CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 4

(Dez anos atrás)

O som da chuva a bater no tejadilho do carro era o único que quebrava o silêncio sepulcral no interior da limusina.

Lucía Flores estava sentada na beirada do banco de couro cor de crème, tentando inutilmente não molhar a estofaria com o seu vestido de noiva ensopado. A água fria penetravá-la até aos ossos, mas o tremor das suas mãos não era apenas por causa do frio. Era por causa do homem sentado em frente a ela.

Alexander de la Vega observava-a com a mesma atenção clínica com que um predador avalia uma presa ferida. Não havia piedade no seu olhar, apenas cálculo. Tinha-lhe oferecido uma toalha seca que retirou de um compartimento oculto, e agora esperava que ela parasse de tremer para falar de negócios.

— Bebe isto —ordenou ele, estendendo-lhe um copo de cristal com um líquido âmbar.

Lucía aceitou-o com dedos desajeitados.

— O que é?

— Conhaque. Vai ajudar-te a aquecer. Precisas disso se quiseres prestar atenção ao que vou dizer-te.

Lucía deu um pequeno gole. O líquido queimou-lhe a garganta, mas o calor expandiu-se rapidamente pelo peito.

— Muito bem —disse Alexander, pousando o seu próprio copo numa mesinha lateral—. Não temos muito tempo, Lucía. Tenho de estar casado antes da meia-noite. Por isso serei direto.

Inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. A sua aura de poder preenchia o espaço reduzido do veículo.

— Isto é um negócio. Nada mais. Tu precisas... bem, a julgar pela tua situação, precisas de tudo. E eu preciso de uma certidão de casamento.

— Porquê? —perguntou ela. A sua voz soava estranha aos seus próprios ouvidos, distante.

— Porque o meu avô, o dono de tudo o que vês e do que não vês, colocou uma cláusula muito específica no seu testamento. Tenho de ser um homem "estável e de família" para herdar o controlo total do conglomerado. —Alexander fez uma careca de desagrado ao pronunciar essas palavras—. Ironicamente, agora ele está fora do jogo, mas os advogados dele não.

— Fora do jogo?

— Está em coma —esclareceu Alexander com frieza—. Sofreu um AVC há umas semanas. Os médicos não são otimistas, mas legalmente continua a ser o presidente da empresa. Se não me casar hoje, no prazo limite que ele estipulou há um ano, o controlo passa para um conselho de administração cheio de abutres que desmantelará a empresa em meses.

Lucía baixou o olhar para o copo que segurava. Um homem em coma. Um neto desesperado.

— Oxalá ele acorde depressa —murmurou ela. E dizia-o do fundo do coração. Sabia o que era perder a família, sabia o que era a ausência. Não desejava a morte a ninguém, nem sequer ao avô deste homem arrogante.

Alexander fitou-a, procurando algum vestígio de sarcasmo ou de bajulação, mas só encontrou honestidade nos seus olhos verdes. Isso desconcertou-o por um segundo. Recuperou a compostura rapidamente.

— Oxalá assim seja —concedeu ele, embora o seu tom sugerisse que o que mais o preocupava era a empresa e não o velho—. Mas passemos às condições. Se aceitares, assinaremos dois documentos agora mesmo. A certidão de casamento civil e um contrato pré-nupcial e de confidencialidade muito rigoroso.

— Condições?

— A principal é a duração —explicou Alexander, enumerando nos dedos—. Não nos podemos divorciar até que o meu avô me ceda o controlo total da empresa e a herança esteja legalmente no meu nome.

— E isso... quanto tempo demorará? —perguntou Lucía. A ideia de estar presa a um estranho dava-lhe vertigens.

— Não sei. Podem ser meses. Podem ser anos. Depende se ele acorda ou... se falecer. —Alexander disse-o sem pestanejar—. Até lá, serás a Senhora De la Vega perante a lei.

Lucía assentiu lentamente. Não tinha para onde ir. O apartamento que partilhava com Fernando já não era o seu lar; não tinha dinheiro; tinha gasto tudo no casamento e nos estudos dele.

