Mundo de ficçãoIniciar sessãoÀs seis e quarenta e oito da noite, Harper Bennett já havia considerado três formas diferentes de assassinar Ethan Calloway com materiais de decoração.
A primeira envolvia um castiçal.
A segunda, um arco de ferro coberto por heras.
A terceira era tão criativa que talvez merecesse uma exposição própria.
Nenhuma seria colocada em prática, claro.
Harper era uma mulher civilizada.
Uma mulher civilizada, furiosa e com acesso a tesouras de poda.
— Pare de olhar para a entrada — disse Maya, posicionando duas taças sobre uma das mesas.
— Não estou olhando para a entrada.
— Você está olhando para a entrada há vinte minutos.
— Estou supervisionando.
— O quê? A capacidade das portas de continuarem sendo portas?
Harper virou-se.
— Estou esperando uma resposta.
— Ele disse que daria uma.
— Homens ricos dizem muitas coisas. Geralmente enquanto outras pessoas fazem o trabalho.
Maya soltou um suspiro e ajeitou uma vela que já estava perfeitamente alinhada.
O salão principal havia mudado completamente desde a tarde. As luzes douradas acesas entre os galhos criavam a impressão de que pequenas estrelas estavam presas no teto. As flores, finalmente posicionadas nos lugares corretos, transformavam as mesas em jardins particulares. A parede principal, coberta por folhagens e rosas em tons profundos, exibia discretamente o nome do hotel em letras douradas.
Tudo parecia perfeito.
Harper odiava isso.
Era difícil sustentar uma crise quando o resultado do próprio trabalho parecia ter saído de uma fotografia.
Os primeiros convidados começavam a chegar ao saguão. Homens em ternos escuros, mulheres em vestidos elegantes, fotógrafos, empresários e pessoas que provavelmente possuíam assistentes apenas para lembrar que tinham assistentes.
Harper deveria estar orgulhosa.
Em vez disso, verificava o celular a cada trinta segundos.
Nenhuma mensagem do banco.
Nenhuma ligação do financeiro.
Nenhuma resposta de Ethan.
— Talvez ele esteja resolvendo — sugeriu Maya.
— Talvez tenha esquecido meu nome assim que as portas do elevador fecharam.
— Ele não parecia ter esquecido.
Harper lançou um olhar para a amiga.
— O que isso significa?
— Significa que ele olhou para você como um homem que estava tentando decidir entre demiti-la e beijá-la.
— Você está delirando.
— Pode ser fome.
Harper pegou uma pequena bandeja de canapés que passava nas mãos de um garçom e entregou a Maya.
— Coma.
— Você também.
— Não consigo.
— Você vai desmaiar.
— Não antes de receber.
Maya mordeu um canapé.
— Essa determinação seria inspiradora se não fosse assustadora.
Harper alisou a frente do vestido.
Avery Calloway, a mulher de azul-marinho que havia chamado Ethan mais cedo, insistira para que Harper trocasse o macacão de trabalho antes da abertura do evento. Um dos quartos do hotel fora disponibilizado para fornecedores, e Maya trouxera uma muda de roupa “para emergências”.
Harper não sabia que tipo de emergência exigia um vestido vinho com decote discreto e mangas finas, mas naquele momento agradecia à amiga.
O vestido não era caro, mas caía bem. A cintura marcada valorizava suas curvas e a saia terminava pouco acima dos joelhos. Ela deixara os cabelos soltos, em ondas castanhas que agora cobriam os ombros.
Não se arrumara para Ethan.
Era importante deixar isso claro, ainda que apenas para si mesma.
Ela se arrumara porque aquele era o maior evento da Wild Bloom.
E porque, caso precisasse destruir a reputação de um bilionário em público, queria estar bem vestida nas fotografias.
— Lá está ele — murmurou Maya.
Harper se virou rápido demais.
Ethan acabava de entrar no salão acompanhado por Avery e por um homem mais velho, de cabelos grisalhos e expressão severa. Ao redor deles, os convidados pareciam abrir espaço automaticamente.
Ethan havia trocado de gravata. A nova era de um azul tão escuro que parecia preto, e o paletó se ajustava perfeitamente ao corpo.
Harper odiou perceber.
O olhar dele percorreu o salão, avaliando cada detalhe, até encontrar o dela.
Por um instante, as pessoas ao redor desapareceram.
Ethan ficou imóvel.
Os olhos dele passaram pelo vestido de Harper, desceram até as pernas dela e retornaram ao rosto com um controle que teria sido convincente se o maxilar não tivesse endurecido.
Harper sentiu um calor inconveniente se espalhar pelo peito.
Ergueu uma sobrancelha.
Ele desviou primeiro.
— Você viu? — sussurrou Maya.
— O quê?
— Nada. Absolutamente nada.
— Pare de sorrir.
— Não estou sorrindo.
Harper voltou a olhar para Ethan.
Ele conversava com o homem mais velho, mas a atenção parecia dividida. Seus olhos encontraram os dela outra vez.
Harper apontou discretamente para o celular.
A resposta dele foi um movimento quase imperceptível de cabeça, pedindo que esperasse.
Não.
Ela já havia esperado.
Harper atravessou o salão.
Maya segurou seu braço.
— Aonde você vai?
— Conversar.
