Mundo de ficçãoIniciar sessãoIsabella
Caralho. Eu juro por tudo que é sagrado: nunca mais sigo homem nenhum vestido de preto. Nunca. Nem se for para pedir informação, nem se for para salvar minha vida, nem se for para ganhar um milhão. “Isso é uma regra, Isabella.” — repito para mim mesma como mantra. Eu devo ter nascido com o azar escrito na testa. Provavelmente passei embaixo de sete escadas, quebrei todos os espelhos existentes na casa da minha mãe e ainda nasci com a bunda apontada para Marte. Ou para a casa do demônio, onde quer que seja mais longe da boa sorte. Sério… quando é que os humilhados vão ser exaltados? Quero saber. Já posso entrar na fila? Enquanto o médico fala, eu só penso em uma coisa: como sair dessa merda sem me estabacar no chão. Olho para a porta. Calculo a distância. Não parece muito. O problema é que, do jeito que estou, vou tropeçar nos próprios pés, cair de cara e perder todos os dentes da frente. Não estou a fim de virar Isabella Gengivinha hoje. — Nenhuma chance de gravidez? — ele pergunta. Sou obrigada a largar meus planos de fuga. — N-nenhuma — respondo, quase engasgando. — Não tenho namorado. Nunca tive namorado. Acabou o interrogatório ou vai querer meu tipo sanguíneo também? Ele me olha como se fosse possível me analisar até a alma. — Só mais uma pergunta… quando foi sua última refeição? Ah, puta que pariu. Qual é a desse doutor? Desvio o olhar para onde o cavalo selvagem — vulgo David, o Armageddon em forma de gente — rosna ordens no telefone. Ele não parece irritado. Parece à beira da guerra nuclear. Quando ele b**e o telefone na base, eu quase pulo no sofá. Ele avança até Victor, e os dois começam a discutir. Não dá para entender muita coisa, mas dá para perceber que é ruim. Bem ruim. Tipo furacão chegando e você sem porão. Então os dois viram para mim. Victor desvia, David continua olhando. E olha. E olha. O ar na sala muda. Minhas pernas viram gelatina. O tipo de gelatina que ficou fora da geladeira e está meio molenga. Eu sei que deveria levantar e correr, mas meu corpo não lembra como se levanta. Como fugir de um furacão correndo na minha direção? Exato. Não foge. Só aceita. Ele se aproxima. — Isabella, venha comigo — ele ordena, a voz dura, como se estivesse comunicando uma sentença. — Preciso conversar com você em particular. Ele se vira para o médico: — Carlos, termine aqui com Victor. Ele fará o pagamento. O médico concorda, se despede. Eu continuo sentada, olhando para David como se ele tivesse acabado de dizer que eu sou um móvel da sala. — Não ouviu, garota? — ele rosna. — Levante. Ou eu levanto você. E aí garanto que você entende o significado da minha selvageria. — Ah, vai se ferrar, cavalo — rebato, sem paciência para o teatro. — Não tenho que te obedecer. Estou indo embora dessa sua baia de luxo. Fique com sua grosseria e seu… feno. Me levanto, mas não dou dois passos. Porque ele aparece na minha frente como uma parede humana. Bato no peito dele — e dói. Nele, não em mim. Óbvio. — Vai sair da frente ou vou ser obrigada a usar minhas artes marciais? — levanto a mão como se fosse dar um tapa. — Seria uma pena quebrar essa sua cara de estúpido. Ele apenas prende minha mão em seu pulso como se eu fosse uma boneca de pano. — Você vem. — a voz dele baixou, e isso é pior do que quando está alta. — Caminha, ou eu te arrasto. Você escolhe. Não me deu tempo de escolher. Claro que não. Ele me puxa pelo corredor, acena para a ruiva como quem diz não se mete, e me j**a dentro do elevador. Finalmente me solta. — Isso é sequestro — digo, com os dentes trincados. — Você vai descobrir em um minuto — é tudo o que ele responde. Quando as portas se abrem, ele me arrasta de novo, até uma sala enorme com mesa de vidro preto e cadeiras brancas. Me solta e fecha a porta com força. Ele se apoia nela, passa a mão pelo rosto e puxa o cabelo, claramente perdido entre a raiva e… outra coisa. Ele está furioso. Mas eu também estou. E