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Capítulo 2 – Metade do Que É Meu

Laura não dormiu.

A madrugada atravessou o apartamento em um silêncio sufocante, interrompido apenas pelo tique-taque do relógio da sala e pelo zumbido distante dos carros na avenida. Enquanto Gustavo descansava no quarto como se nada extraordinário tivesse acontecido, ela permaneceu sentada no sofá, observando a aliança repousar sobre a mesa de centro.

Cinco anos.

Cinco anos reduzidos a um plano de trinta dias.

Ela fechou os olhos por alguns instantes, tentando organizar a confusão dentro da própria cabeça. A vontade de expulsá-lo de casa era enorme. Também desejava rasgar aqueles papéis de divórcio e jogá-los na lareira decorativa que quase nunca era usada.

Mas nenhuma dessas atitudes mudaria a realidade.

Gustavo já havia escolhido outra mulher.

A única escolha que restava a ela era decidir como proteger a própria vida.

Quando o relógio marcou seis da manhã, Laura tomou um banho demorado, vestiu um conjunto social bege e prendeu os cabelos em um coque elegante.

Se Gustavo queria transformar o casamento em um contrato, ela faria exatamente a mesma coisa.

Sem lágrimas.

Sem pedidos.

Sem humilhação.

Às sete horas, ouviu o marido descendo as escadas.

Ele parecia leve.

Assobiava baixinho enquanto preparava café.

— Bom dia. — disse, como se a noite anterior tivesse sido uma conversa qualquer.

Laura apenas o observou.

Aquilo a incomodava mais do que a traição.

Ele realmente acreditava que tudo continuava sob controle.

Gustavo colocou duas xícaras sobre a bancada.

— Fiz café para você.

— Não quero.

Ele deu de ombros.

— Tudo bem.

Enquanto mexia o açúcar na própria xícara, comentou naturalmente:

— Meu advogado conseguiu um horário às dez horas. Assinamos tudo e cada um segue seu caminho durante esse mês.

Laura puxou uma cadeira.

Sentou-se diante dele.

Cruzou as mãos sobre a mesa.

— Li os documentos durante a madrugada.

— Ótimo.

— Eles precisam ser alterados.

Ele ergueu os olhos.

— Alterados?

— Sim.

— O quê?

Laura sustentou seu olhar.

— Quero metade de tudo.

O sorriso tranquilo desapareceu.

— Como é?

— Metade dos bens.

Ela repetiu cada palavra lentamente.

— Apartamentos, investimentos, empresas, veículos, aplicações financeiras. Tudo o que foi adquirido durante nosso casamento será dividido exatamente como manda a lei.

Gustavo soltou uma risada curta.

— Você está brincando.

— Não.

— Laura...

Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Esse divórcio é apenas formal.

— Para você.

— Nós vamos casar de novo daqui a trinta dias.

— Talvez você.

Ele franziu a testa.

— O que isso significa?

— Significa que eu não negocio minha segurança.

Gustavo respirou fundo.

— Você sabe que eu nunca faria nada para prejudicar você.

Laura sorriu com ironia.

— Interessante ouvir isso de um homem que acabou de pedir um divórcio para passar um mês com a amante.

Ele apertou os lábios.

— Não mistura as coisas.

— Como não?

Ela inclinou o corpo para frente.

— Você passou meses mentindo. Organizou documentos escondido. Fez planos com outra mulher enquanto eu preparava nosso aniversário de casamento.

Ela bateu levemente na mesa.

— E agora quer que eu confie na sua palavra?

O silêncio tomou conta da cozinha.

Gustavo desviou os olhos.

Era a primeira vez desde a discussão da noite anterior que parecia realmente desconfortável.

— Você está exagerando.

— Estou sendo inteligente.

Ele soltou um suspiro impaciente.

— Laura, se dividirmos tudo agora, vamos gastar uma fortuna com impostos, taxas, honorários...

— Problema seu.

— Nosso.

— Não.

Ela balançou a cabeça.

— Você fez questão de transformar "nós" em "eu e você".

Gustavo passou a mão pelos cabelos.

— Você sabe que metade da empresa está no meu nome.

— Foi construída durante o casamento.

— Eu fundei aquela empresa.

— Casado comigo.

Ele permaneceu em silêncio.

Laura continuou.

