Mundo ficciónIniciar sesiónCAPÍTULO 5
O Maybach negro circulava pelas ruas desertas como uma sombra elegante. No interior, Alexander de la Vega afrouxou o laço de seda que lhe pendia do pescoço.
Olhou pela janela, vendo passar os edifícios residenciais da classe média.
— Senhor —disse Damián, quebrando o silêncio do banco do motorista—, não deveríamos ir primeiro ao hospital ver o seu avô? Os médicos disseram que ele está estável, mas ansioso.
Alexander passou uma mão pelo cabelo escuro, frustrado.
— Não, Damián. Já te disse. O meu avô abriu os olhos, perguntou se ainda estava casado e, quando lhe responderam que sim, exigiu ver a minha esposa. Não quer ver-me a mim. Pelo menos, não só a mim. Quer ver o "milagre" da minha estabilidade emocional. Quer ver a Lucía.
Damián assentiu, mantendo o olhar na estrada.
— Entendo.
Alexander suspirou, fazendo girar o copo de whisky vazio que ainda segurava, um resto da casa que trouxera consigo.
— Que notícias tens dela, Damián?
O segurança olhou para ele brevemente pelo espelho retrovisor.
— A que se refere, senhor?
— Ao que faz, como vive. Há dez anos que não a vejo. —Alexander fez uma pausa, procurando na memória—. Não me lembro dela, Damián. Se a cruzasse agora na rua, juro que não a reconheceria. Só me lembro de que era... pequena. E que estava encharcada.
Damián pigarreou, desconfortável. Ele sim se lembrava da Lucía. Ele gerira cada pagamento, cada matrícula, cada trâmite.
— Senhor, a senhora Lucía só se comunicou comigo para me indicar a universidade que escolhera. Só sei que concluiu o curso com distinção há muitos anos.
— Nunca pediu mais dinheiro? —perguntou Alexander, genuinamente surpreso. No seu mundo, as pessoas sempre pediam mais. As amantes pediam jóias, os sócios pediam percentagens, os familiares pediam cargos.
— Jamais —confirmou Damián—. Nunca pediu um aumento na mensalidade, nunca pediu um carro novo, nunca fez um escândalo. Aliás, os relatórios de gastos do cartão de crédito corporativo que lhe demos estão vazios. Zero movimentações em dez anos.
Alexander ficou em silêncio, processando a informação.
— Tens a certeza?
— Absoluta. Ela vive do que ela própria gera, suponho. Ou então é extremamente austera.
Alexander sentiu uma estranha mistura de admiração e desconfiança. Todas as mulheres que se aproximavam dele faziam-no por interesse. Que tipo de jogo estaria a jogar Lucía Flores? Ou será que era possível que ela simplesmente não se interessasse pela sua fortuna?
Tentou reconstruir o rosto dela na sua mente. Não era feia. Apesar de a ter conhecido em circunstâncias deploráveis, com a maquilhagem borrada e os olhos inchados, lembrava-se de que tinha uma beleza natural, algo selvagem. Uns olhos verdes que brilhavam mesmo na escuridão daquele carro.
— Espero que continue a viver na casa que lhe atribuí —murmurou Alexander—. Seria um problema ter de a rastrear por toda a cidade às cinco da manhã.
— Continua lá, senhor.
O carro virou uma esquina e parou em frente a uma casa antiga de dois andares, com uma fachada de pedra e videiras que lhe davam um ar acolhedor. Mas havia algo diferente. Um letreiro elegante de madeira pendia sobre a entrada, iluminado por uma luz tênue.
Clínica Veterinária Flores – Urgências 24h
Alexander franziu o cenho.
— O que é isto, Damián? É uma clínica veterinária?
— Sim, senhor.
— Não me lembrava de haver um negócio nesta casa. —Alexander olhou para a fachada com desaprovação. Ele dera-lhe uma casa para viver, não para montar um comércio—. Desde quando é que a imobiliária permitiu isto?
Damián desligou o motor e virou-se para o seu chefe, com aquela paciência infinita que só os funcionários muito leais possuem.
— Com todo o respeito, senhor De la Vega —interrompeu Damián—, o senhor não tem propriedade sobre esta casa. O senhor ofereceu-lha. As escrituras estão no nome de Lucía Flores há uma década. Ela pode fazer o que quiser com o imóvel. Não se lembra?
Alexander ficou mudo. Sim, lembrava-se vagamente de ter assinado a cessão para "garantir o negócio". Praguejou baixinho. Tinha esquecido quanto poder dera a essa desconhecida no seu afã de salvar a herança.
— Muito bem. Toquemos à campainha.
