Mundo de ficçãoIniciar sessãoA MENINA NO PORTÃO
A diretora se abaixou lentamente, tentando diminuir a própria presença, como quem se aproxima de algo frágil demais para ser tocado sem cuidado. — Oi, meu amor… quem trouxe você até aqui? — perguntou, com a voz suave, ainda que carregada de apreensão. — A menina recuou de imediato, apertando o ursinho com mais força, como se aquele gesto fosse sua única defesa contra um mundo que já havia falhado com ela. O choro aumentou, irregular, entrecortado por soluços que pareciam doer fisicamente. — Quero a mamãe… e o papai… — repetia, a voz fina e cansada, como se cada palavra fosse arrancada de um lugar já exausto. A diretora lançou um olhar rápido para Isabella. Não havia pedido explícito ali, mas havia reconhecimento: aquela não era uma situação comum, e a presença de alguém com preparo emocional fazia diferença. — Isabella ajoelhou-se devagar, nivelando-se à altura da criança, respeitando o espaço que ela ainda tentava preservar, como se aquele pequeno corpo precisasse de fronteiras para continuar existindo. Seus olhos analisaram tudo com precisão silenciosa. As roupas eram boas, embora sujas e amassadas, como se tivessem atravessado horas de descuido. — Os joelhos traziam marcas recentes, as mãos pequenas tremiam sem controle, a boca estava seca, e a respiração, curta e acelerada, denunciava um estado de choque profundo. Não havia ferimentos visíveis, mas o psicológico daquela criança estava claramente em ruínas. — Ela não deve ter nem três anos — murmurou a diretora, a voz tensa, e naquela frase havia mais do que uma constatação de idade; havia a consciência dolorosa de que alguém tão pequena deveria estar no colo de alguém, protegida, e não abandonada diante de um portão fechado. Isabella sentiu o coração apertar, na teoria, sabia exatamente o que fazer, anos de estudo, leitura e prática haviam preparado sua mente para situações de crise. Mas, na prática, aquele choro era como uma lâmina afiada, cortando qualquer tentativa de distanciamento profissional. — A diretora estendeu os braços com cuidado, mantendo a voz baixa e firme. — Vem… para dentro, meu amor, nós vamos cuidar de você, está bem? Aqui você está segura, eu prometo. A criança, no entanto, não reagiu às palavras, continua a chamar pela mãe e pai, como se repetir aqueles nomes fosse a única forma de impedir que eles desaparecessem de vez. — Foi então que Isabella compreendeu algo que nenhum livro ensina por completo: uma criança abandonada não responde primeiro ao que se diz, ela responde ao que se é, ao que o corpo transmite. — À forma como alguém se aproxima sem exigir nada, o silêncio oferecido como abrigo, e não como abandono. Quando a diretora a tomou no colo, a menina se debateu por alguns segundos, como um pássaro assustado tentando escapar de mãos desconhecidas, temendo ser levada novamente para o lugar errado. — Mas a diretora, acostumada a esse tipo de dor, a segurou com delicadeza e firmeza ao mesmo tempo, atravessando o portão com passos decididos. Assim que entraram, o choro ecoou pelo corredor, como um anúncio doloroso. Algumas cuidadoras olharam na mesma direção, e um silêncio pesado se instalou por um breve instante, aquele tipo de silêncio que só existe quando todos entendem que algo grave acaba de acontecer. — Isabella, que ainda estava ajoelhada, levantou-se lentamente, sentindo a mente correr mais rápido do que o corpo. — A menina chorava sem cessar, chamando pela mãe e pelo pai, como se estivesse presa a um único pedido, incapaz de formular qualquer outro pensamento. E, naquele momento, Isabella percebeu com clareza absoluta: seu estágio não começaria com uma entrevista, nem com relatórios, nem com observações técnicas. — Começaria com uma criança deixada na porta, e com um destino inteiro, silencioso e devastado, prestes a se revelar. ISABELLA USANDO PSICOLOGIA EMOCIONAL O choro da menina não era apenas um pedido de socorro; era um reflexo, o corpo pequeno preso em alerta máximo, reagindo a um perigo que já não estava ali, mas que continuava vivo dentro dela. — Isabella reconheceu isso de imediato, aquela criança, precisava, antes de tudo, regular o próprio corpo — porque nenhuma mente consegue se acalmar quando o corpo ainda está em guerra. Isabella se aproximou de frente, sabia que o contato direto poderia