Muito bela.
— Ora bem —disse Rodrigo, com um sorriso que não chegava aos olhos—. O mistério foi revelado. É um prazer, cunhada. Começávamos a acreditar que eras um mito urbano.
— O prazer é meu —respondeu Lucía, com voz calma e educada—. O Alexander falou-me muito de ti, Rodrigo.
Era mentira, claro. Alexander nunca lhe falara de ninguém. Mas era o que uma esposa bem-educada diria.
Rodrigo soltou uma gargalhada curta.
— Claro. Imagino. O Alexander nunca se casaria com uma mulher feia, isso está claro. Embora me surpreenda que te tenha mantido escondida tanto tempo. Timidez?
— Privacidade —cortou Alexander secamente—. Algo que nesta família escasseia. Terão tempo para se conhecerem e fazer todas as perguntas impertinentes que quiserem. Vamos, Lucía. O avô está à nossa espera e odeia a impontualidade.
Sem esperar resposta, Alexander guiou Lucía até à porta do quarto 405, deixando a família boquiaberta e com a curiosidade a arder nas veias.
— Tiveste um bom desempenho —sussurrou-lhe ele antes de abrir a porta.
— Cala-te e abre —respondeu ela, tensa.
Entraram.
O quarto era uma suite de luxo, repleta de aparelhos médicos que emitiam bipes suaves. Na cama, incorporado e com um soro no braço, estava Augusto De la Vega. Apesar da palidez e dos anos perdidos na escuridão do coma, os seus olhos cinzentos —idênticos aos de Alexander— conservavam um brilho feroz.
— Alexander —grunhiu o velho, a voz rouca mas firme—. Finalmente chegaste. Será que não tens um relógio? Um telefone? Ou estavas à espera que eu morresse de vez para vires?
Alexander sorriu, aproximando-se da cama.
— Avô, que alegria ver-te acordado. E continuas tão rabugento como sempre. Isso é um bom sinal.
Augusto agitou a mão, dispensando a saudação do neto como se fosse uma mosca irritante.
— Cala-te, rapaz. Afasta-te. Quero ver a minha neta.
Alexander afastou-se, revelando Lucía.
Ela deu um passo em frente, aproximando-se da cama com respeito, mas sem medo. Lidara com a morte e a dor muitas vezes na sua clínica; os hospitais não a intimidavam.
— Bom dia, senhor De la Vega —disse ela com suavidade—. Fico muito contente por o ver de volta connosco.
E dizia a sério. Havia uma sinceridade no seu tom que desarmou o velho. Augusto observou-a durante segundos que pareceram eternos. Procurava falsidade, bajulação, medo. Não encontrou nada disso.
— Vem cá, querida —ordenou ele, dando palmadinhas na borda do colchão—. Quero ver-te mais de perto. Os meus olhos já não são o que eram.
Lucía sentou-se no limite da cama. Alexander ficou de pé, alguns passos atrás, preferindo manter a distância. Se o avô começasse a interrogá-lo sobre detalhes íntimos da vida conjugal, cometeria um erro em questão de segundos. Não fazia a menor ideia da cor da escova de dentes da sua mulher, nem se ela preferia café ou chá.
Augusto ignorou o neto e cravou o olhar em Lucía.
— Diz-me, menina. Como é que este rapaz te trata? Conta-me. A mim podes dizer a verdade. Se te tornou infeliz, se é um patife... diz-me. Tenho o poder de o deserdar num segundo.
Alexander prendeu a respiração.
Lucía olhou para o velho, depois lançou um olhar de soslaio a Alexander, e voltou a focar-se em Augusto.
— Não tenho qualquer queixa dele, senhor.
Augusto semicerrou os olhos.
— Não te creio. Conheço muito bem o meu neto. É um De la Vega. Somos egoístas, teimosos e difíceis. Vais dizer-me que em dez anos ele nunca te deu motivos para te queixares?
— Sou-lhe honesta, senhor —disse Lucía, escolhendo as palavras com cuidado—. O Alexander cumpriu cada uma das suas promessas. Quando nos casámos, só lhe pedi uma coisa: que me permitisse estudar, que respeitasse o meu sonho e o meu espaço. E foi exatamente o que ele fez. Apoiou-me a cem por cento. Nunca me cortou as asas.
Augusto pareceu surpreendido. Esperava ouvir falar de viagens a Paris ou de jóias, não de "espaço" e "estudos".