Saíram do carro. O ar da madrugada era gelado. Alexander ajeitou a casaca do smoking, sentindo-se ridículo vestido a rigor no meio de um bairro residencial silencioso.
Damián tocou na campainha. Uma, duas, três vezes.
Esperaram.
Alexander começou a impacientar-se. Estava prestes a ordenar a Damián que arrombasse a porta quando ouviu trincos a girar.
A porta abriu-se.
Ali estava ela.
Não era a rapariga assustada de dez anos atrás. A mulher que estava à sua frente irradiava uma força tranquila, mesmo de pé, recém-acordada. Usava um roupão simples, o cabelo castanho ligeiramente despenteado e o rosto lavado. Mas foram os seus olhos verdes que atingiram Alexander como um murro físico. Eram intensos, inteligentes e, naquele momento, gélidos.
Lucía observou-o de cima a baixo, detendo-se nos seus sapatos de verniz, subindo pelas calças de corte impecável, a camisa desabotoada e, finalmente, chegando aos seus olhos cinzentos. Não houve um lampejo de reconhecimento imediato, ou se houve, ela ocultou-o perfeitamente atrás de uma máscara de indiferença.
A expressão dela não era de agrado. Era o olhar que se dedica a um vendedor porta-a-porta inoportuno.
Alexander, sentindo que perdia o controlo da situação antes de começar, decidiu usar a sua melhor arma: o charme cínico.
— Também me dá muito prazer rever-te, querida esposa —disse, esboçando aquele meio-sorriso que costumava derreter as sócias do clube de campo.
Lucía não sorriu. Nem pestanejou. Cruzou os braços, fechando ainda mais o roupão sobre o peito.
— São cinco da manhã —disse ela, com a voz rouca.
O silêncio prolongou-se, desconfortável.
— Então? —insistiu Alexander—. Vais-me deixar aqui parado à porta como um estranho? Não vais convidar o teu marido a entrar na nossa casa?
Lucía ergueu uma sobrancelha, incrédula perante a audácia.
— Nossa casa? —repetiu, dando ênfase à palavra com ironia—. Creio que os papéis dizem outra coisa, Alexander. Esta é a minha casa. E é a minha clínica.
Foi nesse momento que uma figura apareceu atrás de Lucía no corredor. Alina, com o cabelo desgrenhado e ar de susto, espreitou a cabeça.
— Lucía, qual é a emergência? Já tenho a anestesia... —Alina parou ao ver que não havia nenhum cão agonizante, mas sim dois homens vestidos de negro no alpendre.
Lucía virou-se meio segundo para a amiga.
— Volta para a cama, Alina. Não há nenhuma emergência com nenhuma mascote. É apenas... uma visita administrativa.
Alina olhou de cima a baixo para o homem da porta. Apesar da hora e do desalinho, Alexander de la Vega era objetivamente um homem muito apuesto, com aquela beleza aristocrática e perigosa.
— Quem é este? —perguntou Alina, sem filtros.
Alexander deu um passo em frente, ignorando a barreira invisível que Lucía erguera.
— O vosso marido —respondeu ele com voz firme, estendendo a mão para a amiga—. Alexander de la Vega. Prazer em conhecê-la.
Alina abriu a boca e fechou-a várias vezes, como um peixe fora de água. Olhou para Lucía, depois para Alexander, e depois para Lucía novamente.
— O marido? O fantasma? O do contrato? —gaguejou.
— O mesmo —confirmou Alexander.
Alina não conseguiu reagir. A realidade de que aquele homem existia e estava ali, na sua sala de estar, era demasiado para processar sem café.
— Eu... hum... vou ver se fechei bem a gaiola dos gatos —disse, e retirou-se quase a correr para a cozinha, deixando o casal sozinho.
Alexander voltou o seu olhar cinzento para Lucía.
— Assustaste a minha amiga —repreendeu ela—. E continuas a invadir a minha propriedade.
— Então vais-me deixar entrar ou teremos esta conversa no passeio para que os vizinhos te ouçam?
Lucía suspirou, derrotada pela lógica. Afastou-se para o lado.
— Entra. Mas depressa.
Alexander entrou. O interior era acolhedor, cheirava a madeira e a limpeza, muito diferente do ambiente estéril do seu próprio ático.
— O que estás a fazer aqui? —perguntou Lucía, fechando a porta e encostando-se a ela, como se precisasse de um apoio—. Não vieste em dez anos. Duvido que seja uma visita de cortesia.
— Vim buscar-te —disse ele, indo direto ao assunto—. O meu avô acordou do coma há umas horas.
Os olhos de Lucía abriram-se um pouco mais. Lembrava-se do velho Augusto, a razão de todo este teatro.
