Mundo de ficçãoIniciar sessãoEdward
Evelyn dorme na minha cama, com o rosto relaxado, o cabelo espalhado no travesseiro e a respiração lenta. Ela parece menor dormindo, mais delicada, como se baixasse todas as defesas que carrega acordada. E eu me sinto o maior canalha do universo. Sério. O maior. Eu estou preocupado com ela. O jeito que passou mal ontem não sai da minha cabeça. A palidez, o corpo fraco, o esforço para fingir que estava bem. Parte de mim queria tê-la levado direto para o hospital e dane-se a opinião dela. Mas não é só isso que martela na minha mente. Eu te amo. A voz dela ainda ecoa clara na minha cabeça. Eu fiquei sem reação. Travado. Não porque foi leve. Foi pesado pra caralho. Verdadeiro. Eu vi nos olhos dela. Eu senti. E me senti um filho da puta. Passo a mão pelo rosto, cansado, e pego o celular na mesa de cabeceira, encontrando as mensagens de Megan. “A gente precisa conversar.” “Edward, para de me ignorar.” Meu maxilar trava. No momento em que a vi no refeitório ontem, eu senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés. Eu tentei agir naturalmente, fingir que ela não me afeta, que a proximidade dela não me fez gelar. A única coisa que ela disse foi que havia voltado e daria uma festa de despedida na fraternidade, mas foi o suficiente para bagunçar tudo aqui dentro. Por que ela voltou? Por que tão rápido? — Eu vou para Toronto. Simples assim. Meu peito aperta. — Tá. A gente dá um jeito. Eu posso ir te visitar. A gente se fala todo dia. Namoro à distância dá certo. Ela balança a cabeça devagar. — Eu não quero namorar à distância, Edward. O mundo parece dar uma freada. — O quê? — Eu não quero. — Ela me encara agora. — Eu quero viver essa experiência por inteiro. Aquela faculdade é elite em arquitetura. É o que eu sempre quis. — E a gente? — pergunto, já sentindo a voz falhar. — Você precisa me superar. A frase entra seca. — Não fala assim. — Dou um passo até ela. — A gente se ama. Dá pra fazer dar certo. — Eu amo você, Edward, mas... — ela diz. E isso piora tudo. — Então fica. — Eu me amo também — ela completa. — E eu amo minha carreira. Meu foco é isso agora. Sempre foi. Passo a mão pelo cabelo, tentando raciocinar. — A gente tá junto há anos, Megan. Não j**a isso fora. Ela solta o ar. — Justamente. São muitos anos. Já desgastou, Edward. É como se alguém apertasse meu peito por dentro. — Eu amo você — repito, porque é a única coisa que consigo dizer. Ela me olha com um misto de carinho e firmeza. — Você precisa superar. Isso — ela aponta entre nós — já não é amor do jeito certo. Você tá dependente emocionalmente de mim. A palavra ecoa. Dependente. — Esse término é pro seu bem também. O silêncio domina ao nosso redor, enquanto sinto meu coração se partir no meio e o chão sumir. Eu não concordo. Não aceito. Eu não imaginei que minha atitude imatura fosse virar essa bola de neve. Olho de novo para Evelyn. Ela é incrível. Eu gosto de estar com ela. Gosto mesmo, não é esforço nem atuação. Com ela eu rio fácil. O sexo é… perfeito. Mas não é só isso. Eu posso ser eu. Não preciso competir, não preciso ser o melhor, o mais foda, o mais impressionante. Ela me aceita no básico. E ela é intensa, doce e compreensiva demais. Isso só me faz sentir pior. Eu não quero machucá-la. Mas porra… por que a Megan tinha que voltar agora? Eu já tinha aceitado que tudo acabou, tinha colocado na cabeça que Toronto foi o fim. Eu estava começando a acreditar que talvez pudesse sentir algo real pela Evelyn. Talvez já esteja. Só que ontem, quando vi a Megan de novo, foi como um furacão dentro de mim. Confuso. Bagunçado. Familiar demais. Ela tem esse efeito merda sobre mim. E eu odeio isso. Odeio porque não consigo simplesmente ignorar. Odeio porque não quero deixar a Evelyn. Odeio porque parece que estou preso entre duas versões de mim. Sinto que vou enlouquecer se continuar assim. O celular vibra. Grupo do time. “Spencer, você tá atrasado pro aquecimento.” Droga. Logo depois, outra mensagem de Megan. “Vai continuar me ignorando mesmo?” Eu ignoro e abro o grupo do time. “Tô indo.” Levanto devagar para não acordar Evelyn, pego um bloco na cozinha e escrevo um bilhete rápido: Fui pro aquecimento e vou ficar no campus até a hora do jogo. Quero te ver na arquibancada hoje. Volto para o quarto e fico olhando para ela por alguns segundos. Ela é linda dormindo. Linda acordada. Linda sendo quem é. Então a culpa aperta, porque eu sei exatamente o quão idiota fui. Eu comecei tudo com ela querendo atingir a Megan, provocar uma reação. Fazer ela repensar Toronto e voltar atrás. Que merda eu fui fazer. Agora tem uma garota incrível dormindo na minha cama, que disse que me ama. E eu aqui, preso nas consequências das minhas próprias escolhas.