— Você conversa como outras pessoas iniciam guerras.
— Então torça pela paz.
Ela se soltou e seguiu em direção a Ethan.
No caminho, foi interceptada por uma mulher alta, de cabelos loiros cuidadosamente modelados e um vestido prateado que refletia cada luz do salão.
Harper a reconheceu imediatamente.
Sloane Whitmore.
Modelo, influenciadora, herdeira e ex-noiva de Ethan Calloway.
As revistas ainda publicavam fotografias dos dois, embora o noivado tivesse terminado quase um ano antes. Em todas elas, Sloane parecia perfeita, e Ethan parecia estar esperando que alguém o libertasse.
— Você é a decoradora — disse Sloane.
Não era uma pergunta.
Harper sorriu.
— E você é observadora.
Sloane analisou o salão.
— É bonito.
— Obrigada.
— Um pouco sentimental.
— Flores costumam produzir esse efeito em pessoas com sentimentos.
Os olhos claros de Sloane se voltaram para ela.
— Engraçada.
— Às vezes sem querer.
— Ethan não gosta de coisas sentimentais.
Harper olhou por cima do ombro de Sloane. Ethan continuava conversando com o homem mais velho, mas agora observava as duas.
— Felizmente, ele não é uma flor.
— Não — respondeu Sloane. — Ele é muito mais difícil de manter vivo.
Harper não conseguiu evitar uma risada curta.
Sloane pareceu surpresa.
Talvez esperasse que Harper ficasse intimidada.
Talvez estivesse acostumada a pessoas recuando quando ela se aproximava.
Harper trabalhava com noivas em crise havia anos.
Uma socialite bonita não estava nem entre as dez maiores ameaças que já enfrentara.
— Preciso falar com ele — disse Harper.
— Quase todo mundo precisa.
— A diferença é que eu realmente vou.
Sloane inclinou a cabeça.
— Vocês já se conhecem?
A pergunta veio casual, mas seus olhos ficaram atentos.
— Há algumas horas.
— E ele já parece irritado.
— Acho que esse é o rosto normal dele.
Sloane sorriu pela primeira vez.
— Você aprende rápido.
Harper contornou a mulher, mas ouviu a última provocação antes de se afastar:
— Apenas tome cuidado. Ethan costuma se interessar por problemas durante alguns minutos. Depois manda alguém resolvê-los.
Harper parou.
Virou-se.
— Que coincidência. Eu também costumo perder o interesse por homens arrogantes durante alguns minutos. Depois lembro que tenho coisas importantes para fazer.
O sorriso de Sloane desapareceu.
Harper seguiu adiante.
Ethan se afastou do grupo antes que ela chegasse até ele.
— Precisa aprender a esperar — disse em voz baixa.
— Precisa aprender a responder.
— Estou cuidando disso.
— O evento começou.
— O pagamento será liberado amanhã pela manhã.
Harper sentiu como se alguém tivesse derramado água gelada sobre suas costas.
— Amanhã?
— Houve uma inconsistência no sistema.
— Que inconsistência?
— Uma ordem de revisão foi adicionada ao contrato.
— Por quem?
— Ainda estamos verificando.
— E enquanto verificam, eu faço o quê?
— A transação foi aprovada. O dinheiro estará na sua conta amanhã.
— Eu preciso dele hoje.
Ethan observou o rosto dela.
— Por quê?
A pergunta atingiu um lugar que Harper não queria expor.
Ela cruzou os braços.
— Porque foi isso que o contrato estabeleceu.
— Isso não responde.
— Não precisa responder.
— Se há uma emergência—
— Minha vida não é um relatório para você analisar.
— Não estou tentando analisá-la.
— Você analisa tudo.
— É parte do meu trabalho.
— Então analise isto: sua empresa me deve dinheiro. O pagamento foi bloqueado sem justificativa. Agora você quer que eu sorria enquanto centenas de pessoas admiram um evento pelo qual talvez eu nem receba.
Ethan diminuiu a voz.
— Eu disse que receberá.
— Amanhã pode ser tarde demais.
A expressão dele mudou.
Aquela era a segunda vez em que Harper percebia algo além de irritação nos olhos de Ethan. Não exatamente preocupação. Mas atenção verdadeira.
— O que acontece amanhã? — perguntou.
Ela hesitou.
Poderia contar sobre o banco.
Poderia explicar que o prazo terminava à meia-noite.
Poderia dizer que cada minuto importava.
Mas o homem grisalho se aproximou antes que ela respondesse.
— Ethan.
A voz era firme, quase uma ordem.
Ethan virou-se.
— Pai.
Richard Calloway.
Harper reconheceu o nome antes que Ethan precisasse apresentá-lo.
O fundador da Calloway Hotels era mais velho do que parecia nas fotografias, mas ainda carregava a mesma presença autoritária do filho. A diferença era que Ethan parecia frio por escolha. Richard parecia ter nascido sem espaço para gentileza.
O olhar dele pousou em Harper.
— Esta é a responsável pela decoração?
— Harper Bennett — respondeu ela antes que Ethan falasse.
Richard analisou as flores.
— Muito elaborada.
— O objetivo era criar um ambiente memorável.
— Hotéis são lembrados pelo serviço, não por enfeites.