eu não vou abaixar a cabeça. — Saia da minha frente. — começo tentando ser civilizada, coisa que claramente não combina com a situação. Sempre ouvi dizer que responder grosseria com grosseria só piora… mas a minha paciência chega ao fim. — Eu não quero estar aqui com você. Já falei o quanto me desagrada ficar na presença de um cavalo selvagem sem sela. E, veja bem, eu não tenho talento, nem vocação, para domar animal bravo. David para na minha frente, respira fundo, e começa a andar de um lado para o outro. Ele está irritado, nervoso, orgulhoso — um caos completo. E por algum motivo lindo. A calça preta marca as pernas fortes, o terno aberto mostra a camisa branca ajustada ao peito e a gravata solta balança junto com seus passos. Meu olhar desce pelo pescoço, segue o pomo de Adão movendo enquanto ele engole seco… e eu odeio, ODEIO, o fato de estar admirando. Maldição. Por que ele precisa ser tão bonito? Tipo… criminoso para o coração bonito? Ele para. Me olha. E, como se minha cabeça tivesse sido mergulhada em água gelada, eu lembro: Foco, Isabella. Esse homem é o desastre. — Juro, garota — ele rosna, passando a língua pelos dentes — que se eu não precisasse da sua ajuda agora, já teria dado um jeito de calar essa sua boca. Só tenta, por favor, ficar em silêncio por dois minutos. Tenho uma proposta. E posso ser muito generoso na recompensa. — Não prometo nada — aviso, cruzando os braços. — Minha mãe não queimou minha língua com mingau e eu não tenho costume de engolir desaforo. Mas você tem cinco minutos antes de eu te tirar da minha frente à força. Ele me encara. E eu o encaro de volta. Ninguém pisca. Só o ar fica mais pesado. Finalmente, ele suspira, como se estivesse prestes a confessar um crime. — Não sei como dizer isso. Com você, tudo é… imprevisível. — Fala com a boca, então — aponto para a dele. — A ferramenta funciona, né? Ele fecha os olhos por UM segundo, claramente considerando me esganar. — Preciso que finja ser minha noiva. — O QUÊ?! — grito. — Perdeu a sanidade?! Virou piada agora?! — Eu preciso de uma noiva. Agora. — Sua voz sai trincada, urgente. — Meu pai está me esperando. Quero que ele acredite que estamos juntos. Eu começo a rir. Rir feio. Rir alto. Rir como quem acabou de ouvir o melhor stand-up da vida. Minha barriga dói. Lágrimas escorrem. Eu quase engasgo com o ar. — Você só pode estar completamente louco! — falo, tentando respirar. — Eu lá tenho cara de noiva? Cara de atriz? Cara de pedreira de relacionamento? Cara de domadora de cavalo? — Isso não é uma piada, Isabella — ele rebate, e sua voz agora é faca na carne. — Eu não queria isso. Eu não quero você. Mas eu preciso. As circunstâncias me obrigam a fazer esse pedido maldito. — Então me deixa ir — digo, séria de repente. — Eu também não quero olhar para essa sua cara de poucos amigos por mais um segundo. — Qual parte de “preciso que finja ser minha noiva” você não entendeu? — A parte que envolve a minha pessoa. — respondo, erguendo o queixo. — Agora abre essa porta que eu estou indo embora. — Não. — Ele bloqueia minha passagem com o braço. — Eu preciso voltar para aquela sala com uma noiva. E eu estou te perguntando: Quanto você quer para isso? O ar some. Eu vejo o desespero nele — verdadeiro. O tipo de desespero que desmonta a arrogância. Por um instante, ele não é o furacão. É um menino perdido diante do próprio pai. E isso… me desmonta. Meu estômago vira, minhas memórias queimam, minha dignidade grita. Ele continua: — Eu pago o que for. Coloque seu preço. Sinto a humilhação subir pelo meu corpo. Eu penso na minha família. Penso nas contas. Penso no que significa vender um pedaço de mim. E não. Não consigo. — Não posso. — minha voz sai baixa, mas firme. — Isso não é um favor. É uma mentira. E eu não consigo viver com isso. — Estou te oferecendo uma chance que ninguém teria — ele insiste. — Você não está enxergando. — Eu estou enxergando perfeitamente. — digo, pousando minhas