— Enquanto você trabalhava até tarde, quem administrava nossa casa?

Ele não respondeu.

— Quem recebia seus clientes quando você organizava jantares?

Silêncio.

— Quem abandonou a própria carreira porque você dizia precisar de alguém cuidando da família?

As palavras começaram a pesar no ambiente.

Laura nunca havia jogado aquilo em sua cara.

Nem uma única vez.

Até aquele momento.

— Você abriu mão do emprego porque quis.

Ela sorriu.

— Essa resposta demorou cinco anos para aparecer.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente isso.

Ela levantou da cadeira.

Caminhou até a janela.

Respirou fundo antes de continuar.

— Eu confiei em você.

— E pode continuar confiando.

Laura virou lentamente.

Os olhos estavam secos.

Não havia espaço para lágrimas.

— Não existe confiança onde existe traição.

Gustavo levantou também.

— Então é isso?

— Isso o quê?

— Vai dificultar tudo?

Ela soltou uma pequena risada.

— Você chama meus direitos de dificuldade?

Ele permaneceu calado.

Laura voltou para a mesa.

Pegou os documentos.

Folheou calmamente.

Depois os fechou.

— Só assinarei quando constar a divisão integral dos bens.

— Você pretende levar metade do patrimônio apenas por causa de um acordo de trinta dias?

Ela respondeu sem alterar o tom.

— Não.

Fez uma breve pausa.

— Pretendo levar metade porque sou sua esposa.

A resposta o atingiu como um soco.

Durante alguns segundos, Gustavo não encontrou argumentos.

Então decidiu recorrer ao orgulho.

— Você sabe que Bianca nunca faria uma exigência dessas.

Laura arqueou uma sobrancelha.

— Então peça para ela assinar seus papéis.

Ele percebeu o erro no mesmo instante.

Passou a mão no rosto.

— Eu não quis...

— Quis, sim.

Ela caminhou até a porta da cozinha.

— Mas fique tranquilo.

Ela sorriu com uma serenidade que o incomodou profundamente.

— Dentro de algumas semanas ela poderá opinar sobre o seu patrimônio.

Aquela frase despertou algo inesperado em Gustavo.

Um incômodo estranho.

Como se ouvir Laura falando daquela maneira tornasse o plano menos divertido.

Menos simples.

Ela já não parecia a esposa compreensiva que aceitaria qualquer decisão.

Parecia uma mulher completamente diferente.

Firme.

Fria.

Determinada.

Ele respirou fundo.

— Vou falar com o advogado.

— Faça isso.

— Mas não faz sentido dividir tudo para depois casar novamente.

Laura caminhou até a escada.

Parou apenas para responder.

— Quem garante que haverá outro casamento?

Gustavo abriu a boca.

Nenhuma palavra saiu.

Ela subiu os degraus sem olhar para trás.

Alguns minutos depois, ouviu a porta do escritório bater com força.

Era Gustavo.

Provavelmente ligando para o advogado.

Laura entrou no quarto.

Pegou uma mala pequena.

Começou a separar algumas roupas.

Não pretendia continuar dividindo o mesmo espaço com ele.

Seu celular vibrou sobre a cama.

Na tela apareceu o nome de sua melhor amiga.

Marina.

Laura atendeu.

— Oi...

Bastaram dois segundos para Marina perceber que havia algo errado.

— Laura... o que aconteceu?

Ela olhou para a aliança esquecida sobre o criado-mudo.

Respirou fundo.

— Meu casamento acabou.

Do outro lado da linha, instalou-se um silêncio absoluto.

— Estou indo até aí.

— Não precisa.

— Precisa, sim.

Laura fechou os olhos.

Durante toda a noite ela havia enfrentado aquilo sozinha.

Talvez já fosse hora de aceitar que não precisava carregar aquele peso sem ninguém ao seu lado.

Enquanto desligava a ligação, ouviu Gustavo discutindo com alguém no escritório.

A voz dele atravessava a porta.

— Ela quer metade de tudo...

Laura não conseguiu ouvir o restante da conversa.

Também não fez questão.

Aquela negociação já não dizia respeito ao amor.

Dizia respeito à sobrevivência.

Se Gustavo acreditava que podia brincar com um casamento durante trinta dias, ele descobriria que decisões têm consequências.

E aquela seria apenas a primeira delas.

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