— Além do tempo, há regras de convivência —continuou Alexander, retirando uma pasta de couro preto da sua mala—. Quero que entendas que este será um casamento apenas no papel. Uma fachada. Não partilharemos casa, nem quarto, nem cama.

Ao ouvir isto, Lucía sentiu um alívio imenso. O medo de que ele esperasse "direitos conjugais" dissipou-se.

— Não partilharemos os nossos dias —prosseguiu ele, seco—. Podes continuar a viver a tua vida como se eu não existisse. Não terás de me acompanhar a jantares, nem a viagens, nem a fingir sorrisos em cocktails aborrecidos. Salvo se for uma questão de força maior onde precise da tua presença para manter a farsa.

— E se isso acontecer?

— Avísame-me com antecedência se tiveres um problema, e eu aviso-te a ti —disse ele—. Mas a minha intenção é manter-te escondida. É melhor não te apresentar à imprensa, nem à minha família, por enquanto.

— Porquê?

— Porque a minha família é... complicada. E a imprensa é voraz. Não quero que te persigam sem necessidade, e francamente, não tenho tempo para te ensinar protocolo ou etiqueta neste momento. Prefiro manter-te no anonimato. Uma esposa discreta é uma esposa valiosa.

— Parece-me bem —respondeu Lucía. Não tinha qualquer interesse em ser famosa nem em conhecer gente rica que a olharia de cima, tal como Victoria Navarro fizera na igreja.

Alexander observou-a. Lucía não fazia ideia de quem ele era. Para ela, ele era apenas um fato caro e uma carteira cheia. E isso agradava-lhe. As mulheres que sabiam quem era Alexander de la Vega costumavam fingir desinteresse enquanto calculavam os zeros na conta bancária dele. Lucía parecia genuinamente alheia ao seu mundo.

— Chegarás a conhecer a minha família algum dia? —perguntou ela, apenas por curiosidade.

— Provavelmente não. Só se for estritamente necessário, como já disse. E a tua família? —perguntou ele, com a caneta suspensa sobre o papel—. Terei de lidar com um pai ciumento ou irmãos à procura de emprego?

— Não —disse Lucía com voz firme, erguendo o queixo—. Sou órfã. Cresci num orfanato. Não tenho ninguém.

Alexander assentiu. Perfeito, pensou. Sem laços, sem dramas, sem sogros. A candidata ideal caíra do céu, literalmente.

— Muito bem. Falemos da tua compensação. —Alexander adotou o seu tom mais profissional—. Não trabalho de graça e não espero que tu o faças. Em troca da tua assinatura e do teu tempo, dar-te-ei uma casa. Tenho uma propriedade na zona norte. É modesta para os meus padrões, mas confortável. Colocá-la-ei no teu nome imediatamente. Será tua, aconteça o que acontecer connosco.

Uma casa. Um teto próprio. Algo que ninguém lhe pudesse tirar. Os olhos de Lucía encheram-se de lágrimas, mas ela pestanejou para as conter.

— E dar-te-ei uma quantia todos os meses. Uma soma mais que suficiente para viveres confortavelmente sem teres de trabalhar se não quiseres.

Lucía olhou pela janela embaciada. O dinheiro era tentador, sim. Mas ela não queria ser uma mantida. Fernando usara-a e depois descartara-a porque ela ficara estagnada enquanto ele avançava. Não voltaria a cometer esse erro. Ela tinha um sonho.

— Há algo que desejas em particular? —perguntou Alexander, tirando-a dos seus pensamentos—. Um carro? Jóias? Viagens? Pede agora, Lucía. Sou um homem generoso quando se trata de fechar negócios.

Lucía virou-se e fitou-o nos olhos. Naquele momento, Alexander viu pela primeira vez o aço por detrás da tristeza da rapariga.

— Quero estudar —disse ela—. Quero tirar o curso de Medicina Veterinária.

Alexander arqueou uma sobrancelha, surpreendido.

— Só isso? Veterinária?

— Sim. Fernando... o meu noivo... —a palavra sufocou-a, amarga—, ele estudou Direito com a minha ajuda. Eu adiei a minha carreira por ele. Não quero jóias, Alexander. Quero um diploma. Quero ser alguém por mim própria.

