Mundo ficciónIniciar sesiónAurora
Eu não lembrava da última vez que uma volta para casa tinha parecido tão longa. Normalmente, aquele trajeto era o momento em que eu conseguia deixar o trabalho para trás. Eu dirigia, observava as luzes da cidade passando pela janela e tentava organizar mentalmente o dia seguinte. Era uma rotina simples. Previsível. Eu gostava disso. Mas naquela noite, nada parecia no lugar. Minha mão apertava o volante enquanto meus pensamentos voltavam para a mesma cena. A sala de Leon. A pasta sobre a mesa. A proposta. Um casamento. Ainda parecia impossível. Eu tinha passado três anos trabalhando com Leon Monteiro. Três anos vendo aquele homem tomar decisões importantes com a mesma calma de quem escolhe o que vai pedir em um restaurante. Ele nunca parecia perder o controle. E agora ele tinha colocado uma decisão enorme nas minhas mãos. Quando cheguei em casa, fiquei alguns segundos parada antes de sair do carro. O silêncio do estacionamento parecia confortável. Por um momento, pensei em ficar ali. Só alguns minutos. Como se, ao esperar mais um pouco, aquela situação pudesse parecer menos absurda. Mas não ia. Peguei a pasta no banco ao lado e subi. --- Assim que abri a porta, senti o cheiro de comida. Era uma das coisas que eu mais gostava na nossa casa. Ela não era perfeita. Não era grande. Não tinha nada de extraordinário. Mas tinha vida. Tinha as plantas que Beatriz insistia em cuidar. Tinha livros espalhados pela sala. Tinha lembranças. Tinha o tipo de conforto que dinheiro nenhum conseguia comprar. — Você demorou. A voz da minha irmã veio da cozinha. Tirei os sapatos e deixei a bolsa sobre a cadeira. — Eu sei. Beatriz apareceu no corredor e parou quando olhou para mim. Ela não perguntou imediatamente. Só observou. Era uma coisa que ela fazia desde sempre. Ela percebia quando eu estava tentando esconder alguma coisa. — O que aconteceu? Suspirei. — Como você sabe? Ela deu um pequeno sorriso. — Aurora, eu conheço você. Não respondi. Porque era verdade. Beatriz era a pessoa que mais me conhecia no mundo. Mesmo sendo mais nova, muitas vezes parecia que ela tinha sido criada para cuidar de mim. Talvez porque, depois de tudo que aconteceu quando éramos crianças, nós duas aprendemos cedo demais que precisávamos uma da outra. — Foi o trabalho? Olhei para a pasta nas minhas mãos. Ela acompanhou meu olhar. E entendeu. — É algo ruim? Sentei no sofá. — Eu não sei. Ela veio até mim e sentou ao meu lado. — Então é algo grande. Respirei fundo. Eu não sabia como começar. Não existia uma forma normal de dizer aquilo. — Leon Monteiro fez uma proposta. Ela franziu a testa. — Que tipo de proposta? Olhei para ela. — Uma proposta de casamento. O silêncio foi imediato. Beatriz ficou me encarando. Uma. Duas. Três vezes. Como se estivesse esperando eu rir e dizer que era uma brincadeira. Eu não ri. — Você está falando sério? Assenti. — Muito. Ela passou a mão pelo rosto. — Seu chefe? — Sim. — O Leon Monteiro? — Sim. Ela olhou para a pasta. — Isso tem alguma explicação? — Tem. Coloquei a pasta sobre a mesa. — É um contrato. Beatriz abriu. Ela começou a ler. Enquanto ela fazia isso, eu fiquei observando sua expressão mudar aos poucos. Primeiro confusão. Depois surpresa. Depois aquela expressão de quem estava tentando encontrar lógica em uma situação completamente sem lógica. — Um casamento de aparência? Assenti. — Um ano? — Inicialmente. Ela fechou a pasta devagar. — Aurora. — Eu sei. — Isso é uma decisão enorme. Baixei o olhar. — Eu sei. Ela ficou alguns segundos em silêncio. — E você está pensando em aceitar? Essa era a pergunta que eu estava tentando evitar. Porque a verdade era que eu não sabia. Eu sempre fui uma pessoa que tinha planos. Eu sabia o que precisava fazer. Sabia quais passos deveriam vir depois. Mas aquela proposta tinha colocado uma dúvida em algo que eu achei que já estava decidido. — Eu não sei. Beatriz não pareceu surpresa. Ela apenas esperou. — Não é só pelo dinheiro, né? Neguei. Não era. O dinheiro importava. Eu não seria hipócrita em dizer que não. Mas não era apenas isso. Era tudo que aquela oportunidade representava. A possibilidade de mudar algumas coisas. De sair do lugar. De finalmente conseguir construir algo além da posição que eu ocupava naquele momento. — É por causa do mestrado. Minha irmã ficou em silêncio. Ela sabia. Ela sempre soube o peso que aquilo tinha para mim. Depois da minha formação em Relações Internacionais, eu tinha tentado seguir meu caminho na área. Mas as oportunidades nunca vieram como eu imaginava. Acabei aceitando o trabalho no Grupo Monteiro. No começo, pensei que seria temporário. Depois percebi que era mais difícil sair do lugar do que eu imaginava. Mas o mestrado continuava ali. Como uma promessa antiga. Uma promessa feita quando eu ainda era pequena demais para entender o tamanho dela. Meu pai acreditava que eu poderia ir longe. Ele sempre falava sobre conhecimento. Sobre aprender. Sobre conhecer o mundo. Eu não lembrava de todas as palavras. As memórias daquela época eram como pedaços de uma fotografia antiga. Algumas partes nítidas. Outras perdidas no tempo. Mas eu lembrava da sensação. Do quanto ele acreditava em mim. E talvez fosse por isso que aquela promessa tinha ficado comigo. — Você quer mesmo fazer isso? — Beatriz perguntou. Demorei para responder. — Eu quero honrar ele. Ela segurou minha mão. — Isso não responde minha pergunta. Olhei para ela. E aquilo doeu porque ela estava certa. Eu sabia o que eu precisava fazer. Mas não sabia o que eu queria. — Eu não sei se esse sonho é meu. Minha voz saiu baixa. Beatriz não disse nada. Ela apenas continuou segurando minha mão. Porque ela sabia que algumas respostas precisavam de tempo. --- Mais tarde, no meu quarto, fiquei olhando para o pequeno pingente preso ao meu pescoço. Eu fazia aquilo sem perceber. Sempre fazia. Era uma das poucas coisas que eu tinha guardado daquela época. Beatriz tinha a própria lembrança. Uma pulseira que ela nunca tirava. Duas formas diferentes de carregar o mesmo passado. Eu toquei o pingente com cuidado. Eu amava meus pais. Isso nunca foi uma dúvida. Mas, às vezes, eu me perguntava se eu tinha passado anos tentando construir uma vida que eu acreditava que eles esperariam de mim. Ou uma vida que eu realmente queria. A pasta de Leon estava sobre a mesa. Fechada. Esperando uma resposta. Eu ainda não sabia qual seria. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu percebi que talvez aquela decisão não fosse apenas sobre um casamento. Talvez fosse sobre escolher por mim mesma.