ser interpretado como ameaça. — Ajoelhou-se de lado, a alguns passos de distância, ficando na mesma altura da criança, mas sem invadir seu campo visual de forma brusca. O corpo relaxado, os ombros baixos, as mãos visíveis, cada gesto era pensado para dizer, sem palavras: eu não ofereço perigo, se você deixar eu posso te ajudar. — Ela observou o ritmo da respiração da criança— curta, irregular, alta demais para uma criança daquela idade. Ajustou a própria respiração de propósito, tornando-a lenta, profunda, audível o suficiente para ser percebida, mas não imposta. — Sabia que, instintivamente, crianças em estado de estresse tendem a acompanhar o ritmo do adulto que lhes transmite segurança. — Está tudo bem… — disse, em tom baixo, estável, sem urgência. — Você não precisa parar de chorar agora, era a forma de acolher, e o choro não cessou, mas perdeu força, Isabella percebeu o primeiro sinal: os ombros da menina desceram alguns milímetros, quase imperceptíveis, como se o corpo estivesse testando a possibilidade de não se defender por um segundo. Isabella manteve o silêncio por alguns instantes. — Psicologia emocional também é saber quando não se fala. Quando falou de novo, não usou perguntas diretas, ou que exigisse resposta, Isabella e diz a criança seu nome. — Eu me chamo Isabella, vim do Brasil e você, como é seu nome? A criança olhou para Isabella e chorou mais suave. — Quando a gente sente muito medo —o corpo fica confuso, ele só sabe chamar por quem ama. A palavra amar atravessou o choro como algo reconhecível, e a criança fungou alto, os olhos marejados se levantaram por um instante e encontraram os de Isabella. — Um contato breve, mas carregado de significado, Isabella sustentou o olhar com suavidade, sem expectativa, mas com um olhar firme, calmo, previsível. Isabella percebeu o ursinho apertado contra o peito da criança, e não tentou tirá-lo. Perguntou qual nome do urso tocar e o dela. — Ele está te ajudando a ser forte, não é?— comentou, apontando apenas com o olhar e ninguém vai tirar seu amigo de você, pode ficar com você o tempo todo. Rose apertou o ursinho com menos força, e Um segundo sinal. Isabella estendeu a mão lentamente, não em direção à criança, mas ao chão, deixando-a visível, imóvel, convite sem obrigação. — Eu me chamo Isabella e se você quiser dizer seu nome e de seu amigo eu ficaria feliz. — Eu vou ficar aqui, com você não precisa fazer nada... A palavra ficar, foi escolhida de propósito, pois crianças traumatizadas não confiam em voltar, buscar, resolver. Mas confiam em presença contínua. O choro foi diminuiu mais um pouco, os soluços passaram a vir espaçados, cansados. O corpo pequeno oscilou, indeciso, como se estivesse lutando contra o impulso de se aproximar e o medo de ser abandonado outra vez. — Isabella não se moveu, Depois de alguns segundos, a criança se arrastou lentamente pelo chão, ainda chorando baixo, até encostar o ombro no braço de Isabella, não pediu colo, apenas se aproximou— Isabella permaneceu imóvel, permitindo que a criança tivesse controle da aproximação. Só depois de sentir o peso leve do corpo encostado no seu, envolveu a criança com cuidado, sustentando-a com firmeza silenciosa. — Está tudo bem… — murmurou, agora se aproximando lentamente. — Eu estou aqui meu amor. O choro voltou por alguns segundos, mas agora era diferente, um pranto dolorido, de perda. — Era uma descarga emocional de um corpo pequeno finalmente encontrado onde cair sem precisar lutar. — A criança respirou fundo, o peito subindo e descendo contra o corpo de Isabella. Os dedos se agarraram à blusa dela com força, como se precisassem garantir que aquela presença não desapareceria. — Quero a Mamãe… — sussurrou, a voz quebrada, onde tá a mamãe e papai? E Isabella a abraçou com carinho. — Não sei, meu amor, se você nos deixar te ajudar, posso tentar você encontrar seu papai e mamãe...— respondeu, com honestidade emocional. — E eu vou ficar com você agora, prometo, você não está mais sozinha. A criança assentiu devagar, o rosto escondido no pescoço dela, e pela primeira vez desde que foi deixada ali, seu corpo começou a descansar. — E falou baixinho no seu ouvido, eu sou Rose. Isabella sabia: a confiança estava sendo construída, não com palavras bonitas, ou com técnica, mas com presença e verdade e suporte emocional.






