Mundo ficciónIniciar sesiónLaura não dormiu.
A madrugada atravessou o apartamento em um silêncio sufocante, interrompido apenas pelo tique-taque do relógio da sala e pelo zumbido distante dos carros na avenida. Enquanto Gustavo descansava no quarto como se nada extraordinário tivesse acontecido, ela permaneceu sentada no sofá, observando a aliança repousar sobre a mesa de centro.
Cinco anos.
Cinco anos reduzidos a um plano de trinta dias.
Ela fechou os olhos por alguns instantes, tentando organizar a confusão dentro da própria cabeça. A vontade de expulsá-lo de casa era enorme. Também desejava rasgar aqueles papéis de divórcio e jogá-los na lareira decorativa que quase nunca era usada.
Mas nenhuma dessas atitudes mudaria a realidade.
Gustavo já havia escolhido outra mulher.
A única escolha que restava a ela era decidir como proteger a própria vida.
Quando o relógio marcou seis da manhã, Laura tomou um banho demorado, vestiu um conjunto social bege e prendeu os cabelos em um coque elegante.
Se Gustavo queria transformar o casamento em um contrato, ela faria exatamente a mesma coisa.
Sem lágrimas.
Sem pedidos.
Sem humilhação.
Às sete horas, ouviu o marido descendo as escadas.
Ele parecia leve.
Assobiava baixinho enquanto preparava café.
— Bom dia. — disse, como se a noite anterior tivesse sido uma conversa qualquer.
Laura apenas o observou.
Aquilo a incomodava mais do que a traição.
Ele realmente acreditava que tudo continuava sob controle.
Gustavo colocou duas xícaras sobre a bancada.
— Fiz café para você.
— Não quero.
Ele deu de ombros.
— Tudo bem.
Enquanto mexia o açúcar na própria xícara, comentou naturalmente:
— Meu advogado conseguiu um horário às dez horas. Assinamos tudo e cada um segue seu caminho durante esse mês.
Laura puxou uma cadeira.
Sentou-se diante dele.
Cruzou as mãos sobre a mesa.
— Li os documentos durante a madrugada.
— Ótimo.
— Eles precisam ser alterados.
Ele ergueu os olhos.
— Alterados?
— Sim.
— O quê?
Laura sustentou seu olhar.
— Quero metade de tudo.
O sorriso tranquilo desapareceu.
— Como é?
— Metade dos bens.
Ela repetiu cada palavra lentamente.
— Apartamentos, investimentos, empresas, veículos, aplicações financeiras. Tudo o que foi adquirido durante nosso casamento será dividido exatamente como manda a lei.
Gustavo soltou uma risada curta.
— Você está brincando.
— Não.
— Laura...
Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Esse divórcio é apenas formal.
— Para você.
— Nós vamos casar de novo daqui a trinta dias.
— Talvez você.
Ele franziu a testa.
— O que isso significa?
— Significa que eu não negocio minha segurança.
Gustavo respirou fundo.
— Você sabe que eu nunca faria nada para prejudicar você.
Laura sorriu com ironia.
— Interessante ouvir isso de um homem que acabou de pedir um divórcio para passar um mês com a amante.
Ele apertou os lábios.
— Não mistura as coisas.
— Como não?
Ela inclinou o corpo para frente.
— Você passou meses mentindo. Organizou documentos escondido. Fez planos com outra mulher enquanto eu preparava nosso aniversário de casamento.
Ela bateu levemente na mesa.
— E agora quer que eu confie na sua palavra?
O silêncio tomou conta da cozinha.
Gustavo desviou os olhos.
Era a primeira vez desde a discussão da noite anterior que parecia realmente desconfortável.
— Você está exagerando.
— Estou sendo inteligente.
Ele soltou um suspiro impaciente.
— Laura, se dividirmos tudo agora, vamos gastar uma fortuna com impostos, taxas, honorários...
— Problema seu.
— Nosso.
— Não.
Ela balançou a cabeça.
— Você fez questão de transformar "nós" em "eu e você".
Gustavo passou a mão pelos cabelos.
— Você sabe que metade da empresa está no meu nome.
— Foi construída durante o casamento.
— Eu fundei aquela empresa.
— Casado comigo.
Ele permaneceu em silêncio.
Laura continuou.