— Ah, sim? E qual era esse sonho, se me permite saber?
Lucía endireitou-se, e um brilho de orgulho profissional iluminou o seu rosto.
— Sou médica veterinária, senhor. Cirurgiã veterinária. Dirijo a minha própria clínica de alta complexidade. E mais —consultou o relógio—, peço desculpa antecipadamente se pareço apressada, mas daqui a três horas tenho uma cirurgia de coluna muito importante que não posso delegar.
O avô ergueu as sobrancelhas, impressionado.
— Trabalhas?
— Obviamente.
— Sendo a esposa de um multimilionário? —insistiu Augusto, testando-a.
— Estudei para exercer a minha profissão, não para pendurar o diploma na parede —respondeu Lucía com firmeza—. O dinheiro do Alexander é do Alexander. O meu trabalho é meu.
Alexander piscou os olhos no seu canto. Boa jogada, Lucía, pensou. Nem ele se lembrava de que ela lhe pedira apoio explícito para os estudos, apenas se lembrava de assinar os cheques.
— Gostava de conhecer essa clínica de vocês —disse o avô, enfatizando o plural, olhando para Alexander.
— Hmmm... a clínica é minha —corrigiu Lucía suavemente, mas marcando o território.
O avô moveu a cabeça, procurando o olhar do neto.
— Tua?
— É totalmente dela, avô —interveio Alexander, metendo as mãos nos bolsos—. Eu não tenho nada a ver com isso. Apenas pus o... capital inicial há anos. A gestão é dela.
— Isso é óbvio —bufou Augusto—. O que é que tu farias numa clínica veterinária? Nunca tiveste um cão. Odiavas que te sujassem os fatos.
O velho voltou a olhar para Lucía e, pela primeira vez, sorriu. Um sorriso astuto, de aprovação.
— Agradas-me, menina. Tens caráter. Não és um adorno. Isso é bom. Esta família precisa de sangue novo que não tenha medo de trabalhar.
Augusto recostou-se nos travesseiros, parecendo repentinamente cansado, mas com a mente a maquinar a mil por hora. Notara a distância física entre eles. Notara que Alexander não sabia nada sobre a cirurgia dela. Notara a "gestão separada".
— Muito bem. Vi o suficiente por agora.
— Devias descansar, avô —disse Alexander, aliviado por a entrevista ter terminado sem desastres.
— Descanserei —disse Augusto—. Mas esta noite quero celebrar.
— Celebrar? —perguntou Lucía.
— Sim. Jantaremos todos juntos —sentenciou o patriarca com voz de comando—. Vai para a tua cirurgia, querida. Salva esse cão. Mas vemo-nos esta noite na casa.
Alexander franziu o cenho.
— Avô, estás no hospital. Não creio que os médicos...
— Sou o dono deste hospital, Alexander —cortou Augusto—. Se eu disser que vou para minha casa, vou para minha casa. Estive dez anos nesta cama. Não pretendo passar mais uma noite aqui. Às oito. Na Mansão. Quero-vos aos dois lá.
Lucía e Alexander trocaram um olhar rápido de pânico.
— Claro que sim, senhor. Lá estaremos —disse Lucía, pondo-se de pé.
Saíram do quarto com o coração na boca.
O corredor estava vazio. A família dispersara-se, provavelmente para mexericar e planear o próximo movimento.
Alexander caminhou rapidamente até ao elevador e carregou no botão com força.
— O que é que ele quer dizer com "vemo-nos no jantar na casa"? —sussurrou Lucía, sentindo faltar o ar.
— Quer dizer que acabámos de nos meter num problema muito grave —respondeu Alexander, passando a mão pelo cabelo—. O meu avô acha que vivemos juntos na Mansão De la Vega. Ele assume que tu vives comigo lá, na ala principal.
— A Mansão? —Lucía abriu os olhos desmedidamente—. Aquela coisa enorme que parece um museu nas colinas? Eu não vivo lá! Eu vivo na minha casa, por cima da minha clínica!
— Eu sei, Lucía. Eu sei.
— Não te preocupes —disse ele, tentando racionalizar—. Não creio que lhe deem alta tão depressa, ao velho. Está ligado a máquinas. Com certeza disse isso por dizer. Mas quando tivermos de nos reunir na mansão, passo aí para te buscar, querida esposa.







