capitulo 4

David

Salto da cadeira no mesmo instante em que vejo o corpo daquela garota insolente ceder e desabar no chão. Tento alcançar, mas não sou rápido o suficiente para impedir o baque seco contra o piso. Droga.

Ajoelho-me ao seu lado. Encosto os dedos no pulso dela — a pulsação é tão fraca que mal se sente. Aproximo meu dedo do nariz arrebitado, buscando sua respiração. Por sorte, ela respira. Fraca, mas respira.

Com cuidado, a ergo nos braços. É leve. Leve demais. E isso me incomoda mais do que deveria. Deito-a no sofá, ajeito o pescoço para deixá-la confortável e verifico o pulso novamente. Continua fraco.

Analiso seu rosto — pálido, relaxado, vulnerável. E é aí que percebo: eu já o vi antes. Mas a memória ainda me escapa.

Dormindo assim, parece até tranquila. Nada lembra a garota que me enfrentou como se não tivesse nada a perder. Que me chamou de cavalo bravo. Que me desafiou sem um pingo de bom senso.

Mas o corpo…

Ela pesa quase nada.

A magreza não é estética — é fome.

Algo sobe pela minha espinha.

Não é pena.

É inquietação.

Sim, posso ser bruto. Cavalo, como ela mesma disse. Mas não sou desumano. E uma desmaiar no meu escritório pode virar um inferno jurídico. O meu inferno final, considerando a corda bamba na qual eu já estou equilibrado.

Sinto uma mão tocar meu ombro. Levanto-me num impulso.

— Precisamos chamar um médico? — Victor pergunta, visivelmente preocupado enquanto observa a garota desacordada.

— Sim. Chame o da família — digo de imediato, já pegando meu telefone. — Não quero arriscar diagnósticos errados. E preciso garantir que ela saia dessa sala bem. Se acontecer qualquer coisa aqui… — Engulo seco. — Papai me enterra vivo.

Ligo para Sara.

— Traga água e algodão com álcool. Agora.

Desligo, respiro fundo. Tento organizar a mente, encontrar alguma saída que me mantenha inteiro no meio do caos que sempre cai sobre mim.

— O doutor Carlos já está vindo — Victor avisa.

Eu aperto os olhos, irritado.

— Por que merda essas confusões caem sempre em cima de mim?

Victor dá um meio sorriso — ciente demais da minha vida.

— Calma. Não foi nada grave. E encare isso como um sinal. Ela desmaiou logo após você dizer que estava procurando uma esposa. Você pode dizer que seu pedido foi… avassalador.

Reviro os olhos.

Ele continua:

— Eu falei sério, David. Ela é a escolha ideal. Tem personalidade, humor, presença. Não é como as outras que já passaram pela sua vida. Isso mudaria a imagem que têm de você. Mostrar que você amadureceu. Que é um homem diferente. Que seu pai está certo em confiar o legado a você.

Eu quase gargalho.

— Victor, você ficou louco igual ela? — digo, irritado. — Eu não vou me casar com uma garota insolente, irritante e completamente desagradável. Eu não ficaria um dia ao lado dela. Eu teria que costurar a boca dela. E não — aponto um dedo — eu não faço crueldades. Não sugira isso outra vez.

Um som suave corta minha indignação.

Uma tosse.

Olho para o sofá.

Ela está acordando.

Corro até ela. Seguro seus braços finos para ajudá-la a se sentar. Seus olhos estão pesados, turvos, procurando reconhecer o ambiente.

Então ela me reconhece.

E reage como se minha mão fosse fogo. Se afasta. Me dá um tapa. Pequeno, fraco… mas ainda assim um tapa.

— Quem te deu permissão para me tocar? — ela murmura, voz fraca, mas firme. — Eu não vou ter nada com você. Não dessa vez. Mantenha suas ferraduras longe de mim.

Ferraduras.

Respiro fundo.

— Eu estava tentando te ajudar — digo, controlado. — Não queria nada em troca.