— Acordou? Isso é... incrível. Os médicos diziam que era impossível.
— É. É um homem teimoso. E a primeira coisa que fez foi exigir conhecer-te.
Lucía olhou para o relógio de parede.
— Alexander, são cinco da manhã.
— Acordou às três, o que queres que eu faça? Quando o velho Augusto pede algo, o mundo pára. E agora está a pedir pela sua nora política.
— E o que esperas de mim? —perguntou Lucía, embora já temesse a resposta.
— Que me acompanhes. Vou esperar uns minutos para te vestires e vamos para o hospital. Tens de o conhecer. Hoje. Agora.
Lucía negou com a cabeça, passando uma mão pela testa.
— Não. Não posso ir assim sem mais. Tenho uma agenda, Alexander. Tenho pacientes marcados para cirurgia às oito, tenho consultas... Não sou uma boneca que podes tirar da caixa quando te convém.
Alexander aproximou-se dela. A sua presença era opressiva.
— Nada disso importa hoje. Cancela tudo. —A voz dele não era um pedido, era uma ordem—. Sabias que mais cedo ou mais tarde isto ia acontecer, Lucía. Assinaste um contrato. Cláusula catorze: disponibilidade em caso de eventos familiares maiores.
Ela apertou os lábios. Detestava que ele tivesse razão. Detestava que ele conhecesse o contrato melhor do que ela naquele momento. Sabia que lutar seria em vão. Ele tinha o dinheiro, os advogados e, acima de tudo, a sua palavra assinada.
— Vou arranjar-me e desço —disse ela secamente, afastando-se dele com brusquidão.
Subiu as escadas sentindo o olhar dele nas costas.
No seu quarto, Lucía ficou parada em frente ao armário durante um minuto inteiro, respirando fundo para não gritar. É apenas uma formalidade. Vais lá, sorris, dás a mão ao velho e voltas para a tua vida.
Não sabia o que devia vestir para ir conhecer a família de um multimilionário às cinco da manhã. Não sabia nada dos gostos de Alexander, nem do que se esperava dela. Devia ir de gala? Ridículo. De jeans? Desrespeitoso.
Finalmente, optou pela neutralidade. Tirou um fato de linho cor de crème: calça ampla e um blazer ajustado sobre uma blusa de seda branca. Era profissional, elegante e discreto. Escovou o cabelo deixando-o solto, lavou o rosto e aplicou uma maquilhagem mínima para ocultar as olheiras.
Quando desceu, Alexander estava de pé junto à lareira apagada, a olhar para uma fotografia emoldurada de Lucía com um cão que parecia estar a rir-se.
Ao ouvir os passos dela, ele virou-se. Os seus olhos cinzentos iluminaram-se com algo parecido com a aprovação.
— Adequado —disse ele.
— É o melhor que vais conseguir a esta hora —respondeu ela, pegando na mala.
— Espera. —Alexander meteu a mão no bolso interior da casaca—. Tenho algo para ti. Algo que nunca te dei e que será necessário se vamos ver o meu avô.
Tirou uma pequena caixinha de veludo vermelho.
Lucía sentiu um nó no estômago.
— O que é isto?
— Abre.
Lucía pegou na caixa e levantou a tampa. Dentro dela, pousado sobre o tecido branco, estava um anel impressionante. Um diamante solitário de corte esmeralda, enorme e puro, rodeado por pequenos brilhantes. Era uma jóia que custava mais do que toda a clínica veterinária.
Lucía olhou para a mão esquerda, onde usava a simples aliança de ouro branco que ele lhe pusera no dia do casamento "relâmpago".
— Põe-no —ordenou Alexander—. É teu. Deveria tê-lo feito há dez anos, mas... as circunstâncias não eram as ideais. O meu avô não acreditará que somos um casal feliz se usares apenas essa faixa de metal simples. Precisas de parecer a esposa de um De la Vega.
Lucía retirou o anel. O metal estava frio. Tirou a aliança, deslizou o diamante no dedo anelar —servia-lhe na perfeição, maldito Damián e a sua eficiência— e depois voltou a colocar a aliança para o segurar.
A jóia pesava. Pesava como uma corrente.
— Pronta —disse ela, levantando a mão para que ele visse. O diamante cintilou sob a luz do candeeiro—. Já pareço uma esposa-troféu?
Alexander ignorou o sarcasmo, mas aproximou-se dela, segurando-a pelo cotovelo com uma familiaridade que ainda não tinham conquistado.
— Pareces a minha esposa. Isso é suficiente. Vamos, Lucía. O espetáculo está prestes a começar.







