Mundo de ficçãoIniciar sessãoA manhã do divórcio amanheceu cinzenta.
Uma garoa fina cobria a cidade, transformando os prédios do centro em sombras desfocadas atrás das janelas do carro.
Laura observava a paisagem em silêncio, enquanto Gustavo dirigia com uma das mãos apoiada no volante e a outra batucando impacientemente sobre o câmbio.
Nenhum dos dois havia trocado mais do que meia dúzia de palavras desde que saíram de casa.
Na noite anterior, o advogado alterara o acordo.
Depois de uma longa discussão, Gustavo percebeu que Laura não assinaria um único documento sem a garantia de seus direitos. Não teve escolha. O novo contrato estabelecia que todos os bens adquiridos durante o casamento seriam divididos igualmente.
Ele não escondia a irritação.
— Você conseguiu o que queria.
Laura manteve os olhos voltados para a janela.
— Consegui o que me pertence.
Gustavo soltou um suspiro.
— Continua agindo como se isso fosse definitivo.
Ela não respondeu.
Não havia mais nada a explicar.
Durante cinco anos, ela tentara ser compreensiva.
Agora, preferia economizar palavras.
Poucos minutos depois, o carro entrou na garagem do edifício onde funcionava o escritório do advogado.
Gustavo desligou o motor.
— Vamos?
Laura apenas abriu a porta.
O prédio era elegante, revestido de mármore claro, com um grande jardim na entrada e uma recepção silenciosa.
Ela caminhava alguns passos à frente quando ouviu uma voz masculina atrás de si.
— Laura?
Seu corpo enrijeceu.
Aquela voz...
Ela parou lentamente.
Virou-se.
Do outro lado do saguão, um homem alto vestindo um terno grafite a observava com um sorriso discreto.
Os cabelos negros continuavam levemente desalinhados, como quando eram adolescentes.
Os olhos castanhos transmitiam a mesma tranquilidade de anos atrás.
Ele parecia mais maduro.
Mais seguro.
Mesmo assim, Laura o reconheceu imediatamente.
— Rafael...
O sorriso dele aumentou.
— Achei que estivesse enganado.
Laura ficou alguns segundos sem conseguir dizer nada.
Não o via havia quase seis anos.
Antes mesmo de seu casamento.
Rafael caminhou até ela.
Parou a uma distância respeitosa.
— Você continua igual.
Ela sorriu sem perceber.
— Isso é mentira.
— É verdade.
Ela riu baixinho.
Fazia muito tempo que não ria daquela maneira.
Rafael inclinou levemente a cabeça.
— Como você está?
Antes que pudesse responder, Gustavo aproximou-se.
Seu semblante endureceu no instante em que reconheceu o homem.
— Rafael.
— Gustavo.
Os dois apertaram as mãos.
O gesto foi rápido.
Frio.
Laura percebeu imediatamente a tensão entre eles.
Rafael olhou novamente para ela.
— Faz anos que não nos encontramos.
— Bastante tempo.
— Você sumiu.
Laura baixou os olhos.
Ela sabia exatamente por quê.
Quando começou a namorar Gustavo, os ciúmes dele apareceram rapidamente.
No início, eram pequenas reclamações.
"Por que Rafael liga tanto?"
"Vocês precisam mesmo almoçar juntos?"
"Não acho normal um homem solteiro ficar tão próximo de uma mulher comprometida."
Depois vieram os pedidos.
Em seguida, as exigências.
Para evitar discussões, Laura foi se afastando.
Parou de responder mensagens.
Recusou convites.
Ignorou aniversários.
Até que Rafael simplesmente deixou de procurá-la.
Na época, ela acreditava estar protegendo o casamento.
Hoje entendia que apenas havia perdido um amigo.
Rafael sorriu com gentileza.
— Achei que você tivesse mudado de cidade.
Laura balançou a cabeça.
— Não...
Ela hesitou.
— A vida acabou tomando outros caminhos.
Os olhos dele percorreram rapidamente o rosto dela.
Foi o suficiente para perceber algo errado.
Laura parecia abatida.
Os olhos denunciavam uma noite sem dormir.
O sorriso não alcançava o olhar.
Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, uma mulher elegante saiu do elevador.
— Doutor Rafael, a audiência começa em quinze minutos.
Laura franziu a testa.
— Doutor?
Rafael sorriu.
— Faz alguns anos que virei advogado.
Ela arregalou os olhos.
— Você conseguiu.
Ele riu.
— Demorou, mas consegui.
Ainda na adolescência, Rafael dizia que defenderia pessoas injustiçadas.
Era o sonho dele.
Laura lembrava de passarem tardes inteiras estudando juntos na biblioteca municipal.
Ele sempre dizia que ninguém deveria enfrentar problemas sozinho.
A lembrança aqueceu seu coração por um instante.