Ela me encara. Olhos verdes — agora definidos, claros, vivos. Desafiadores.

— De boas intenções o inferno está cheio — ela rebate. — E eu não acredito que alguém com características selvagens tenha capacidade de ajudar. Já tive provas suficientes do quão imbecil você pode ser.

Victor solta uma risada abafada ao fundo.

Eu não respondo.

Mas pela primeira vez em muito tempo…

Não sei se estou irritado.

Ou intrigado.

Ou perigosamente atraído.

E isso é um problema.

Uma batida na porta impede que eu responda ao último insulto.

Sara entra carregando uma garrafa de água mineral e uma maleta branca com uma cruz vermelha. Ela analisa o ambiente com aquele olhar profissional que vê tudo e julga nada.

— Trouxe o que pediu, senhor Novack — ela anuncia, como se eu tivesse solicitado relatórios e não socorro médico improvisado. — Precisa de mais alguma coisa?

— Sim. O doutor Carlos está vindo. Quero que o acompanhe direto até meu escritório, pela entrada privativa. Nada de levantar suspeitas. Principalmente do Eduardo. Ou do Noah.

— O senhor Eduardo saiu para o almoço com seu tio — ela informa, e meu corpo agradece por um segundo o alívio inesperado. — Ficarei na portaria aguardando o doutor.

— Ótimo — respondo. — Me dê a água. A maleta pode levar de volta.

Ela me entrega a garrafa. Sai com a elegância calculada de quem já viu piores tragédias nesta sala.

— Sua língua vai cair se disser “obrigado” ou “por favor”? — a garota resmunga ao meu lado, de braços cruzados, sobrancelha arqueada. — Você anda como se tivesse um rei na barriga… quando claramente são só tripas e mau humor.

Eu viro lentamente para encará-la.

— Minha língua não cai. Mas eu posso arrancar a sua se soltar mais um insulto — digo, baixo e firme. — Agora beba. Não é um pedido.

Entrego a garrafa com a expressão mais ameaçadora que consigo compor.

Ela abre a boca para retrucar, mas Victor interrompe com alguma pergunta irrelevante. Graças a Deus. Eu não queria ter que provar minha ameaça.

Vou até a parede de vidro e observo a cidade abaixo.

Manhattan fervilha. Carros buzinam, pessoas correm sem olhar para os lados. Tudo é barulho, movimento e pressa.

Meu sangue pulsa do mesmo jeito.

Eu já sabia que hoje seria um inferno — nenhuma parte de mim queria procurar esposa — mas nem em pesadelo eu imaginaria topar com ela de novo. E pior: ela desmaiar na minha sala.

Porra.

— Agora que estou acordada, você poderia explicar a insanidade que falou antes de eu apagar? — ela solta, áspera. — Por que precisa de uma esposa? E por que diabos achou que eu aceitaria ser mulher de um cavalo selvagem?

Eu me viro.

Ela está de pé, fogo nos olhos.

Victor observa, sorrindo, como se estivesse assistindo à melhor série da semana.

— Nem me olhe com essa cara de quem tá com dor de barriga longe do banheiro — ela continua, firme. — Eu não quero nada com você. Não quero ser sua esposa. Eu só vim entregar currículo. Desisto dessa palhaçada de processo seletivo. Eu preciso de um emprego, não de um casamento.

Dou um passo na direção dela.

Talvez dois.

Não sei se para mandá-la calar a boca ou para segurá-la antes que eu mesmo a derrube do sofá outra vez.

Mas ela é salva pela batida na porta.

Doutor Carlos entra, acompanhado por Sara.

Eu inspiro fundo, guardo minha fúria e caminho até eles.

— Doutor Carlos — cumprimento com um aperto de mão firme. — Obrigado por vir tão rápido. Preciso de um diagnóstico imediato.

— Quem precisa de atendimento? — ele pergunta.

Viro o rosto para ela.

— Acredito que esta moça precise de uma avaliação. Desmaiou e quero entender o motivo. E me certificar de que não… agravou sua condição mental.

