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Capítulo 3 O Homem que Mandava no Hotel

Maya olhou para Ethan.

— Em particular.

Harper sentiu o medo retornar.

Elas se afastaram para perto de uma parede coberta por folhagens.

— Era o financeiro — disse Maya. — Eles afirmam que o pagamento foi suspenso por uma ordem interna.

— Suspenso por quem?

— Não disseram.

— Por quê?

— Também não disseram.

Harper sentiu o chão se mover sob seus pés, embora soubesse que estava parada.

— Isso não pode acontecer.

— Eu sei.

— O contrato dizia que receberíamos setenta por cento antes do evento.

— Eu sei.

— Compramos todas as flores. Pagamos os freelancers. Alugamos as estruturas. Eu usei o dinheiro da reserva.

— Harper—

— O banco não vai esperar.

Maya segurou o braço dela.

— Vamos resolver.

Harper engoliu em seco.

O salão pareceu distante.

As luzes, as vozes, o som dos talheres sendo organizados. Tudo se transformou num ruído abafado.

Ela pensou na estufa.

Na tinta verde descascando das janelas.

Na cadeira de balanço de Rose perto da entrada.

No pequeno vaso em que sua mãe plantara lavanda quando Harper tinha sete anos.

Na placa de madeira que Noah pintara torta aos doze.

Bennett Greenhouse. Desde 1982.

Ela não podia perder aquilo.

Não perderia.

— Quem é o responsável? — perguntou.

— A senhora Morgan disse que a decisão veio da diretoria.

— Então vou falar com a diretoria.

— Eles estão em reunião.

— Todos eles?

— Harper.

— Vou bater em todas as portas deste hotel até alguém me dar uma resposta.

— Talvez seja melhor esperar o evento terminar.

Harper soltou uma risada sem humor.

— Esperar? Eu tenho esperado há três meses. Esperei o contrato. Esperei a aprovação. Esperei o pagamento. Agora o banco está esperando para tomar a estufa.

Maya apertou os lábios.

— Não contei para os outros.

— Obrigada.

Harper respirou fundo e endireitou os ombros.

Não choraria.

Não ali.

Talvez nunca.

Chorar era útil quando havia alguém disposto a se comover, e corporações não possuíam lágrimas, apenas departamentos jurídicos.

— Continue a montagem — disse. — Vou descobrir quem fez isso.

Quando se virou, Ethan estava a alguns passos de distância.

A expressão dele já não era divertida.

— Algum problema? — perguntou.

Harper não sabia quanto ele havia escutado.

— Nada que diga respeito a você.

— Você precisa falar com a diretoria?

— Preciso falar com qualquer pessoa que tenha autorizado o bloqueio do meu pagamento.

Uma sombra atravessou o rosto dele.

— Tem certeza de que foi bloqueado?

— Tenho certeza de que o dinheiro não está na minha conta.

— Pode ser um erro administrativo.

— Erros administrativos são apenas decisões ruins usando crachá.

Ethan olhou para Maya e depois para Harper.

— Quem lhe deu a informação?

— O financeiro.

— E com quem você assinou o contrato?

— Com a Calloway Hotels. Aquela empresa minúscula e desconhecida. Talvez já tenha ouvido falar.

— Talvez.

Harper cruzou os braços.

— Você trabalha em que setor, exatamente?

— Administração.

— Claro.

Tudo nele dizia administração. A postura, o relógio, a forma como parecia calcular o custo de cada segundo.

— Então talvez saiba quem manda aqui.

— Muitas pessoas acreditam que mandam.

— E quem realmente manda?

Antes que Ethan respondesse, uma mulher de cabelos loiros presos num coque elegante surgiu no salão acompanhada por três assessores.

Ela usava um vestido azul-marinho, carregava um tablet e caminhava com a confiança de quem poderia cancelar uma vida inteira com dois toques na tela.

— Senhor Calloway — chamou.

O mundo parou.

Harper olhou para a mulher.

Depois para Ethan.

Depois novamente para a mulher.

— Senhor Calloway? — repetiu ela.

Ethan fechou os olhos por um breve segundo.

Foi tão pequeno que outra pessoa talvez não percebesse.

Harper percebeu.

A mulher se aproximou.

— O conselho está esperando. Seu pai já chegou, e a imprensa quer uma declaração antes da abertura.

Harper ficou imóvel.

As peças começaram a se encaixar de maneira lenta e humilhante.

O terno.

O relógio.

A ausência de crachá.

O modo como todos pareciam desviar do caminho dele.

Aquela expressão de homem que encontrava erros no trabalho do mundo inteiro.

Ela conhecia aquele rosto.

Já o havia visto na revista.

Só não o reconhecera sem a iluminação dramática e o título O HOMEM QUE ESTÁ REDEFININDO O LUXO AMERICANO ao lado.

Harper voltou-se para ele.

— Ethan Calloway.

Ele vestiu o paletó.

— Sim.

— Presidente da Calloway Hotels.

— Sim.

— Dono deste hotel.

— Tecnicamente, a propriedade pertence a—

— Você carregou caixas para mim.

Um dos assessores disfarçou uma tosse.

Maya levou a mão à boca.

Ethan ajeitou o punho da camisa.

— Você foi bastante convincente.

— Eu mandei você segurar uma escada.

— Duas vezes.

— Eu avaliei seus braços.

— Aceitáveis, segundo seu diagnóstico.

O rosto de Harper queimou.