mãos na cintura. — E estou dizendo não. Passo por ele. Ele não tenta me impedir. Talvez porque sabe que, se fizer, vai piorar. Desço as escadas correndo, como quem foge da própria ruína. Quando meus pés tocam a calçada, o ar gelado me atinge. Por um segundo, penso em olhar para trás. Mas não olho. Eu vou embora. Sem pensar. Sem respirar. Sem voltar. Chego em casa e encontro Julinho na sala, largado no nosso pequeno sofá, todo espalhado como sempre, com os olhos grudados no desenho preferido dele. Ele nem percebe minha chegada — o mundo dele, por agora, é pura animação colorida. Sorrio de canto. Não tenho coragem de interromper. Sigo para a cozinha. Mamãe está de costas para mim, lavando a louça do almoço. A pia pequena, o tilintar dos pratos, o cheiro suave de sabão… tudo tão familiar. Na mesa, um prato coberto com outro me espera. Meu almoço. Sempre me espera. Olho ao redor e vejo o que sempre vi, mas hoje enxergo diferente: As paredes, antes brancas, agora pedem tinta. O fogão de duas bocas, guerreiro cansado, ainda sustenta nossas refeições. A geladeira bege, velha, faz um ronco constante como se reclamasse de estar viva. Nenhum armário, só o móvel de aço segurando panelas que guardam histórias. Simples. Pequeno. Limitado. Mas é lar. Foi tudo que tivemos e tudo que nos manteve de pé. Em dois passos, eu já posso tocar minha mãe. Abraço-a por trás, envolvendo seus ombros finos com toda força que tenho, e descanso minha cabeça no ombro dela. Eu queria que esse gesto fosse suficiente para explicar tudo — o cansaço, o medo, a notícia que pesa na minha garganta. E, como sempre… ela entende antes de eu dizer. Mamãe interrompe o que estava fazendo, vira-se para mim e me abraça de volta, firme, quente, certo. — Não se cobre tanto, minha menina. — Ela acaricia minhas costas, depois segura meu rosto entre as mãos, como se ainda estivesse olhando para a filha pequena que cuidava. — Vai ficar tudo bem. Vai sim. Eu só balanço a cabeça. Porque, por mais que o mundo lá fora desabe… Quando ela diz isso… Eu acredito. Mesmo que seja só por um instante, eu acredito. Se minha mãe soubesse o que eu passei, ela não estaria tão calma. Eu, sinceramente, odiei aquele prédio da porra. Me trataram como peça de decoração — me olhavam, me navegavam, me humilhavam como se eu não fosse gente. Nunca vou aceitar isso. Quando ele disse que me pagaria se eu cedesse, minha cabeça quase fez as contas. Dinheiro pra casa, contas quitadas, um alívio. Pensei em calar a boca e aceitar — por necessidade, por covardia, por fome. Mas minha moral bateu tambor na minha garganta e me lembrou quem eu sou. Não sou uma garota que se vende pelo silêncio. Não sou frágil a ponto de me destruir por um prato a mais na mesa. Tenho orgulho desse orgulho, por mais estranho que pareça. Devia até agradecer por ter resistido, por não me vender. Mas aí minha mente volta praquela sala. Volta para o menino que me olhava — não tão menino, na verdade; um bruto disfarçado de beleza. Chocolate de pele, cabelo arrumado, olhos castanhos que me julgavam. Um idiota perfeito. Eu queria socar esse rosto liso, estragar aquela beleza de anjo que tanto me irritou. — Para, Isabella — me repreendo por dentro. Não pensar nele agora. Foca no que aconteceu. No que ele propôs. No nojo daquela oferta. Nunca tinha visto tamanha arrogância. Como ele teve a audácia de me tratar como animal? Como se eu tivesse que aceitar ser comida, depois cuspida fora. E pensar em processar? Eu não tenho advogados milionários nem banda larga de fortuna. Eu só queria sair dali e conseguir um trabalho honesto — não virar alvo de humilhação. É irônico: o destino parece me colocar esse homem no caminho de novo, duas vezes. Estranho e irritante. Mas desta vez juro para mim mesma: nada vai se repetir. Vou pedir a Deus — ou ao que for — que me afaste desse bruto de uma vez. E, se for preciso, vou fazer com que ele fique o mais longe possível da minha vida.






