Mundo de ficçãoIniciar sessãoKaren estava trancada no quarto quando batidas suaves ecoaram pela porta.
"Senhorita?" Uma voz feminina, educada mas fria. "Trouxe algumas coisas para a senhora."
Karen hesitou, depois abriu a porta apenas uma fresta. Uma empregada de meia-idade estava do outro lado, segurando uma sacola de loja cara, o tipo de lugar que Karen passava na frente no hotel e nunca ousaria entrar.
"Não precisa," Karen disse rapidamente, sentindo o calor subir pelo pescoço. "Eu tenho roupa."
A empregada olhou para o vestido azul amassado que Karen ainda usava — o mesmo vestido que ela tinha escolhido para o jantar com Peter, que tinha corrido por estacionamentos, que carregava as marcas de tudo que tinha acontecido nas últimas vinte e quatro horas.
"O senhor Sebastian pediu para te avisar," a empregada disse, e havia algo no tom dela, "que as suas roupas estão sujas."
O olhar que ela lançou para Karen era inconfundível. Karen tinha visto aquele olhar antes no orfanato, quando famílias vinham escolher crianças para adotar e passavam direto por ela. No hotel, quando hóspedes ricos a tratavam como parte da mobília. Era o olhar de quem achava que sabia exatamente quem você era e quanto valia.
Menosprezo.
Como se Karen fosse algo sujo que precisava ser limpo antes de poder existir no mesmo espaço que pessoas como Sebastian Sterling.
"Obrigada," Karen forçou as palavras, pegando a sacola. Não era culpa da empregada. Ela provavelmente só estava fazendo seu trabalho, seguindo ordens.
A mulher assentiu brevemente e se afastou, os sapatos clicando no mármore enquanto desaparecia pelo corredor.
Karen fechou a porta e ficou parada, segurando a sacola cara. Suas mãos tremiam.
Ela caminhou até a cama king-size. A maior que qualquer cama em que já tinha dormido — e despejou o conteúdo da sacola. Roupas novas caíram. Um vestido simples mas elegante, uma blusa na cor creme. Sapatos, lingerie cara demais para ser usada por alguém como ela.
Karen pegou o vestido azul que ainda usava — amassado, com uma pequena mancha de quando esbarrou em alguém no estacionamento — e o comparou com as roupas novas na cama.
A diferença era gritante.
Uma era quem ela tinha sido. A outra era quem Sebastian achava que ela precisava ser.
Karen se sentou na cama, segurando o vestido azul entre os dedos.
Estava fazendo a escolha certa?
Ou estava apenas agindo por impulso, por medo, por desespero?
Sebastian era um desconhecido. Ela sabia o nome dele, sabia que ele tinha vivido no mesmo orfanato, sabia que tinha dinheiro e poder. Mas não conhecia ele. Não de verdade. E ele era irmão de Peter, o homem que tinha arquitetado meses de mentiras só para roubar um pedaço do corpo dela.
Irmãos.
Se Peter era capaz daquilo, o que Sebastian seria capaz?
A única coisa que ela e Sebastian tinham em comum era uma medalhinha do orfanato. Dois números em tinta preta. Uma marca de abandono compartilhada.
Mas isso era suficiente? Isso justificava casar com um estranho?
Mas a pior parte...
Karen fechou os olhos, sentindo lágrimas quentes ameaçarem cair.
A pior parte é que ela ainda amava Peter Sterling.
Mesmo sabendo da verdade, que ele queria seu rim,para a Lindsay, de toda a manipulação cruel — uma parte idiota e teimosa dela ainda sentia aquele aperto no peito quando pensava nele. Ainda lembrava de como ele sorria quando ela contava algo engraçado. Como segurava a mão dela quando se encontravam. Como a fazia sentir, pela primeira vez na vida, que importava para alguém.
Tudo mentira.
Mas o coração não se importava com verdades. Continuava sangrando mesmo quando o cérebro já sabia melhor.
Karen apertou o vestido azul contra o peito, permitindo-se um momento sentir tudo. A dor, a raiva, a traição. O amor estúpido e persistente que se recusava a morrer mesmo quando deveria.
Peter.
Ela tinha certeza que ele pediria em namoro naquela noite. Tinha ensaiado o que diria quando ele perguntasse. Sim. Claro que sim. Eu te amo.
E em algumas horas, estaria casada com o irmão dele.
Um casamento que não significava nada. Um acordo de papel. Proteção temporária até que... até que o quê? Até que Peter desistisse? Até que ela tivesse dinheiro suficiente para desaparecer?
Até que Sebastian conseguisse o que quisesse dela?
Karen abriu os olhos, encarando o teto alto e ornamentado do quarto. Não era ingênua o suficiente para achar que Sebastian estava fazendo isso por pura bondade. Ninguém ajudava de graça. Ela tinha aprendido isso em dezoito anos no orfanato.
Sempre havia um preço.
Ela só não sabia qual era. Ainda.
Uma batida na porta a tirou dos pensamentos.
"Senhorita Karen?" A voz da empregada novamente. "O senhor disse que o juiz chegará em uma hora. Precisa se arrumar."
"Já vou," Karen respondeu, a voz mais firme do que esperava.
Ela largou o vestido azul sobre a cama como se fosse um cadáver que precisava ser abandonado. Talvez fosse. O funeral da garota que tinha sido Karen — ingênua, esperançosa, apaixonada.
Colocou as roupas novas, ma ela ainda era só Karen. A menina número 125478. A órfã que nunca teve nada e provavelmente nunca teria.
Ela sentou na cama novamente, esperando ser chamada, e permitiu que as memórias de Peter a inundassem.
Primeiro encontro no café do hotel. Peter pedindo o número dela com aquele sorriso charmoso.
Segunda semana. Ele aparecendo com flores no final do turno dela.
Primeiro beijo no estacionamento, sob as luzes néon de Vegas.
A forma como ele dizia o nome dela — Karen — como se fosse especial.
Tudo mentira. Cada momento, cada toque, cada palavra sussurrada. Ele estava apenas garantindo que a compatibilidade de rim viesse com cooperação voluntária.
Mas Deus, como doía.
Karen segurou o pingente no pescoço, onde o número 125478 SM marcava sua identidade para sempre. Sebastian tinha 385900 SM. Números diferentes, duas vidas diferentes, mas a mesma história de abandono.
Outra batida na porta.
"Senhorita Karen. Está na hora."
Karen levantou, alisou o vestido, respirou fundo.
Estava prestes a se casar com um homem que não amava, para fugir de um homem que ela ainda amava apesar de tudo.
E a parte mais assustadora era que não via outra saída.
"Estou indo," ela disse, abrindo a porta.
A empregada a esperava no corredor, aquele olhar de menosprezo ainda presente mas escondido atrás de uma máscara de profissionalismo.
"Por aqui, senhorita."
Karen seguiu, cada passo a levando mais perto de uma escolha que não poderia desfazer.
Em algum lugar daquela penthouse, Sebastian Sterling esperava para torná-la sua esposa.
E Karen nem sabia se estava caminhando para a salvação ou para uma prisão ainda pior que a anterior.