Alexander sentiu um pingo de respeito. Era um pedido inteligente. As jóias perdem-se, o dinheiro gasta-se, mas um diploma e o conhecimento seriam dela para sempre.

— Feito —disse ele sem hesitar—. Damián tratará disso.

— Damián?

— O meu homem de confiança. É ele que está a conduzir agora. —Alexander apontou para a cabina do motorista, separada por um vidro escuro—. Damián Rossi encarregar-se-á de te matricular e de pagar todo o curso numa das melhores universidades do país. Livros, materiais, especializações... tudo por minha conta. Depende de ti se terminares ou não o curso. Eu forneço os meios, tu forneces o esforço.

— Parece-me justo.

— Se precisares de alguma coisa —acrescentou Alexander, voltando a olhar para os papéis—, podes comunicar com ele. Na verdade, qualquer assunto, problema com a casa ou necessidade médica, tratas disso diretamente com o Damián. Ele é o meu intermediário.

— Não falarei contigo?

— Não. —Alexander foi categórico—. Mais uma coisa, e isto é vital: não haverá contacto entre nós. Eu tenho a minha vida, os meus negócios e... os meus assuntos privados. Tu terás a tua. Não te pedirei fidelidade, Lucía, porque isto não é um casamento real.

Alexander pensou em acrescentar uma cláusula de discrição. Ele não tinha intenção de ser fiel; a sua vida de solteiro cobiçado não ia parar por causa de um papel. Mas também não queria que Lucía aparecesse nas capas de revistas baratas com três namorados diferentes.

— Contudo —esclareceu—, direi ao meu advogado para acrescentar uma cláusula de discrição no contrato de confidencialidade que te será enviado amanhã. Faz o que quiseres, com quem quiseres, mas que seja em privado. Não me envergonhes. Se saíres com alguém, que as câmaras não se apercebam. Entendido?

— Não tenho intenção de sair com ninguém —respondeu Lucía com amargura—. Acho que já tive homens suficientes para uma vida inteira.

— Melhor assim —disse ele, indiferente. Mas sabia que Lucía era jovem e que agora estava apenas magoada. Daqui a uns anos mudaria de opinião e ele devia estar protegido.

Alexander estendeu o contrato sobre a pequena mesa de nogueira rebatível. Entregou-lhe uma caneta-tinteiro de ouro e laca preta.

— Assina aqui, aqui e aqui.

Lucía pegou na caneta. Era pesada. Ficou a olhar para as linhas negras do texto legal. Palavras como "patrimónios separados", "duração indeterminada", "cessão de direitos".

Por um momento, perguntou-se onde estaria a armadilha. Parecia demasiado fácil. Casa, estudos, dinheiro, em troca de uma assinatura. Mas depois lembrou-se da cara de Fernando a rir-se dela com a Victoria. Lembrou-se de que não tinha onde dormir naquela noite.

Olhou para Alexander. Ele não a estava a salvar por bondade. Estava a usá-la. Mas ela também o estava a usar a ele. Era uma troca justa. Dois náufragos a agarrar-se ao mesmo pedaço de madeira por razões diferentes.

— Estás de acordo? —perguntou ele, impaciente, olhando para o relógio. Faltavam quarenta minutos para a meia-noite.

Lucía respirou fundo, engolindo o medo e a nostalgia da vida que pensara ter. Essa vida tinha morrido.

— Sim —disse com firmeza—. Estou de acordo.

A caneta rasgou o papel. Lucía Flores.

Com aquele traço, vendera a sua liberdade e comprara o seu futuro.

Alexander pegou nos papéis rapidamente, verificou as assinaturas e soltou um suspiro de alívio evidente. Guardou tudo na pasta e bateu duas vezes no vidro divisório com os nós dos dedos.

O carro arrancou suavemente, deslizando pela estrada molhada.

— Bem-vinda à família, esposa —disse Alexander, servindo-se de outra bebida e olhando para o telemóvel, esquecendo-se dela instantaneamente.

Lucía recostou-se no banco, observando as luzes da cidade a passarem turvas através da chuva. Não se sentia uma esposa. Sentia-se uma sobrevivente. E, pela primeira vez em toda a noite, parou de chorar.

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