Mundo ficciónIniciar sesiónAngel
Eu ainda estava tremendo quando o carro parou. Não sei quanto tempo se passou desde que ele me arrancou da casa do meu pai até chegarmos ali, mas parecia que a noite tinha alongado todas as horas. Minha cabeça doía, meus olhos ardiam, meu coração estava preso em um ponto entre a garganta e o estômago. Quando olhei pela janela, vi a mansão. Alta, imponente, cercada por muros e portões que pareciam dizer “aqui ninguém entra sem permissão”. As luzes externas iluminavam a fachada, os jardins estavam perfeitamente cuidados, cada árvore podada, cada planta no lugar certo. Era bonito. Luxuoso. Impressionante. E, pra mim, tinha cara de prisão. Por fora, tudo parecia um palácio de filme. Por dentro, tudo em mim gritava que aquele era o lugar onde o inferno ia ganhar um novo endereço. A porta do carro se abriu e o vento frio de Boston me atingiu em cheio. Por um segundo, pensei em não sair. Ficar ali, grudada no banco, fingir que se eu não me mexesse, o tempo voltaria atrás. Mas a voz dele cortou qualquer tentativa de ilusão. — Vamos, Angel. Não era um pedido. Era uma ordem. Desci do carro com as pernas bambas, sentindo as mãos suando. Damon andava alguns passos à frente, como se aquela mansão fosse apenas mais um cômodo da mente dele. Os seguranças carregavam minhas malas sem esforço, como se estivessem acostumados a transportar o mundo dos outros nas costas. Quando entramos, o impacto foi ainda maior. O hall era enorme. O piso do chão brilhava tanto que eu poderia ver meu rosto nele se tivesse coragem de olhar pra baixo. Um lustre gigantesco pendia do teto, cheio de cristais que refletiam a luz em mil pontos diferentes. As paredes tinham quadros caros, discretos, elegantes demais pra alguém como eu. Eu me senti menor do que nunca. Quase esperei ele me dizer “bem-vinda” com aquela voz arrogante, mas ele não disse nada. Apenas seguiu em frente, em direção à escadaria principal, como se soubesse que eu iria atrás. E eu fui. Não porque queria. Mas porque não tinha escolha. Cada degrau parecia mais alto do que o normal. Eu subia tentando controlar a respiração, ouvindo o som dos meus passos ecoando na escada, sentindo o medo crescer a cada andar que me afastava da rua. No segundo andar, ele finalmente parou. Ele abriu uma porta dupla, de madeira escura, e entrou antes de mim. Eu respirei fundo e o segui, já sentindo o estômago embrulhar só de imaginar o que me esperava ali dentro. Foi quando vi o quarto. É o tipo de quarto que você nunca esquece. A primeira coisa que chamou minha atenção foi a cama. Enorme, larga, com lençóis pretos impecavelmente esticados, travesseiros alinhados, um cobre-leito pesado. Tudo escuro, elegante e… intimidador. Havia uma lareira apagada na parede oposta, uma poltrona de couro perto da janela, um closet com portas fechadas, prateleiras com livros bem organizados, alguns relógios caros expostos em cima de uma cômoda, frascos de perfume colocados como se fossem parte da decoração. Em cima da poltrona, um casaco dele, jogado de qualquer jeito. Sobre a mesa, um relógio metálico e documentos empilhados. Não era um quarto de hóspedes. Era o quarto dele. O cheiro também era dele. Um perfume amadeirado, marcante, misturado ao aroma de algo limpo e caro. Eu senti meu peito apertar. — Esse é o seu quarto. — sussurrei, mais pra mim do que pra ele. Ele se virou, apenas inclinando levemente a cabeça, como se confirmasse algo tão óbvio que nem merecia ser respondido com palavras. A sensação de estar ainda mais presa me atingiu com mais força do que a visão da mansão do lado de fora. Eu não ia ter nem um quarto em que pudesse fingir que aquele cara não existia. Eu ia dormir cercada por coisas dele, pela presença dele, pelo cheiro dele. Minha primeira reação foi usar a única coisa que eu ainda tinha algum controle: minha boca. Cruzei os braços e ergui o queixo. — E onde é o quarto em que eu vou dormir até conseguir fugir de