Mundo de ficçãoIniciar sessãoEsther Hawthorne
A maçaneta girou do lado de fora e meu corpo inteiro tremeu.
Eu estava sentada na beirada da cama havia tanto tempo que minhas pernas já doíam, mas ainda assim me levantei num salto, como se pudesse me preparar para o que quer que fosse entrar por aquela porta. Meu coração batia forte demais, pesado demais.
A porta se abriu.
Dois homens entraram primeiro. Os mesmos ternos escuros, a mesma postura rígida, os mesmos olhos frios acima da linha das máscaras. Atrás deles, uma mulher apareceu, foi até a mesa central do quarto e pegou a bandeja de mais cedo, com o prato de comida, que custei a comer.
Não falei nada.
Nem eles.
O silêncio naquela mansão era pior do que gritos. Era um silêncio que esmagava, que se enfiava na pele, que fazia tudo parecer mais perigoso.
A mulher pegou a bandeja e em seguida saiu do quarto, sem dizer uma palavra. Um dos homens deu um passo à frente.
— O Don quer a senhorita no jantar em quinze minutos.
Meu estômago afundou.
Jantar, com ele.
Depois da tentativa de fuga. Depois da humilhação de ser arrastada de volta como se eu fosse um animal tentando escapar da coleira.
Engoli em seco e apertei os dedos na barra do vestido que eu ainda usava desde ontem, agora amarrotado, pesado sobre minha pele.
— Eu não estou com fome. — Minha voz saiu baixa, falha.
O homem nem piscou.
— Não foi um convite.
Claro que não foi.
Nada ali era escolha.
Quando eles saíram, a porta tornou a ser trancada pelo lado de fora, e por alguns segundos eu fiquei parada no meio do quarto, olhando para o vazio, tentando controlar a tremedeira nas mãos.
Meus olhos foram até o armário.
Ontem eu não tinha prestado atenção de verdade. Estava apavorada demais. Mas agora, com o silêncio esmagando meus ouvidos e a ordem do Don ainda ecoando na minha cabeça, fui até lá e abri as portas de madeira escura.
Havia roupas.
Muitas.
Vestidos, blusas, casacos, saias, sapatos alinhados. Tudo novo. Tudo escolhido. Tudo no meu tamanho.
Aquilo me deu náusea.
Era como se ele já soubesse. Como se tivesse preparado minha prisão antes mesmo de eu ser entregue a ele. Como se eu fosse esperada. Planejada.
Passei os dedos por alguns tecidos, sentindo o toque macio, caro, luxuoso demais para alguém como eu. Escolhi um vestido simples, de um tom escuro, sem detalhes chamativos. Não queria parecer bonita para ele. Não queria agradá-lo. Não queria dar a ele mais nada do que já havia tomado.
Mas, no fundo, eu sabia que minha escolha não mudava coisa alguma.
Prendi a respiração e tirei o vestido velho. Troquei de roupa lentamente, como se cada movimento pesasse. Arrumei o cabelo com os dedos, tentando domar os fios negros que insistiam em cair pelas costas e pelos ombros. Lavei o rosto, embora meus olhos ainda denunciassem que eu tinha chorado.
Quando bateram à porta de novo, eu já estava pronta.
Ou pelo menos tão pronta quanto alguém podia estar para sentar à mesa com o homem que a havia comprado.
Os corredores da mansão pareciam ainda mais frios à noite.
As luzes douradas nas paredes criavam sombras longas e distorcidas, e os passos dos homens atrás de mim faziam parecer que eu estava sendo levada para algum julgamento. O chão de mármore refletia tudo. Os quadros antigos nas paredes observavam em silêncio. As janelas altas, blindadas, mostravam apenas a escuridão do lado de fora.
Nenhuma saída. Nenhuma chance. Eu estava presa ali, sem escapatória.
Quando chegamos à sala de jantar, meu fôlego falhou por um segundo.
Tudo estava preparado.
A mesa comprida era elegante demais, impecável, iluminada por lustres baixos que lançavam um brilho dourado sobre cristais, talheres e pratos perfeitamente alinhados. Havia vinho, água, uma bebida âmbar, pão, pratos quentes com cheiro de ervas, carne, legumes assados, tudo com aquela aparência refinada que eu só tinha visto em restaurantes caros pela vitrine.
Damian Moretti já estava ali.
Sentado à cabeceira, com a postura relaxada demais para alguém que controlava uma sala inteira sem sequer precisar levantar a voz. A camisa escura dobrada nos antebraços revelava parte das tatuagens. O relógio no pulso brilhava discretamente. O olhar castanho caiu sobre mim no instante em que entrei, e foi como se eu tivesse sido tocada por algo invisível e perigoso.
Ele não desviou.
Nem eu consegui.
— Sente-se. — A voz dele veio baixa, rouca, calma. Dominante. Fiz o que mandou.
Porqueeu sabia que não tinha outra opção.
Uma das cadeiras já estava puxada para mim, ao lado direito dele, perto demais. Sentei com as costas retas, tentando não demonstrar o quanto meu corpo inteiro queria recuar. Um funcionário serviu meu prato em silêncio e desapareceu logo em seguida.
Por alguns minutos, só houve o som dos talheres.
Eu mal consegui engolir as primeiras garfadas.
Sentia o olhar dele em mim o tempo todo. Não de forma apressada, nem vulgar. Era pior. Era atento. Calculado. Como se cada pequeno gesto meu fosse informação. Como se ele estivesse sempre aprendendo alguma coisa comigo.
Meu jeito de segurar o garfo. Minha respiração. O modo como eu evitava encará-lo por mais de alguns segundos.
Por fim, ele levou o copo com a bebida forte aos lábios e falou:
— Você tentou fugir cedo demais.
Minha mão apertou o talher.
— Eu fui vendida. O que esperava? Que eu agradecesse? — não sei como consegui dizer isso, mas só disse o que estava entalado em mim.
Um canto da boca dele se ergueu, lento, perigoso.
— Esperava inteligência. — afirmou, virando seu rosto em minha direção.
Levantei os olhos para ele.
— Inteligência seria me deixar ir. Eu não valo nada.
As palavras saíram mais rápidas do que eu queria. Amargas. Automáticas.
O olhar dele mudou.
Ficou mais fixo. Mais pesado.
— Esse foi o primeiro erro que colocaram dentro da sua cabeça, Esther.
Meu nome na boca dele me causou um arrepio ruim.
— Está enganado. — falei, tentando sustentar a voz. — Se eu tivesse qualquer valor, meu tio não teria me entregado como se eu fosse lixo. — afirmei, respirando fundo.
Damian pousou o copo devagar sobre a mesa.
— Lucas Hawthorne entregaria a própria sombra se isso comprasse mais alguns dias de fôlego. A fraqueza dele nunca definiu o peso do seu sangue.
Senti meu estômago apertar.
Meu sangue.
Meu sobrenome.
Hawthorne.
Eu o encarei, sem entender, mas já sentindo o medo mudar de forma dentro de mim.
— O que isso quer dizer?