— Enquanto você trabalhava até tarde, quem administrava nossa casa?
Ele não respondeu.
— Quem recebia seus clientes quando você organizava jantares?
Silêncio.
— Quem abandonou a própria carreira porque você dizia precisar de alguém cuidando da família?
As palavras começaram a pesar no ambiente.
Laura nunca havia jogado aquilo em sua cara.
Nem uma única vez.
Até aquele momento.
— Você abriu mão do emprego porque quis.
Ela sorriu.
— Essa resposta demorou cinco anos para aparecer.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi exatamente isso.
Ela levantou da cadeira.
Caminhou até a janela.
Respirou fundo antes de continuar.
— Eu confiei em você.
— E pode continuar confiando.
Laura virou lentamente.
Os olhos estavam secos.
Não havia espaço para lágrimas.
— Não existe confiança onde existe traição.
Gustavo levantou também.
— Então é isso?
— Isso o quê?
— Vai dificultar tudo?
Ela soltou uma pequena risada.
— Você chama meus direitos de dificuldade?
Ele permaneceu calado.
Laura voltou para a mesa.
Pegou os documentos.
Folheou calmamente.
Depois os fechou.
— Só assinarei quando constar a divisão integral dos bens.
— Você pretende levar metade do patrimônio apenas por causa de um acordo de trinta dias?
Ela respondeu sem alterar o tom.
— Não.
Fez uma breve pausa.
— Pretendo levar metade porque sou sua esposa.
A resposta o atingiu como um soco.
Durante alguns segundos, Gustavo não encontrou argumentos.
Então decidiu recorrer ao orgulho.
— Você sabe que Bianca nunca faria uma exigência dessas.
Laura arqueou uma sobrancelha.
— Então peça para ela assinar seus papéis.
Ele percebeu o erro no mesmo instante.
Passou a mão no rosto.
— Eu não quis...
— Quis, sim.
Ela caminhou até a porta da cozinha.
— Mas fique tranquilo.
Ela sorriu com uma serenidade que o incomodou profundamente.
— Dentro de algumas semanas ela poderá opinar sobre o seu patrimônio.
Aquela frase despertou algo inesperado em Gustavo.
Um incômodo estranho.
Como se ouvir Laura falando daquela maneira tornasse o plano menos divertido.
Menos simples.
Ela já não parecia a esposa compreensiva que aceitaria qualquer decisão.
Parecia uma mulher completamente diferente.
Firme.
Fria.
Determinada.
Ele respirou fundo.
— Vou falar com o advogado.
— Faça isso.
— Mas não faz sentido dividir tudo para depois casar novamente.
Laura caminhou até a escada.
Parou apenas para responder.
— Quem garante que haverá outro casamento?
Gustavo abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Ela subiu os degraus sem olhar para trás.
Alguns minutos depois, ouviu a porta do escritório bater com força.
Era Gustavo.
Provavelmente ligando para o advogado.
Laura entrou no quarto.
Pegou uma mala pequena.
Começou a separar algumas roupas.
Não pretendia continuar dividindo o mesmo espaço com ele.
Seu celular vibrou sobre a cama.
Na tela apareceu o nome de sua melhor amiga.
Marina.
Laura atendeu.
— Oi...
Bastaram dois segundos para Marina perceber que havia algo errado.
— Laura... o que aconteceu?
Ela olhou para a aliança esquecida sobre o criado-mudo.
Respirou fundo.
— Meu casamento acabou.
Do outro lado da linha, instalou-se um silêncio absoluto.
— Estou indo até aí.
— Não precisa.
— Precisa, sim.
Laura fechou os olhos.
Durante toda a noite ela havia enfrentado aquilo sozinha.
Talvez já fosse hora de aceitar que não precisava carregar aquele peso sem ninguém ao seu lado.
Enquanto desligava a ligação, ouviu Gustavo discutindo com alguém no escritório.
A voz dele atravessava a porta.
— Ela quer metade de tudo...
Laura não conseguiu ouvir o restante da conversa.
Também não fez questão.
Aquela negociação já não dizia respeito ao amor.
Dizia respeito à sobrevivência.
Se Gustavo acreditava que podia brincar com um casamento durante trinta dias, ele descobriria que decisões têm consequências.
E aquela seria apenas a primeira delas.