Mundo de ficçãoIniciar sessãoA menina apertou o urso contra o peito, seu pequeno abraço refletindo um desejo de segurança e conforto, enquanto virou o rosto, desviando os olhos para evitar o olhar compreensivo de Isabella.
— Com uma voz suave e quase inaudível, respondeu: — Mamãe… a palavra saiu como um reflexo, uma resposta carregada de saudade e anseio, como se cada símbolo estivesse impregnado das memórias de dias passados. Isabella inclinou-se levemente para a frente, mas cuidadosamente manteve a distância necessária para não invadir o espaço frágil da criança. A sua voz doce e gentil ecoou na sala, quase como um sussurro reconfortante: — Tudo bem, a mamãe é muito importante, não é? A criança assentiu com a cabeça, seus olhos marejados de lágrimas, revelando não apenas tristeza, mas a profunda complexidade de seus sentimentos, como um mar revolto com ondas à flor da pele. Então, fazendo uma pausa para dar tempo à reflexão, Isabella continuou com gentileza, suas palavras escolhidas com cuidado: — E você… também é muito importante, cada pessoa tem um nome, e o seu é especial, como uma joia única em uma coleção de tesouros. E Rose hesitou, o silêncio tomou conta do ambiente enquanto seu olhar vagueava entre o urso, Isabella e o chão, como se estivesse tentando desfazer um enigma que a criança mesmo não entendia. — Rose… — repetiu seu nome quase inaudível, quase como se estivesse testando o som do próprio nome. Isabella não corrigiu nem completou; apenas acolheu aquele momento de descoberta silenciosa. — Rose?— repetiu, com cuidado e ternura, pronunciando o nome como se estivesse revelando um segredo precioso. — Posso chamar você assim? A criança consentiu com um movimento de cabeça, um pequeno gesto de entrega, como uma flor que se abre lentamente ao toque da luz da manhã, aceitando a promessa de um novo dia e novas esperanças. Ao mesmo tempo, uma nuvem de emoção dançava em seu olhar, uma mistura de medo e expectativa, como se ela estivesse se permitindo um pouco mais da beleza do mundo ao seu redor. — Ou… — sugeriu Isabella delicadamente, a suavidade de sua voz envolvendo as palavras como um manto protetor — Rose? Neste momento, os olhos azuis da menina brilharam com uma luz intensa, quase hipnótica, um reconhecimento tão profundo que parecia vir de um lugar escondido, onde a dor e a esperança se entrelaçam. Era como se cada sílaba lançada no ar estivesse carregando um pedaço de seu ser, um fragmento torturado de sua identidade que finalmente encontrava um lar. — Sim… — respondeu, sua voz fina e cansada como um eco distante, ressoando com as emoções sufocadas que a acompanhavam. — Rose, o nome pairou no ar como algo sagrado, flutuando suavemente, tão especial quanto uma pintura que captura a essência de alguém em cada pincelada. A diretora, tocada pela profundidade do momento, levou a mão ao peito de forma discreta, um gesto involuntário que revelava sua própria emoção ao testemunhar aquela revelação. — Isabella, por sua vez, sentiu um nó formasse na garganta, a intensidade do que estava acontecendo quase a sufocando. — Sabia que aquelas palavras significavam mais do que um simples nome: representavam identidade, existência e história, como a capa de um livro que, ao ser aberto, revela as páginas da vida repletas de desafios e conquistas. — Rose… — disse Isabella, seu sorriso mal acomodado se misturando às lágrimas que ameaçavam transbordar, seus olhos marejados refletindo a conexão delicada que se formava entre elas. — Que nome bonito, — para Rose, que não sorriu, mas se aproximou um pouco mais, havia uma sensação de estar se aproximando de algo ausente, como se dar um passo em direção a esse nome fosse uma pequena jornada em direção à cura, um gesto de coragem no caminho por um sonho há muito esquecido. Isabella notou a maneira como a menina apertava a boneca com força, um gesto simples que revelava a intensidade de suas emoções contidas, como uma tempestade prestes a eclodir. — Você sabe o nome da sua mamãe? — continuou Isabella com uma expressão de genuíno interesse, sua voz tão suave quanto uma brisa de verão. A criança, por um breve momento, hesitou, mas logo murmurou com um misto de dor e ternura: — Lise; —Isabella prendeu a respiração, observando cuidadosamente cada microexpressão da menina, como uma artista a capturar cada nuance de