— Você é inacreditável — Isabella retruca, quase ofegante. — Se tivesse perguntado, eu teria te dito que desmaiei pelo choque do absurdo que saiu da sua boca!

Meu olhar se estreita.

Eu a fulmino.

Ela sustenta.

Se ela disser em voz alta que eu estou procurando esposa, eu mato alguém.

— Foi o que eu imaginei — Victor intervém, rindo enquanto se levanta. — Mas vamos deixar o médico examiná-la, Isabella. É para o seu bem.

Ela não desvia os olhos dos meus.

Eu também não desvio dos dela.

É guerra silenciosa.

— Vamos medir sua pressão, verificar reflexos e sintomas — doutor Carlos diz, passando entre nós e encerrando nossa batalha visual.

Isabella suspira alto, contrariada, mas se deixa avaliar.

Carlos checa pressão.

Anota.

Ilumina os olhos dela.

Observa.

Anota de novo.

E Isabella me desafia com os olhos a cada movimento do médico.

— Agora precisarei de algumas informações — o doutor anuncia. — Qual sua idade?

Ela olha pra mim antes de responder.

Eu cruzo os braços e fico ali.

Presente. Inamovível.

Ela responde, enfim:

— Tenho 22.

Não fico surpreso.

Não pelo número.

Mas porque, pela primeira vez, algo em mim… presta atenção.

— Sente dor em alguma parte do corpo? — doutor Carlos pergunta, após anotar a idade.

— Não.

— Usa algum medicamento contínuo?

— Não.

— Última menstruação?

Isabella ergue o queixo e respira fundo.

— Ah, isso eu não vou responder — diz, firme. — E muito menos na frente desse sujeito que se acha dono do mundo. — Ela aponta para mim. — Ele não precisa saber nada da minha intimidade. Aliás, estou me sentindo perfeitamente bem e acho todo esse teatro desnecessário. Não estou doente e quero ir embora. De preferência esquecendo que botei os pés nessa empresa de homem indomesticável.

Eu estreito os olhos.

— Você entrou porque quis. E só sai quando eu permitir — digo, firme como concreto. — Olhar feio ou insulto nenhum vai mudar isso.

— E seus coices não vão me intimidar — ela devolve, sem tremer um músculo.

Victor se coloca entre nós antes que algo exploda.

— Chega. — Ele ergue uma mão para cada lado. — Estão transformando uma consulta em guerra civil. David, dê privacidade para o médico continuar. Quanto mais você discutir, mais tempo perde. E nós não temos tempo.

Bufo. Odeio admitir que ele tem razão.

Eu perdi um mês inteiro fingindo que nada estava acontecendo. Um mês me enganando. Um mês ignorando a cobrança do meu pai.

E agora eu estava aqui, perdendo mais tempo discutindo com uma garota que fala mais do que respira.

Meu telefone toca.

— Diga, Sara — atendo, já enrijecido.

— Senhor David, o senhor Harvey acaba de passar pela portaria. Acredito que o destino seja sua sala. Avisei para que pudesse se preparar.

— Merda — digo, sem filtro.

Sara se despede e desligo.

Meu dia já estava ruim. Agora iria descer direto para o inferno.

Antes que eu possa voltar ao sofá, vejo a sombra se aproximando do vidro da porta. Noah.

Minha assistente olha para mim, preocupada.

Tomo a decisão imediata de sair antes que ele entre e veja Isabella, doutor e caos.

Abro a porta e encontro meu irmão no corredor.

— Irmão — digo, forçando um sorriso que não engana ninguém. — O que faz aqui?

Noah me observa de cima a baixo. O olhar é tranquilo por fora, mas eu o conheço — ele já sabe que algo está errado.

— Espero que o seu processo seletivo tenha dado certo — ele diz baixo. — Porque nosso pai está com fogo nos olhos.

Meu sorriso desfaz.

Noah percebe.

Noah sempre percebe.

— Então não deu certo — ele conclui.

Não preciso responder.

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