— Fico feliz por você.
— Obrigado.
Rafael observou Gustavo.
— E vocês?
Antes que Laura pudesse responder, Gustavo falou:
— Viemos assinar nosso divórcio.
O sorriso de Rafael desapareceu.
Seus olhos voltaram imediatamente para Laura.
— Divórcio?
Ela assentiu lentamente.
— Sim.
Rafael não fez perguntas.
Mas havia surpresa estampada em seu rosto.
Conhecia os dois desde o namoro.
Lembrava perfeitamente do casamento.
Lembrava também de quanto Laura parecia apaixonada.
Era difícil imaginar aquele relacionamento chegando ao fim.
Nesse momento, o advogado de Gustavo apareceu na recepção.
— Senhor Gustavo, senhora Laura, podemos entrar.
Gustavo fez um gesto para que Laura o acompanhasse.
Antes de entrar na sala, Rafael falou calmamente:
— Laura.
Ela virou-se.
— Se precisar conversar...
Ele retirou um cartão do bolso.
— Meu número continua o mesmo.
Ela recebeu o cartão com cuidado.
Os dedos dos dois se tocaram rapidamente.
Nada além disso.
Mesmo assim, Gustavo observou a cena.
Seu maxilar travou.
Um incômodo estranho surgiu dentro dele.
Não fazia sentido.
Afinal, ele estava ali justamente para se divorciar.
Então por que aquela simples troca de olhares o incomodava tanto?
Ele afastou o pensamento.
Entrou na sala sem dizer mais nada.
O ambiente era amplo, sofisticado e silencioso.
O advogado organizava os documentos enquanto explicava cada cláusula.
Laura escutava atentamente.
Já Gustavo demonstrava pressa.
— Podemos acelerar?
— Claro.
O advogado apontou para algumas páginas.
— Conforme solicitado pela senhora Laura, houve a divisão integral dos bens adquiridos durante o casamento.
Ela conferiu cada linha.
Apartamento.
Casa de praia.
Dois veículos.
Investimentos.
Participação societária.
Contas bancárias.
Tudo descrito detalhadamente.
Somente quando terminou de ler é que pegou a caneta.
Assinou.
Gustavo assinou logo em seguida.
O advogado reuniu os documentos.
— A partir deste momento, o casamento encontra-se oficialmente dissolvido.
Silêncio.
Laura permaneceu imóvel.
Não havia explosão de sentimentos.
Nem desespero.
Curiosamente, sentia uma paz inesperada.
Como se estivesse fechando um livro cuja história já havia terminado muito antes.
Gustavo levantou-se.
Sorriu para ela.
— Trinta dias passam rápido.
Laura apenas o encarou.
Não respondeu.
Enquanto saíam da sala, Gustavo recebeu uma ligação.
Olhou para a tela e sorriu automaticamente.
— Bianca.
Atendeu sem constrangimento.
— Oi...
Laura não esperou ouvir o restante.
Continuou caminhando.
Ao atravessar a recepção, encontrou Rafael novamente.
Ele conversava com uma cliente.
Assim que a viu, encerrou a conversa educadamente.
— Já terminou?
Laura assentiu.
— Sim.
Ele percebeu a pasta de documentos em suas mãos.
Não precisava perguntar.
Tudo havia sido concluído.
Por alguns segundos, os dois apenas se olharam.
Rafael rompeu o silêncio.
— Você está indo para casa?
Ela pensou por um instante.
Casa.
Aquele lugar já não parecia seu.
— Ainda não sei.
Ele sorriu com delicadeza.
— Então faça uma coisa.
Ela aguardou.
— Não tome nenhuma decisão importante hoje.
Laura arqueou uma sobrancelha.
— Por quê?
— Porque dias difíceis costumam convencer a gente de que o mundo acabou.
Ele fez uma breve pausa.
— E quase nunca acabam.
As palavras tocaram algo dentro dela.
Era exatamente o tipo de conselho que Rafael sempre dava.
Calmo.
Sem pressão.
Sem invadir seu espaço.
Apenas oferecendo apoio.
Ela sorriu de verdade.
Um sorriso pequeno.
Discreto.
Mas sincero.
Do outro lado da recepção, Gustavo guardava o celular após terminar a ligação.
Ao levantar os olhos, encontrou Laura sorrindo para Rafael.
O peito apertou de forma inexplicável.
Ele franziu a testa.
Era estranho.
Acabara de oficializar um divórcio que ele mesmo planejara.
Dentro de algumas horas estaria com Bianca.
Era exatamente o que queria.
Então por que a imagem de Laura conversando com outro homem o incomodava tanto?
Sem perceber, deu um passo na direção deles.
E, naquele instante, sentiu que os trinta dias talvez não fossem tão simples quanto imaginara.