uma pintura em aquarela. — A fragilidade daquele momento quase lhe rouba a voz. — E o nome do seu papai? — perguntou, sua voz suave, como uma brisa tentando penetrar o silêncio pesado que os cercava, como quem busca um caminho dentro de um labirinto emaranhado. — Papai… Robert, respondeu Rose, e o silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma gravidade que fez Isabella sentir um frio percorrer sua espinha, como se as paredes da sala se aproximassem lentamente. A atmosfera estava impregnada de um peso emocional palpável, uma nuvem escura que parecia envolver todas as esperanças e medos da criança. — Você sabe onde eles estão agora, Rose? — questionou, com a máxima cautela, desejando ardentemente que sua voz não soasse como um eco de desapontamento ou dúvida. A menina balançou a cabeça negativamente, os olhos novamente marejados, como se cada lágrima fosse um monumento às memórias perdidas. — Homem mau… — começou, engolindo o choro como uma correnteza tentando levar suas palavras embora, seu pequeno corpo tremendo sob o peso do que estava prestes a compartilhar. — Homem mau pegou cache, eu e mamãe, mamãe sumiu, a frase saiu quebrada, confusa, mas ainda assim clara o suficiente para fazer o mundo de Isabella parar, como se o tempo tivesse decidido pausar, criando um abismo de silêncio que ameaçava engolir tudo ao seu redor. A diretora fechou os olhos por um instante, absorvendo a dor da entrega, como um eco distante ressoando em seu coração, cada batida refletindo não apenas a tristeza da criança, mas a injustiça imensa que tantos outros enfrentavam diariamente. — Isabella sentiu o peso da responsabilidade como uma mão firme sobre seus ombros, como se estivesse segurando uma carga invisível que a tornava mais madura a cada instante, suas e suas emoções se entrelaçando em uma dança complexa de empatia e força. Aquilo não era abandono ou descuido; ou mãe que desistiu de sua filha, mas sim uma história repleta de sombras e mistérios e tinha um nome. — Rose… — começou, controlando a voz, firmando-se apesar do coração em ruínas, como uma árvore que resiste a uma tempestade, sua determinação refletindo-se em cada palavra. — Você sabe onde mora? Ou onde ia brincar… sua escolinha? — O ambiente ao redor parecia encolher enquanto Isabella se esforçava para criar uma ponte em direção ao passado da garota, uma conexão que pudesse acalmar as tempestades internas que a assolavam. A menina pensou por alguns segundos, como se estivesse vasculhando a própria memória em meio ao caos, como um navegador buscando um porto seguro em meio a águas turbulentas. O rosto dela ficou um pouco mais sério, enquanto os olhos brilhantes começavam a se nublar com a lembrança de tempos mais felizes. Uma leve brisa parecia passar pela sala, canalizando suas emoções. —Cache… — respondeu, a palavra saindo de seus lábios como um vislumbre de esperança em meio à escuridão de seu desamparo. O nome vibrava no ar, ganhando vida própria. — Cache St. Maly O som reverberou pelo ambiente, e a diretora arregalou os olhos, como se tivesse sido atingida por um raio de compreensão que iluminava o cenário sombrio. — O reconhecimento do nome fez seu coração disparar, pulsando com a intensidade da seriedade da situação. — St. Mary’s Child Academy? — perguntou, sua voz agora mais urgente, já ciente do peso dessa revelação. O cenário começou a se transformar, cada detalhe ganhou uma nova importância à medida que ela pensava na reputação da creche. — Era uma instituição prestigiada, repleta de famílias influentes e de recursos, proporcionando não apenas um abrigo seguro, mas também um futuro promissor para as crianças que ali estavam. — As paredes daquela creche, cobertas com risos e brincadeiras, eram também uma muralha contra o mundo lá fora. Rose confirmou com um aceno, um simples gesto que carregava um mundo de significado, como se ali estivesse depositada toda a sua esperança. — A diretora, percebendo a gravidade da situação, não hesitou, a gravidade do momento a envolveu; cada segundo contava. — Fique com ela — ordenou a Isabella, em um tom grave, mas assertivo, como um capitão dando ordens em meio à tempestade. O olhar de Isabella se firmou, pronto para enfrentar o que estivesse por vir. — Vou ligar agora, para lá e me informar. — O tom de sua voz deixava claro que não havia tempo