— Você poderia ter me contado.

— Você não perguntou meu sobrenome.

— Pessoas normais contam o sobrenome quando percebem que estão sendo confundidas com funcionários.

— Pessoas normais não ordenam que desconhecidos carreguem caixas.

— Você ficou me observando passar vergonha!

— Você não pareceu precisar de ajuda para isso.

Harper deu um passo à frente.

— Foi você?

A diversão desapareceu do rosto dele.

— Fui eu o quê?

— Quem bloqueou meu pagamento.

— Não.

A resposta veio rápida.

Direta.

Harper quis acreditar.

Não acreditou.

— Este é o seu hotel. A empresa é sua. A diretoria responde a você.

— Isso não significa que eu aprove pessoalmente cada transação.

— Então descubra quem aprovou esta.

A mulher de azul-marinho interveio:

— Senhor Calloway, precisamos ir.

Harper não desviou os olhos dele.

— Minha equipe trabalhou durante semanas. Eu cumpri cada exigência absurda deste hotel. Troquei flores porque alguém decidiu que o tom de vinho parecia “emocionalmente agressivo”. Refiz uma parede inteira porque um executivo teve medo de samambaias. E agora vocês bloqueiam meu pagamento horas antes do evento?

Ethan franziu a testa.

— Medo de samambaias?

— Não mude de assunto.

— Eu não estava ciente do bloqueio.

— Mas agora está.

Os olhos dele se fixaram nos dela.

— Vou verificar.

— Quando?

— Assim que possível.

Harper riu.

— Essa é a frase preferida de pessoas que nunca precisam esperar pelo próprio dinheiro.

A mulher ao lado dele pareceu ofendida em nome do capitalismo.

Ethan, porém, permaneceu calmo.

— Harper—

— Não.

Ela ergueu a mão.

— Não diga meu nome como se isso fosse me acalmar.

— Eu não estava tentando acalmá-la.

— Ótimo. Porque não está funcionando.

— Percebi.

— O evento começa em menos de três horas. Quero uma resposta antes disso.

— Não aceito ultimatos dentro do meu próprio hotel.

— E eu não aceito trabalhar de graça.

A tensão entre eles mudou.

Já não era apenas irritação.

Algo mais pesado surgiu no espaço que os separava.

Ethan a observou com uma intensidade que fez Harper sentir o próprio pulso na garganta.

Talvez ninguém falasse com ele daquela maneira.

Ótimo.

Alguém precisava começar.

— Você terá uma resposta — disse ele.

— Não quero uma promessa.

— É o que posso oferecer agora.

— Promessas não pagam contas.

Os olhos dele se estreitaram.

— Nem escândalos.

Harper sentiu o golpe.

Talvez ele não soubesse o que aquele dinheiro significava. Talvez acreditasse que ela fosse apenas uma fornecedora barulhenta criando problemas antes de uma festa.

Ela poderia contar.

Poderia explicar sobre a estufa, o banco, Rose e as cartas escondidas numa gaveta para que sua avó não percebesse a gravidade da situação.

Mas não faria isso.

Não pediria piedade a Ethan Calloway.

— Ainda não viu um escândalo — respondeu.

A mulher ao lado dele olhou para os assessores.

Maya sussurrou:

— Harper.

Ethan deu um passo na direção dela.

Agora estavam próximos outra vez.

Não tanto quanto quando ele a segurara nos braços, mas o bastante para Harper perceber o perfume discreto dele e se lembrar, contra a própria vontade, da mão firme em sua cintura.

— Isso é uma ameaça? — perguntou Ethan.

— É uma previsão.

— Recomendo que pense antes de fazer algo impulsivo.

— Eu penso.

— Não parece.

— Eu penso muito rápido.

— Isso explica muita coisa.

Harper inclinou o rosto para encará-lo.

— Antes que essa noite termine, Ethan Calloway, você vai descobrir exatamente quem eu sou.

O olhar dele desceu por um instante até a boca dela.

Dessa vez, Harper não soube se havia imaginado.

— Acho que já estou começando a descobrir — respondeu.

A mulher tornou a chamá-lo.

Ethan se afastou.

Antes de sair, lançou um último olhar para Harper. Não havia irritação pura nele. Havia curiosidade.

E alguma outra coisa que ela não conseguiu nomear.

Ele seguiu para os elevadores cercado pelos assessores.

Maya esperou as portas se fecharem.

Então segurou Harper pelos ombros.

— Você fez Ethan Calloway carregar caixas.

— Sim.

— Chamou os braços dele de aceitáveis.

— Eu estava sob estresse.

— Caiu em cima dele.

— Tecnicamente, caí na direção dele.

— E acabou de ameaçá-lo.

Harper olhou para as portas fechadas do elevador.

O medo ainda estava ali, apertando seu peito.

Mas agora havia raiva também.

E raiva era mais útil.

— Não ameacei ninguém.

— Você disse que ele ainda não viu um escândalo.

— Foi uma observação.

— Uma observação falsa destinada a provocar uma reação?

Harper olhou para ela.

Maya sorriu.

— Parece uma piada.

Harper pegou o celular e verificou o horário.

Duas horas e quarenta e três minutos para o início da festa.

Duas horas e quarenta e três minutos para Ethan Calloway resolver o problema.

Caso contrário, Harper faria o que sempre fazia quando homens poderosos tentavam ignorá-la.

Ela se tornaria impossível de ignorar.

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