Mundo de ficçãoIniciar sessãoHarper sorriu.
— Ainda bem que os enfeites não precisam pedir sua aprovação agora.
Ethan virou o rosto, disfarçando o que poderia ter sido uma reação.
Richard não se deu ao trabalho.
— Fornecedores não costumam circular entre os convidados.
— E pagamentos não costumam desaparecer antes de eventos.
O silêncio caiu entre os três.
Richard olhou para Ethan.
— Que pagamento?
— Estou resolvendo.
— Então resolva sem criar uma cena.
Harper sentiu a raiva voltar.
— A cena não foi criada por mim.
Richard deu um passo para perto.
— Senhorita Bennett, esta noite é importante para nossa empresa. Sugiro que mantenha qualquer questão administrativa longe dos convidados.
— Sua empresa considerou manter a questão administrativa longe da minha conta bancária?
— Harper — advertiu Ethan.
Ela se voltou para ele.
— Não use esse tom comigo.
— Então pare de aumentar a voz.
— Eu não estou aumentando a voz.
Várias pessoas ao redor olharam.
Harper percebeu tarde demais.
Avery apareceu ao lado deles, mantendo um sorriso elegante para os convidados.
— Está tudo bem?
— Perfeitamente — respondeu Harper.
— Não parece — disse Richard.
— Talvez porque eu tenha uma expressão honesta.
Ethan segurou suavemente o cotovelo dela.
O toque foi discreto, mas suficiente para provocar um choque quente pelo braço de Harper.
— Vamos conversar em outro lugar.
Ela olhou para a mão dele.
— Solte.
Ethan soltou imediatamente.
O fato de ele obedecer sem discutir deveria ter acalmado Harper.
Não acalmou.
— Cinco minutos — disse ele. — Em particular.
— Você teve quase três horas.
— E usei esse tempo para garantir seu pagamento.
— Amanhã.
— É o mais rápido possível.
— Para você.
Avery lançou um olhar ao redor.
Mais pessoas observavam.
Alguns celulares já estavam levantados.
— Harper — disse Avery, gentilmente. — Podemos resolver isso no escritório.
— Não quero ir para um escritório.
Richard respirou fundo.
— Então talvez deva deixar o hotel.
As palavras cortaram mais do que Harper esperava.
Não porque fossem particularmente cruéis.
Mas porque eram familiares.
Ela conhecia aquele tom.
O tom de homens que acreditavam que dinheiro lhes dava o direito de decidir quem podia permanecer em um lugar.
Harper olhou para o salão.
Para as flores que escolhera uma por uma.
Para as luzes que passara horas ajustando.
Para cada mesa montada por sua equipe.
Aquela noite existia porque ela havia criado tudo.
E ainda assim, Richard Calloway a tratava como se fosse uma inconveniência facilmente removida.
— Não — respondeu.
Richard franziu a testa.
— Como disse?
— Eu disse não. Não vou sair.
Ethan deu um passo à frente.
— Ninguém vai expulsá-la.
Richard olhou para o filho.
— Ela está causando um constrangimento.
— Ela está cobrando um contrato.
Harper se calou.
Richard também.
Por um segundo, Ethan pareceu tão surpreso quanto os dois por ter defendido Harper.
Avery foi a primeira a recuperar o controle.
— Vamos levar esta conversa para—
— Ethan.
A voz de Sloane atravessou o grupo.
Ela se aproximou lentamente, segurando uma taça de champanhe.
— Os jornalistas estão perguntando por você.
Seu olhar passou por Harper e permaneceu um pouco mais do que o necessário.
— Parece que chegaram no momento certo.
— Não comece, Sloane — disse Ethan.
— Eu não disse nada.
— Você nunca precisa.
Sloane bebeu um gole.
— Apenas acho curioso que a decoradora esteja discutindo com o presidente da empresa no meio da inauguração. Algumas pessoas fazem qualquer coisa por publicidade.
Harper sentiu o sangue ferver.
— Algumas pessoas também vivem dela.
O olhar de Sloane endureceu.
— Eu trabalho com imagem.
— Eu trabalho com flores. Ambas murcham quando não são bem cuidadas.
Avery fechou os olhos por um segundo.
Ethan passou a mão pelo maxilar.
Richard parecia prestes a mandar retirar Harper fisicamente do hotel.
Sloane sorriu para as pessoas ao redor.
— Talvez ela esteja nervosa. Não deve ser fácil participar de um evento desse tamanho pela primeira vez.
Harper reconheceu a tentativa.
Sloane queria colocá-la em seu lugar.
Fazer com que parecesse pequena.
Temporária.
Alguém que havia entrado por engano no mundo deles.
— Tem razão — respondeu Harper. — Estou acostumada a eventos em que as pessoas pagam os fornecedores.
Uma risada escapou de alguém próximo.
Sloane perdeu o sorriso.
Ethan olhou para Harper.
Ela não soube dizer se ele estava furioso ou impressionado.
Talvez ambos.
— Isso já foi longe demais — disse Richard.
— Concordo — respondeu Harper. — Devolvam meu dinheiro e eu volto para as minhas flores.
— Seu pagamento está garantido — afirmou Ethan.
— Dizer isso de novo não faz o dinheiro aparecer.
— Criar uma cena também não.
