Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu estava vendida.
A frase ecoava como um sino grave, constante, na minha cabeça, era impossível de ignorar. Eu encarava a tela do celular, como se cada repetição fosse uma confirmação inevitável.
Vinte e cinco milhões. Alessandro Rossi.
O nome, antes apenas um perfil vazio, agora tinha forma. Peso. Presença. O site ainda exibia a notificação final em letras vermelhas, estáticas, definitivas:
“Vencedor confirmado. Pagamento enviado.”
Não comemorei. Não chorei. Não senti nada imediato — apenas um vazio frio se espalhando devagar pelo peito, como se ocupasse espaços que antes já estavam ocos.
Vendida. Como um objeto. Como minha mãe tinha sido.
A diferença era que eu tinha escolhido. Ou pelo menos era isso que eu repetia para mim mesma. Porque, se não fosse agora, seria depois. Meu pai não hesitaria em fazer negócio quando a hora chegasse.
As mensagens continuavam chegando, insistentes, quase desesperadas.
“Não termina assim, manda mais fotos.”
“Quanto pra ser o próximo?”“Pago 500k por uma noite só de conversa.”“Me dá uma chance.”“Última foto? 100k em BTC.”Eu lia tudo. Não respondia. Não precisava mais deles. Havia um vencedor. E isso, mais do que qualquer outra coisa, me revirava por dentro.
A notificação seguinte veio dele.
“Olá, meu prêmio. Agora podemos conversar, sim? Vamos começar pelas regras.”
Fiquei olhando a mensagem por alguns segundos antes de continuar lendo.
“Primeira regra: eu cuido dos documentos.”
“Segunda regra: encontro amanhã. Jantar.”Meus dedos hesitaram sobre o teclado. Eu já via o problema antes mesmo de responder.
“Não posso sair à noite.”
A resposta veio quase imediatamente.
“Entendido. Almoço, então. Terceira regra: me passe seu número. Quero falar diretamente com você.”
Meu corpo enrijeceu. O celular que eu usava não era meu. Nunca foi. Eu o tinha tirado de uma das babás anos atrás, no meio de um dia caótico. Ele tinha desaparecido, ela foi demitida, junto com os outros. Meu pai fez disso um espetáculo. Eu nunca disse nada.
Alessandro insistiu:
“Preciso do contato. Não vou ficar esperando resposta em aplicativo.”
Respirei fundo antes de digitar.
“Me passa o seu. Eu te chamo.”
“Tudo bem. Mas se não me mandar mensagem, eu vou te caçar. Está avisada. xx xxx-xxx-xxx. Quarta regra: documentos. Quero ver tudo. Sem esconder.”
Senti minhas mãos ficarem frias. Mesmo assim, obedeci. Enviei o que ele pediu, direto para o número. Sem pensar demais. Sem me permitir pensar, na verdade. Em seguida, saí do site. Não voltaria mais ali.
Ele respondeu:
“Boa garota. Agora, endereço. Preciso saber onde buscar você.”
Meu pensamento já não acompanhava minhas ações. Eu só seguia.
Digitei as informações com cuidado, acrescentando instruções: horários específicos, distância do portão, nada de aproximação direta. Se ele aparecesse da forma errada, meu pai veria. E isso não podia acontecer.
“Última regra: quero uma foto sua antes de dormir. Deitada. Sem esconder o rosto.”
Parei. Fiquei olhando a mensagem por mais tempo do que qualquer outra. Minhas mãos estavam geladas. O quarto parecia menor. O ar, mais pesado. Meu pai estava no andar de baixo. Mas eu já tinha ido longe demais. Não havia retorno.
Deitei na cama devagar. A luz do abajur era fraca, suficiente apenas para não deixar o quarto completamente escuro. Olhei para a câmera. Rosto neutro. Olhos abertos. Por dentro, algo tremia. Medo, talvez. Ou só ansiedade.
A resposta veio quase imediatamente.
“Perfeita. Amanhã, 13h. Esteja pronta. Eu vou buscar você.”
Desliguei a tela. Coloquei o celular sob o travesseiro e me virei de lado, encarando o vazio escuro do quarto.
Vendida.
Mas, pela primeira vez em anos, o amanhã existia. Eu só precisava sair.
Na manhã seguinte acordei antes do sol. O quarto ainda estava mergulhado na mesma escuridão pesada de sempre. A casa silenciosa.
Eu não tinha dormido direito. O celular vibrou sob o travesseiro, discreto, insistente. Demorei um pouco antes de pegá-lo.
03:47
A luz da tela incomodou meus olhos. Mensagem do banco. Senti algo próximo de alívio enquanto abria a notificação.
Depósito recebido: R$ 25.000.00
Data: 10/03/2026 02:14
Fiquei olhando o número. Vinte e cinco milhões. Real. Intocável. Fora do alcance dele. Mas o alívio não ficou. O que veio foi o mesmo vazio frio, subindo lentamente do peito até a garganta, como se me sufocasse por dentro. As lágrimas começaram a cair sem que eu percebesse.
Silenciosas. Sempre silenciosas. Eu nunca chorava alto, não podia.
Deixei que escorresse, molhando o travesseiro sem fazer som.
Então o pensamento veio.
“E se fosse um erro? E se Alessandro fosse pior? E se eu só estivesse trocando uma prisão por outra?”
Fechei os olhos por um instante. Quando abri, ignorei todas as outras notificações. Bloqueei o celular. Não queria mais ver nada daquilo.
Fiquei apenas com o saldo aberto, brilhando na tela. Uma escolha transformada em número.
“E APAGUE ESSA DROGA DE FOTOS DO SITE”
Meu corpo inteiro travou. O coração bateu forte demais, dolorido. Abri a conversa com o número que ele tinha me dado.
Hesitei. O medo de contrariar falou mais alto. Sempre falava. Eu sabia o que acontecia quando eu contrariava meu pai. Não havia razão para acreditar que seria diferente agora.
Abri o aplicativo e deletei tudo.
Acabou.
“Boa garota. Agora durma. Amanhã às 14h. Esteja pronta.”
Não respondi. Coloquei o celular de volta sob o travesseiro e me virei. O arrependimento apertou meu peito. As lágrimas voltaram, silenciosas como antes. Mordi o travesseiro para conter qualquer som.
Amanhã ainda existia. Às 14h. Alessandro Rossi. Vinte e cinco milhões.
Fechei os olhos.
O sono veio quebrado, fragmentado, cheio de imagens que não se organizavam. Portas abrindo, passos no corredor, o dinheiro desaparecendo, alguém me encontrando antes que eu conseguisse sair.
Acordei várias vezes. Sempre com o coração acelerado. Sempre com a mesma certeza: já não tinha mais como voltar.