a perder, o destino de Rose e talvez até mesmo de sua mãe dependia da agilidade daquela ligação. A tensão na sala aumentou, enquanto todos esperavam que as respostas que viriam do outro lado da linha trouxessem não apenas informações, mas a chance de unir as peças de um quebra-cabeça que parecia irremediavelmente desfeito. Isabella assentiu, mantendo o olhar fixo em Rose, que se aproximava como se tivesse encontrado, instintivamente, seu porto seguro em meio àquele ambiente desconhecido e intimidante. Cada passo da menina parecia vibrar no ar carregado de tensão, fazendo o coração de Isabella disparar, enquanto a diretora fazia a ligação do outro lado da sala. — A ansiedade era palpável; a tensão em sua voz aumentava a cada resposta recebida, como um fio prestes a se romper sob o peso de um suspense insuportável. A sala, antes um espaço de segurança, agora parecia reduzida a um campo de batalha psicológico, onde cada suspiro era uma vitória e cada lágrima, um lamento. — Com delicadeza, Isabella abriu os braços lentamente, como um refúgio se apresentando em meio à tormenta. — Vem… — disse, suavemente, suas palavras flutuando como um carinho, como se estivesse convidando uma borboleta a pousar após uma longa migração. — Você pode se sentar aqui comigo, se quiser. Rose não respondeu; apenas se levantou de maneira cambaleante, como se as pernas estivessem a desafiar seu próprio peso, e se lançou nos braços de Isabella, mergulhando seu rosto em seu pescoço e chorando novamente — mas agora com uma intensidade diferente. Era um choro que misturava alívio com medo, como uma tempestade que trazia tanto a renovação quanto a destruição, um grito silencioso que ecoava nas paredes da sala, repleto de horror e esperança. Era o desabafo de alguém que finalmente encontrou um lugar seguro para se abrigar, como um náufrago que avista terra firme depois de dias à deriva. Isabella a envolveu com ternura, seu coração se apertando ao sentir o corpinho pequeno tremer, delicado como uma folha apanhada pelo vento. — Ela podia sentir o peso da realidade, que parecia ainda mais pesada do que aquele momento, como uma sombra cobrindo o que deveria ser um instante de alívio. A pequena Rose, perdida e assustada, estava finalmente em um espaço onde poderia se permitir ser vulnerável, e Isabella, decidida a ser seu porto seguro, fez um voto silencioso de que não permitiria que aquele momento fosse apenas um fragmento passageiro, mas sim o começo da cura. — A diretora desligou o telefone, com a mão trêmula, enquanto tentava conter a onda de emoções que ameaçavam transbordar. — Isabella… — chamou, sua voz tensa e carregada com um peso que parecia deslocar o ar ao redor. — Essa criança foi sequestrada há cinco dias. A revelação pairou na sala como um trovão, uma verdade insuportável que parecia engolir todos os sentimentos de alívio e segurança que ainda restavam. O ar parecia faltar, como se alguém houvesse tirado o fôlego de todos na sala, deixando um silêncio ensurdecedor que ecoava nas paredes brancas e frias. — A mãe dela — a diretora fez uma pausa, engolindo em seco, o rosto pálido e marcado pela preocupação — …a mãe morreu ontem. Caiu do prédio, as palavras saíram como um sussurro carregado de horror, e Isabella sentiu como se uma tempestade tivesse se abatido sobre ela. O pai está velando o corpo, acreditando ter perdido a filha, sem saber que a dor ainda se aprofundava com cada segundo que passava. Isabella fechou os olhos por um instante, envolvendo Rose em um abraço apertado, como se tentasse proteger a criança do mundo que acabara de desabar ao seu redor. — Aquela sensação de fragilidade, como se qualquer movimento falso pudesse despedaçar tudo, era palpável. Alheia à gravidade da tragédia, Rose sussurrou: — Mamãe… Naquele momento, Isabella percebeu que nada naquela história seria simples; a dor e a complexidade da situação a cercavam, como um emaranhado de fios exigindo mais do que ela poderia oferecer. — Havia mais em jogo do que apenas a segurança imediata daquela criança; a tragédia estava entrelaçada com segredos e uma busca desesperada por respostas. Isabella sentiu a responsabilidade aumentar em seus ombros, pressionando-a a encontrar um caminho em meio à escuridão, uma luz que pudesse guiar Rose de volta à esperança, mesmo quando tudo parecia perdido.