A frase atingiu exatamente o lugar que ela tentava proteger.
Harper se aproximou dele.
— Você acha que isto é uma cena?
— Acho que está tornando uma situação temporária muito pior.
— Temporária para quem?
— Harper—
— Não. Você não sabe o que esse pagamento significa.
— Então me diga.
Os dois ficaram frente a frente.
Perto demais.
Novamente.
Harper sentiu a atenção de todos ao redor, mas o olhar de Ethan tornava difícil perceber qualquer outra pessoa.
— Não deveria precisar contar minha vida para receber pelo meu trabalho.
— Não deveria.
— Então pare de agir como se eu fosse irracional.
— Não estou dizendo que é irracional.
— Está pensando.
— Penso muitas coisas.
— Aposto que quase todas são arrogantes.
— E aposto que quase nenhuma das suas passa por um filtro antes de sair.
Harper apontou um dedo para o peito dele.
— Você é impossível.
Ethan olhou para o dedo.
— E você está me tocando.
Ela retirou a mão rapidamente.
— Foi uma acusação física.
— Isso não existe.
— Acabei de inventar.
Um flash explodiu ao lado deles.
Harper se virou.
Um fotógrafo registrava a discussão.
Depois outro.
Um grupo de jornalistas havia se aproximado, atraído pelo tumulto.
— Senhor Calloway! — gritou uma repórter. — Há algum problema com a inauguração?
Avery entrou imediatamente entre eles.
— Nenhum problema. Apenas uma conversa com uma de nossas fornecedoras.
— Uma conversa bastante intensa — comentou outro jornalista.
Harper tentou se afastar, mas Sloane falou antes:
— Ethan é muito dedicado. Gosta de acompanhar cada detalhe pessoalmente.
A sugestão na voz dela fez alguns olhares se voltarem para Harper.
Uma mulher próxima sussurrou algo ao marido.
Harper percebeu o que parecia.
Ela, de vestido vinho, discutindo a poucos centímetros de Ethan.
Ethan olhando para ela como se estivesse dividido entre estrangulá-la e fazer algo muito menos apropriado.
— Senhorita Bennett — chamou a repórter. — A Wild Bloom enfrentou algum problema com a Calloway Hotels?
Avery respondeu:
— Questões contratuais não serão discutidas esta noite.
— Eu posso responder — disse Harper.
Ethan segurou seu braço novamente.
— Não.
Ela o encarou.
— Está tentando me silenciar?
— Estou tentando impedir que faça algo do qual se arrependerá.
— Você não me conhece o bastante para saber do que me arrependo.
— Estou começando a ter uma ideia.
Harper soltou o braço.
Os flashes continuavam.
— Senhorita Bennett — insistiu a repórter. — Seu pagamento foi retido?
Richard se aproximou de Avery.
— Tire-a daqui.
Harper ouviu.
Ethan também.
O rosto dele ficou rígido.
— Ninguém vai tirá-la daqui.
Richard falou em tom baixo:
— Está permitindo que uma fornecedora comprometa esta noite.
— A empresa comprometeu a própria noite quando bloqueou o pagamento.
Harper olhou para Ethan.
Dessa vez, não havia ambiguidade.
Ele estava do lado dela.
Pelo menos naquele instante.
Aquilo a desarmou.
A raiva perdeu força por um segundo, abrindo espaço para algo perigoso.
Gratidão.
Ethan percebeu a mudança em seu rosto.
Seu olhar suavizou.
— Confie em mim até amanhã — disse, apenas para ela.
Harper quase riu.
— Não confio em você nem até o fim desta frase.
O canto da boca dele se moveu.
— Claro que não.
— Você mentiu sobre quem era.
— Eu omiti um sobrenome.
— Você me deixou dar ordens.
— Gostou bastante.
— Você também.
— Talvez.
A resposta veio baixa.
Íntima demais.
Harper sentiu o ambiente mudar novamente.
Os olhos de Ethan desceram até os lábios dela.
O ar pareceu ficar mais pesado.
Por um instante absurdo, ela se lembrou de cair nos braços dele.
Da mão em sua cintura.
Da voz dizendo seu nome.
O flash de uma câmera os trouxe de volta.
— Ethan — chamou Sloane. — Eles estão esperando uma declaração.
Ela deu um passo entre os dois e tocou o braço dele com familiaridade.
Harper não tinha direito algum de se incomodar.
Incomodou-se mesmo assim.
Sloane percebeu.
Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.
— Você deveria voltar aos convidados — disse a Harper. — Ou aos bastidores. Imagino que seja onde precisa estar.
Harper sentiu o golpe.
Antes que pudesse responder, um ruído metálico soou acima deles.
Baixo.
Quase imperceptível.
Harper olhou para o teto.
Uma das correntes que sustentavam a estrutura de iluminação tremia.
Seu coração parou.
— Esperem.
Ninguém ouviu.
A música, as vozes e os flashes abafaram a palavra.
Harper deu um passo para o centro do salão.
A estrutura balançou novamente.
A presilha metálica não era a mesma que ela ajustara. Ficava alguns metros adiante, presa a uma barra de iluminação que sustentava pequenos refletores.
Um dos cabos estava cedendo.
— Afastem-se! — gritou.
As pessoas olharam para ela, confusas.
A barra se inclinou.