você? — perguntei, tentando manter a voz firme. Ele riu. Não foi um sorriso discreto, nem uma risadinha de canto de boca. Foi uma risada alta, aberta, cheia de deboche. Do tipo que deixa claro que ele não leva a sério nada do que eu acabei de dizer. Quando a risada diminuiu, ele começou a se aproximar. Um passo de cada vez, sem pressa, os olhos presos nos meus. Ele tinha aquele tipo de olhar que parece olhar dentro, não pra fora. Como se estivesse avaliando cada reação, cada tremor. Parou tão perto que eu consegui sentir o cheiro do perfume dele com mais intensidade. — Você não vai fugir de mim, Angel. — afirmou, calmo, como se estivesse falando sobre algo certo, inevitável. — E só tem uma cama pra você nessa mansão. A minha. As palavras bateram em mim como um tapa. Eu senti um arrepio subir pelas costas, mas não recuei. O medo veio, sim, veio rápido, veio forte, mas junto com ele veio uma raiva quente, quase sufocante. Ele achava que podia simplesmente me colocar ali, anunciar que eu teria que dormir na cama dele, e pronto? Eu apertei os dedos nos meus próprios braços, mais como uma âncora do que qualquer outra coisa. — Se você encostar em mim… — soltei, a voz mais baixa, pesada. — Se ousar me tocar intimamente, eu juro que mato você. Eu falei sério. Cada letra daquela frase tinha gosto de verdade na minha boca. Os olhos dele brilharam. Não de raiva. De interesse. Ele não se ofendeu. Não recuou. Pelo contrário. Uma segunda risada escapou, dessa vez mais baixa, quase um sopro de diversão perigosa. — Você é ainda mais interessante do que eu imaginei. — falou. Ele se inclinou, aproximando o rosto do meu, até eu conseguir ver cada detalhe dos olhos dele, a linha exata dos cílios, o formato da boca. O queixo dele quase roçava o meu. Meu corpo inteiro gritou pra eu dar um passo atrás, mas eu fiquei ali, travada, porque eu sabia que, se recuasse, ele ia sentir que tinha vencido mais um pedaço de mim. A voz dele veio num sussurro rouco, carregado de algo sedutor e irritante na mesma proporção: — Não se preocupe, pequena. Vai ser você quem vai implorar pelo meu toque. A frase queimou. Por um segundo, eu quase perdi o ar. Uma parte do meu corpo reagiu de forma que me fez sentir nojo de mim mesma, um arrepio rápido, involuntário, que eu imediatamente transformei em ódio. Eu quis gritar. Quis empurrá-lo. Quis esmurrar aquele peito coberto por um terno perfeito. Mas eu fiz outra coisa. Eu mantive o olhar preso no dele, sem piscar, sem abaixar a cabeça. Senti a voz tremer um pouco, mas não deixei isso me impedir. — Vai sonhando, babaca. — sussurrei de volta. Por um segundo, o canto da boca dele se levantou mais, como se eu tivesse acabado de confirmar algo que ele já desconfiava. — Pode ter certeza que vou. — respondeu, com um sorriso que tinha a ousadia de ser bonito. — Até você ceder. Ficamos assim. Eu parada, com o coração descompassado, lutando pra não deixar o medo aparecer no rosto. Ele tão perto que bastaria um único movimento para me tocar, mas sem fazê-lo. Era como se o jogo dele fosse esse: me cercar, prometer, ameaçar, sem precisar dar o último passo. O quarto inteiro parecia menor. A cama enorme atrás de mim, os objetos dele por todos os lados, o cheiro dele no ar. Eu quis estar em qualquer outro lugar. Em qualquer outro momento da minha vida. Mas eu estava ali, e não havia por onde correr. Naquele instante, eu prometi uma coisa pra mim mesma, ele podia ter assinado todos os contratos do mundo, podia ter meu pai nas mãos, podia ter uma mansão inteira pra me trancar. Mas o que eu sentia, o que eu escolhia dentro de mim, não seria tão fácil assim de tomar. E nós ficamos ali, no clima pesado daquele quarto… ele, com a certeza do predador que acha que já venceu. Eu, com o coração em frangalhos, mas agarrada à única resistência que ainda tinha. Eu não ia me quebrar tão fácil. Pelo menos, era o que eu repetia pra mim mesma, como um mantra, enquanto o olhar dele ainda queimava o meu.






