Capitulo 5

Esther Hawthorne.

O que o Don queria dizer sobre minha familia? Continuei olhando para ele, esperando que tirasse minha duvida. 

Ele recostou levemente na cadeira, me observando com aquela calma insuportável de homem que sempre sabe mais do que diz.

— Quer dizer que você sabe muito pouco sobre a família que carrega no nome.

— Minha família está morta. — simplesmente disse. 

— Não. — ele corrigiu com frieza. — Parte dela está morta. Outra parte apodreceu. E uma parte ainda assombra gente poderosa o suficiente para fazer homens se moverem quando ouvem o nome Hawthorne.

Fiquei imóvel.

Meu coração batia tão forte que eu podia ouvir.

— Isso não faz sentido.

— Faz mais sentido do que a história pobre e conveniente que contaram a você desde a infância.

Minha respiração falhou por um instante.

— Está mentindo.

Mas nem eu acreditei na firmeza da minha voz.

Ele inclinou um pouco a cabeça, me estudando, como se estivesse avaliando o exato ponto onde a verdade começava a me ferir.

— Seu pai não era apenas um homem tentando sobreviver. E sua mãe não morreu sendo ninguém. Os Hawthorne construíram poder. Influência. Alianças. Dívidas. Inimizades. Seu sobrenome abre portas, fecha bocas e ressuscita velhos interesses.

Balancei a cabeça devagar.

— Não. Não. Você deve estar me confundindo com outra pessoa.

— Eu sei exatamente quem você é.

As palavras vieram baixas, mas cortaram o ar como faca.

Ele se inclinou um pouco para mais perto, o suficiente para que eu sentisse a presença dele de forma sufocante.

— Sei quem foi seu pai. Sei com quem ele sentou. Sei o que ele assinou. Sei quem o temia. Sei quem ainda fala dele em voz baixa. Sei por que você foi escondida longe de tudo isso. E sei por que colocar você nesta casa muda mais coisas do que você consegue imaginar.

Fiquei em choque.

Não conseguia mexer os dedos. Nem respirar direito.

A imagem do meu pai na minha cabeça sempre fora simples. Distante. Dolorida. Um homem que eu amava e perdi cedo demais. Nada além disso. Nada de poder. Nada de homens perigosos. Nada de alianças sombrias. Eu não estava entendendo isso, era verdade mesmo? 

— Por que eu? — sussurrei. — Se tudo isso fosse verdade... por que eu?

Damian sustentou meu olhar sem piedade.

— Porque você é a última Hawthorne que importa.

O silêncio depois daquilo pareceu expandir a sala.

Eu desci os olhos para o prato, mas não via mais nada. Minha mente corria, tropeçando em memórias velhas, pequenas coisas que nunca fizeram sentido, olhares do meu tio, portas fechadas, conversas interrompidas quando eu entrava no cômodo.

Tudo aquilo...

Tudo aquilo era sobre mim?

Ou sobre o nome que eu carregava sem entender?

— Você me trouxe aqui por causa disso? — perguntei, mais baixo. — Por poder?

Ele pegou o copo de novo, girando o líquido âmbar.

— Poder sempre cobra o preço mais alto.

— Isso não responde.

— Responde o suficiente.

A raiva subiu quente por baixo do medo.

— Então eu sou isso? Um negócio? Um sobrenome útil? Um pedaço de estratégia para você crescer ainda mais?

Ele me fitou por alguns segundos, impassível demais.

— Você é minha agora. Isso basta.

Meu peito queimou.

— Eu não pertenço a você. — afirmei, sentindo meu rosto quente demais...

Ele sorriu.

Não um sorriso bonito. Um sorriso perigoso. De homem acostumado a vencer.

— Pertence, sim. Legalmente, politicamente e, se continuar me desafiando desse jeito, de formas que você ainda não entende.

Prendi a respiração.

Havia ameaça ali. Mas também havia algo pior. Algo que eu não queria nomear. Uma atenção excessiva. Um interesse que não combinava com a frieza calculada das palavras dele.

Ele me queria pelo que eu representava.

Mas também me observava como se houvesse mais.

Como se eu o irritasse e o atraísse ao mesmo tempo.

Como se meu medo fosse apenas parte do jogo que ele pretendia dominar até o fim.

Baixei os olhos, tentando pensar.

Se ele sabia tanto... então também sabia coisas sobre meus pais. Sobre minha família. Sobre mim.

Eu precisava descobrir.

Mesmo que tivesse de engolir o medo. Mesmo que tivesse de suportar a presença dele. Mesmo que precisasse aprender a chamar a atenção daquele homem sem me destruir no processo.

Porque, pela primeira vez em anos, eu sentia que a verdade estava perto o bastante para ser tocada.

E talvez fosse terrível.

Mas era minha.

Damian se levantou.

O movimento foi simples, porém bastou para fazer o ar mudar. Ele veio até mim e parou ao lado da cadeira. Meu corpo inteiro enrijeceu.

— Venha. — disse.

— Para onde?

— Biblioteca.

Hesitei.

Ele pousou a mão no encosto da minha cadeira, os dedos longos apertando a madeira.

— Não me obrigue a repetir.

Levantei.

Fui atrás dele pelos corredores em silêncio, tentando ignorar o som dos próprios passos e a forma como ele parecia ocupar cada espaço por onde passava. A biblioteca ficava numa ala mais escura da mansão. As portas duplas de madeira maciça se abriram, revelando estantes altas, couro, cheiro de papel antigo, luz baixa, uma lareira acesa queimando em silêncio.

Era um lugar bonito.

Mas naquela casa, até a beleza parecia ameaçadora.

Entrei devagar.

Meus olhos correram pelas estantes, pelos objetos antigos, pelos quadros nas paredes. E então... parei.

O ar sumiu dos meus pulmões.

Na parede do fundo, parcialmente iluminado pela lareira, havia um retrato antigo em moldura escura.

Meu pai.

Meu pai estava ali.

Mais jovem do que eu lembrava. Elegante. Sério. Ao lado de três homens que eu nunca tinha visto, todos com a mesma presença dura, perigosa, predatória. Homens que não pareciam empresários, nem políticos, nem amigos comuns.

Pareciam homens capazes de mandar alguém desaparecer com uma única ordem.

Minha pele gelou.

Dei um passo à frente sem perceber.

— Não... — sussurrei.

Damian parou atrás de mim.

Perto demais.

— Agora você começa a entender. — a voz dele veio baixa, pesada, quase junto ao meu ouvido. — Seu pai não era um homem qualquer, Esther.

Fiquei olhando para o retrato, sem conseguir piscar.

Meu coração martelava. Minha garganta queimava.

Se aquilo era verdade... então tudo na minha vida tinha sido uma mentira.

E eu estava presa justamente no centro dela.

Virei o rosto só um pouco, sentindo a presença de Damian como uma ameaça viva nas minhas costas.

— Quem eram eles? — perguntei, quase sem voz.

Houve uma pausa.

Longa demais.

Perigosa demais.

Então ele respondeu:

— Homens que podem voltar a querer você.

E naquele instante, entendi que o pior não era estar na mansão do Don.

O pior era descobrir que talvez aquela prisão tivesse me salvado de algo ainda mais sombrio.

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