Mundo de ficçãoIniciar sessãoEdward
O aquecimento termina, mas minha cabeça continua longe do campo. Meu corpo faz tudo no automático, corrida, alongamento, passes, mas a mente está presa num emaranhado que não afrouxa. Quando vou para a academia com o resto do time, sinto o peso disso tudo nos ombros. Derek e Carl estão ali, conversando sobre o jogo e rindo de alguma coisa. Eu tento acompanhar, mas não consigo sustentar o clima. Dean chega carregando parte dos uniformes e logo me encara. Ele me conhece o suficiente para perceber quando algo está errado. — Você tá assim porque a Megan voltou e você ainda é obcecado por ela? — ele pergunta, direto. Levanto o olhar na hora. — Não é nada disso — respondo, coçando a cabeça, já irritado. — Então é o quê? — Carl entra na conversa. O incômodo sobe pelo peito. — Maldita a hora que eu fui ouvir o Derek — solto. — Aquela ideia idiota de sair com alguma garota aleatória do campus pra pagar de superado e fazer a Megan repensar o término. Dean solta um suspiro pesado. — Eu falei que isso ia dar merda no segundo que você achou que era uma boa ideia. Derek ergue as mãos em defesa. — Ei, eu dei a ideia, mas você que levou a sério demais. Eu falei “pega alguém e segue a vida”, não “entra num relacionamento”. — Ele dá de ombros. — Você não só começou a sair com a garota, como continuou depois que a Megan foi embora. E ainda começou a namorar. Eu travo o maxilar e ele continua, rindo de canto — E nem vou julgar, porque ela é meio nerdzinha, mas é a maior gostosa. Meu sangue ferve e meus punhos se fecham sozinhos, e quando percebo já estou avançando na direção dele. — Repete isso — falo entre dentes. Dean entra na frente na mesma hora, segurando meu peito e me empurrando para trás. — Segura a onda, Edward. Minha respiração está pesada, e não é só raiva. É culpa, frustração e irritação por ouvir alguém falar da Evelyn como se ela fosse só isso. Como se ela não fosse… ela. — Qual é o seu problema, cara? — Derek diz, agora menos debochado. Passo a mão pelo cabelo, tentando me recompor. Meu problema? Eu sei exatamente qual é. Eu comecei algo pelos motivos errados e agora tem uma pessoa de verdade no meio disso. E ela não merece virar parte dos meus erros. Dean me observa por alguns segundos antes de perguntar: — A Megan já foi atrás de você? Assinto. Não tenho por que mentir, todo mundo aqui já percebeu que tem algo fora do lugar. Derek solta um estalo com a língua. — Filha da puta. Carl cruza os braços. — Então ela voltou mesmo querendo você de volta. Eu não respondo, mas meu silêncio fala alto o suficiente. — Ainda bem que é seu último ano aqui — Derek continua. — Senão esse campus ia virar um reality show da sua vida amorosa. Enfio os dedos no cabelo, puxando levemente os fios num gesto de pura agonia. — O que você pretende fazer? — Carl pergunta. — Vai terminar com a Evelyn? Porque, cara… tá na cara que a volta da Megan bagunçou você. Meu peito aperta. — Eu não sei — respondo. E odeio não saber. Carl me encara. — Você ainda é apaixonado pela Megan? — Claro que é — Derek responde por mim. — Não sei se é tão simples — Dean rebate. — Ele parecia bem mais feliz nesses últimos meses com a Evelyn do que nos anos com a Megan. — Dá pra vocês pararem de falar? — corto, irritado. — Nada disso estaria acontecendo se eu não tivesse dado ouvido às besteiras de vocês. Derek revira os olhos. — Vai se foder, Edward. A gente tenta ajudar, mas você tem livre-arbítrio. Ninguém botou uma arma na sua cabeça pra sair com a garota. E ele tem razão. Isso é o pior. A responsabilidade é minha. Sempre foi. Dean me olha com mais seriedade agora. — Então me responde uma coisa. Por que você foi sair com a Evelyn? Com tanta garota no campus, tanta menina mais parecida com a Megan… por que alguém tão diferente? Abro a boca. Fecho. Não sai nada. Porque eu sei a resposta… e ela é feia. Eu tinha notado a Evelyn antes. O jeito dela. A forma como ela ria alto sem pedir desculpa. Como se vestia do jeito que queria. Como não tentava impressionar ninguém. Ela não parecia em nada com a Megan. Nem fisicamente. Nem no jeito. Nem nas atitudes. Nem nos planos de vida. Cursos diferentes. Objetivos diferentes. Mundos diferentes. Talvez tenha sido exatamente por isso. Talvez eu tenha escolhido ela como quem pega algo numa vitrine para provar um ponto. Para mostrar que eu podia seguir em frente. Para provocar uma reação na Megan. Como um objeto. O pensamento me dá nojo de mim mesmo. Porque a Evelyn nunca foi um objeto. Ela é real, sente e se importa. Ela olha para mim como se eu fosse melhor do que realmente sou. E isso me faz sentir ainda mais escroto. Passo a mão pelo rosto, cansado. Eu entrei numa coisa que começou errada e agora tem sentimentos de verdade no meio. E eu não sei como sair disso sem machucar alguém. Provavelmente sem machucar ela. Dean quebra o silêncio que se forma depois da minha crise interna. — Conhecendo a Megan, ela deve ter se arrependido — ele diz. — E se ela foi atrás de você, não vai desistir fácil. Eu solto um riso sem humor. Ele tem razão. Megan nunca foi do tipo que desiste do que quer. Quando ela coloca algo na cabeça, ela vai até o fim, custe o que custar. Foi assim no relacionamento. Foi assim com Toronto. Foi assim com tudo. Passo a língua pelos dentes, pensativo. Uma hora ou outra eu vou ter que conversar com ela, evitar só está adiando a explosão. — Melhor você decidir logo com quem quer ficar — Derek fala, direto. Meu olhar vai para ele na hora. — Isso não é um jogo. — Minha voz sai mais dura do que eu pretendia. Ele ergue as sobrancelhas. — Então para de agir como se fosse. Porque você tá tratando como se tivesse duas opções no banco de reserva. Isso me irrita. — Você tá insuportável — ele continua. — Ninguém tem culpa de você estar no meio dessa merda. Meu maxilar trava. Porque, de novo, ele não está errado. Dean entra antes que eu responda algo pior. — Ele tem razão numa coisa — diz, sério. — Você não pode ficar com a Evelyn enquanto ainda espera alguma coisa da Megan. A frase me acerta em cheio. Eu não acho que estou esperando algo da Megan. Mas também não cortei. Não encerrei. Não fui claro. E talvez isso, por si só, já diga muito. A imagem da Evelyn aparece na minha cabeça, rindo no carro, usando minha camiseta, dizendo que me ama sem calcular o impacto. Ela é honesta no que sente, e eu não estou sendo. Passo as mãos no rosto, sentindo o peso da realidade. Eu entrei nessa achando que tinha controle, que sabia o que estava fazendo e dava pra separar as coisas. Não dá. Tem gente de verdade envolvida, e se eu continuar empurrando com a barriga, alguém vai sair quebrado. Provavelmente ela. E essa ideia me incomoda mais do que quero admitir.






