Capítulo 6

Edward

Evelyn dorme na minha cama, com o rosto relaxado, o cabelo espalhado no travesseiro e a respiração lenta. Ela parece menor dormindo, mais delicada, como se baixasse todas as defesas que carrega acordada.

E eu me sinto o maior canalha do universo.

Sério.

O maior.

Eu estou preocupado com ela. O jeito que passou mal ontem não sai da minha cabeça. A palidez, o corpo fraco, o esforço para fingir que estava bem. Parte de mim queria tê-la levado direto para o hospital e dane-se a opinião dela.

Mas não é só isso que martela na minha mente.

Eu te amo.

A voz dela ainda ecoa clara na minha cabeça.

Eu fiquei sem reação.

Travado.

Não porque foi leve. Foi pesado pra caralho. Verdadeiro. Eu vi nos olhos dela. Eu senti.

E me senti um filho da puta.

Passo a mão pelo rosto, cansado, e pego o celular na mesa de cabeceira, encontrando as mensagens de Megan.

“A gente precisa conversar.”

“Edward, para de me ignorar.”

Meu maxilar trava.

No momento em que a vi no refeitório ontem, eu senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés. Eu tentei agir naturalmente, fingir que ela não me afeta, que a proximidade dela não me fez gelar. A única coisa que ela disse foi que havia voltado e daria uma festa de despedida na fraternidade, mas foi o suficiente para bagunçar tudo aqui dentro.

Por que ela voltou? Por que tão rápido?

— Eu vou para Toronto.

Simples assim.

Meu peito aperta.

— Tá. A gente dá um jeito. Eu posso ir te visitar. A gente se fala todo dia. Namoro à distância dá certo.

Ela balança a cabeça devagar.

— Eu não quero namorar à distância, Edward.

O mundo parece dar uma freada.

— O quê?

— Eu não quero. — Ela me encara agora. — Eu quero viver essa experiência por inteiro. Aquela faculdade é elite em arquitetura. É o que eu sempre quis.

— E a gente? — pergunto, já sentindo a voz falhar.

— Você precisa me superar.

A frase entra seca.

— Não fala assim. — Dou um passo até ela. — A gente se ama. Dá pra fazer dar certo.

— Eu amo você, Edward, mas... — ela diz.

E isso piora tudo.

— Então fica.

— Eu me amo também — ela completa. — E eu amo minha carreira. Meu foco é isso agora. Sempre foi.

Passo a mão pelo cabelo, tentando raciocinar.

— A gente tá junto há anos, Megan. Não j**a isso fora.

Ela solta o ar.

— Justamente. São muitos anos. Já desgastou, Edward.

É como se alguém apertasse meu peito por dentro.

— Eu amo você — repito, porque é a única coisa que consigo dizer.

Ela me olha com um misto de carinho e firmeza.

— Você precisa superar. Isso — ela aponta entre nós — já não é amor do jeito certo. Você tá dependente emocionalmente de mim.

A palavra ecoa.

Dependente.

— Esse término é pro seu bem também.

O silêncio domina ao nosso redor, enquanto sinto meu coração se partir no meio e o chão sumir.

Eu não concordo.

Não aceito.

Eu não imaginei que minha atitude imatura fosse virar essa bola de neve.

Olho de novo para Evelyn.

Ela é incrível.

Eu gosto de estar com ela. Gosto mesmo, não é esforço nem atuação. Com ela eu rio fácil. O sexo é… perfeito. Mas não é só isso. Eu posso ser eu. Não preciso competir, não preciso ser o melhor, o mais foda, o mais impressionante.

Ela me aceita no básico.

E ela é intensa, doce e compreensiva demais.

Isso só me faz sentir pior.

Eu não quero machucá-la.

Mas porra… por que a Megan tinha que voltar agora?

Eu já tinha aceitado que tudo acabou, tinha colocado na cabeça que Toronto foi o fim. Eu estava começando a acreditar que talvez pudesse sentir algo real pela Evelyn.

Talvez já esteja.

Só que ontem, quando vi a Megan de novo, foi como um furacão dentro de mim. Confuso. Bagunçado. Familiar demais.

Ela tem esse efeito merda sobre mim.

E eu odeio isso.

Odeio porque não consigo simplesmente ignorar.

Odeio porque não quero deixar a Evelyn.

Odeio porque parece que estou preso entre duas versões de mim.

Sinto que vou enlouquecer se continuar assim.

O celular vibra.

Grupo do time.

“Spencer, você tá atrasado pro aquecimento.”

Droga.

Logo depois, outra mensagem de Megan.

“Vai continuar me ignorando mesmo?”

Eu ignoro e abro o grupo do time.

“Tô indo.”

Levanto devagar para não acordar Evelyn, pego um bloco na cozinha e escrevo um bilhete rápido:

Fui pro aquecimento e vou ficar no campus até a hora do jogo. Quero te ver na arquibancada hoje.

Volto para o quarto e fico olhando para ela por alguns segundos.

Ela é linda dormindo. Linda acordada. Linda sendo quem é.

Então a culpa aperta, porque eu sei exatamente o quão idiota fui.

Eu comecei tudo com ela querendo atingir a Megan, provocar uma reação. Fazer ela repensar Toronto e voltar atrás.

Que merda eu fui fazer.

Agora tem uma garota incrível dormindo na minha cama, que disse que me ama.

E eu aqui, preso nas consequências das minhas próprias escolhas.

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