Mundo de ficçãoIniciar sessãoDamon
Eu já tinha visto fotos dela. Tinha passado noites analisando aquele rosto na tela, o sorriso ingênuo demais para o meu mundo, tentando entender por que, entre tantos rostos, justo o dela tinha prendido a minha atenção. Mas nada me preparou para vê-la pela primeira vez. Ela está em pé no meio da sala, menor do que eu esperava, mas estranhamente presente. Um metro e sessenta, no máximo. Pequena. Qualquer pessoa comum olharia e veria fragilidade. Eu não. Eu vejo um queixo erguido, olhos firmes, um medo que tenta se esconder atrás da raiva. Ela pode até estar quebrada por dentro, mas não se entrega sem lutar. Isso me chama a atenção de imediato. A diferença de tamanho entre nós é gritante. Eu sei que sou alto, sempre soube usar isso ao meu favor, mas com ela… essa diferença ganha outro peso. Me instiga. Me provoca. Me desperta um lado lascivo e perigoso, aquele que gosta de ocupar o espaço inteiro e deixar o outro sem saída. Ela me encara, os olhos escuros fixos nos meus. Não abaixa a cabeça. Não desvia. Não tenta agradar. Ela reage. — O que está acontecendo? — ela dispara, a voz trêmula, mas firme o bastante para ecoar na sala. — Quem você pensa que é para entrar na minha casa sem ser convidado? A fúria dela deveria me irritar. Em vez disso, me diverte. Dou um passo à frente, sentindo os olhos dela acompanharem cada movimento. A sala parece diminuir. O som da respiração dela fica mais nítido. Quando me inclino, a sombra do meu corpo cobre o rosto dela. É quase instintivo. Eu sempre fui a sombra que ocupa o ambiente inteiro. Deixo um sorriso lento surgir nos meus lábios. Não é um sorriso simpático. É uma sentença anunciada. — Sou Damon Laurent — digo, com a voz baixa e controlada. — Seu novo dono... e futuro marido. As palavras pairam entre nós, pesadas. Vejo o momento exato em que o olhar dela vacila. O cérebro tenta entender se isso é uma ameaça, uma piada, um pesadelo, uma loucura qualquer criada pelo álcool do pai. Ela pisca algumas vezes, engole em seco, e então faz o óbvio… procura uma saída. Ela se vira para o pai. Eu acompanho o movimento, observando com atenção. Os ombros dela enrijecem, o corpo inteiro parece se apoiar, por um segundo, na ilusão de que ele vai dizer alguma coisa, qualquer coisa. Que vai se levantar, gritar, negar. Heitor permanece calado. O copo ainda na mão. Os dedos apertam o cristal, mas ele não se mexe, não abre a boca, não olha para a filha. É nesse instante que eu entendo algo importante, ela está sozinha no mundo. Não há ninguém ali disposto a protegê-la. Ninguém para se colocar entre mim e ela. A única pessoa que poderia fazê-lo escolhe olhar para o fundo de um copo em vez de encarar a própria filha. Um ponto dentro de mim se fixa. A decisão que eu já tinha tomado fica ainda mais sólida. Volto a avançar. Ela percebe. O corpo responde antes da mente. Ela dá um passo para trás, depois outro, até encostar as costas no braço do sofá. O medo começa a aparecer mais claramente, misturado à indignação. — Fica longe de mim — ela solta, a voz um pouco mais baixa, mas ainda resistente. — Eu não vou a lugar nenhum com você. Eu poderia mandar os seguranças resolverem isso em segundos. Poderia transformar essa cena em algo rápido, frio, técnico. Mas não é o que eu quero. Quero medir a força dela. Quero ver até onde essa coragem vai antes de quebrar. Dou mais um passo. Agora estou perto o suficiente para sentir a respiração dela bater no peito do meu terno. Ela levanta o queixo, como se isso pudesse igualar as nossas alturas. Por alguns segundos, eu só observo. E então, decido agir. Inclino-me e passo um braço por detrás dos joelhos dela, o outro pelas costas. Ergo o corpo dela do chão com facilidade. Ela é leve. Pequena. Mas luta como se fosse muito maior do que é. — Me solte! — ela grita, o som rasgando a sala. — Me solte agora! — as mãos começam a bater no meu peito, empurrar, tentar se agarrar a qualquer coisa. — Pai, por favor! Pai! Aperto o abraço, ajustando o peso dela nos meus braços, sem perder o controle em nenhum momento. Ela se contorce, tenta chutar, tenta se soltar, mas não consegue. — Você vai se acostumar comigo, pequena — sussurro perto do ouvido dela, sem elevar o tom. Não é carinho. É aviso. Os gritos dela reverberam pelo ambiente, mas eu já aprendi há muito tempo a atravessar o caos sem hesitar. Levanto os olhos por um instante na direção de Heitor. Ele continua sentado, imóvel, o copo preso na mão como se fosse parte do corpo. Não tenta se levantar. Não pede que eu a solte. Não faz nada. A covardia dele é quase palpável. Olho para os seguranças. — Peguem as coisas dela e levem para a mansão — ordeno, seco. Eles se movem de imediato. Vejo as malas surgirem pela lateral, sendo trazidas uma a uma para o hall. Malas grandes, cheias. Toda a vida dela reduzida a volume e peso. Sinto o corpo dela endurecer um pouco mais nos meus braços quando vê as malas. É como se cada zíper, cada alça, fosse um ponto final na frase “isso é sua casa”. — Eu não vou com você! — ela insiste, a voz começando a falhar entre um grito e outro. — Pai, pelo amor de Deus, fala alguma coisa! Heitor não abre a boca. Nem sequer ergue a cabeça. Avanço em direção à porta. Os seguranças abrem caminho, carregando malas. O som dos meus passos ecoa no piso, firme, constante. O dela é apenas o som de luta e desespero preso nos meus braços. — Pai! — ela grita de novo, agora com o choro rasgando a garganta. — Não faz isso comigo... por favor... Eu não preciso olhar para trás para saber, ele continua ali, sentado, olhando para qualquer coisa que não seja a própria filha sendo levada. Homens como Heitor sempre me deram nojo. Cruzo a soleira da porta. Do lado de fora, o céu combina com o momento. Nuvens carregadas, cinza pesado, a chuva caindo grossa, fria. As gotas batem no meu paletó, no rosto dela, no chão. A rua molhada reflete as luzes em manchas tremidas. A água atinge o rosto dela. Ela pisca rápido, o cabelo grudando na pele, a respiração descompassada. Mesmo assim, continua lutando. — Para... — ela soluça, a voz quebrada. — Por favor... me deixa aqui... Eu não fiz nada... Eu a olho por um segundo mais longo, como se estivesse avaliando um investimento arriscado. Vejo medo, sim. Desespero. Mas também vejo algo que me interessa, ela ainda não quebrou. — Você não precisava fazer nada — respondo, calmo. — Só precisava existir. Ela fecha os olhos por um instante, como se quisesse acordar em outro lugar, em outra vida. Quando abre de novo, continua nos meus braços, sob a chuva, avançando rumo a um destino que ela não escolheu. Chego até o carro, uma SUV preta, motor ligado, pronta para partir. Um dos seguranças abre a porta de trás. Eu a coloco no banco, com firmeza. Ela tenta sair de imediato, mas um dos homens já está na outra ponta do carro, pronto para impedir qualquer tentativa mais ousada. Eu seguro o ombro dela por alguns segundos, apenas para garantir que fique quieta. — Eu não sou um objeto! — ela atira, os olhos cheios de lágrimas e ódio. — Você não pode fazer isso! Inclino um pouco a cabeça, observando o rosto dela de perto. Mesmo chorando, ela ainda me enfrenta. — Posso — respondo, simples. — E fiz. Ela respira rápido, o peito subindo e descendo em um ritmo desordenado. As lágrimas se misturam à chuva que entrou pela porta aberta. O ódio dela é quente. Eu sinto. — Eu odeio você — ela diz, baixo, mas firme. Um dos cantos da minha boca ameaça se erguer. — Vai ter tempo pra sentir muitas coisas ainda — devolvo. — Ódio é só o começo. Solto o ombro dela e fecho a porta. Os seguranças colocam as malas nos porta-malas dos outros carros, o som das tampas batendo se misturando ao barulho da chuva. Dou uma última olhada rápida na casa, no jardim, na fachada. Eu sei que, lá dentro, Heitor ainda está sentado. Sei que ele não teve coragem de se levantar nem para assistir a saída da própria filha. Por incrível que pareça, não sinto nada por ele. Nem raiva. Nem pena. Só desprezo. Contorno o carro e entro pelo outro lado, sentando ao lado dela. O interior está aquecido, mas o clima é frio. Ela está virada para a janela, as mãos tremendo no colo, o olhar fixo em algum ponto perdido lá fora. Faço um leve sinal com a cabeça para o motorista. O carro começa a se mover. Enquanto nos afastamos, vejo pelo vidro traseiro as luzes da casa encolhendo, ficando menores, distantes. Para ela, aquilo significa o fim de tudo o que conhece. Para mim, é apenas o início do que eu decidi tomar. Lá fora, a chuva continua a cair. Aqui dentro, eu sei de uma coisa com absoluta certeza. O destino dela acaba de mudar para sempre essa noite. E eu não pretendo devolver o que acabei de levar.






