Mundo de ficçãoIniciar sessãoA mansão da família Prado exalava uma opulência fria, cada detalhe de mármore e cristal escolhido a dedo para impressionar visitas que raramente vinham. Naquela noite, o jantar parecia ainda mais silencioso do que o habitual, o tilintar dos talheres contra a porcelana soando alto demais no vazio entre os poucos lugares ocupados naquela mesa enorme.
Júlio encarava o prato intocado, a mente presa no olhar impenetrável de Ana e nas mentiras que o pai despejara em seu escritório havia apenas alguns dias. Ele mal conseguia sentir o sabor da comida; tudo o que sentia era o gosto amargo da traição que acreditava ter sofrido, misturado a uma saudade que se recusava a morrer.
Júlio se perguntou, não pela primeira vez, se aquela mansão era mesmo um lar ou apenas um museu de conquistas que ninguém tinha coragem de admirar de verdade. Os quadros de família alinhados na parede, cada um emoldurado em ouro, pareciam observá-lo com o mesmo julgamento silencioso de sempre — gerações inteiras de Prados que haviam trocado afeto por status sem nunca perceber a diferença.
— Júlio, você está me ouvindo? — a voz estridente de Roberta Martinez cortou o silêncio. Ela vestia um vestido de grife extravagante, mexendo nas pulseiras de ouro com tédio. — Estou dizendo que precisamos trocar a decoração da nossa casa de praia. Aquele lugar já está ultrapassado.
— Faça o que quiser, Roberta. Só não gaste o que não temos — Júlio respondeu, a voz cortante, sem sequer olhar para ela. Ele não conseguia se lembrar da última vez que realmente a escutara — ou que ela dissera algo que valesse a pena ser escutado.
Dona Marta Prado, sentada à ponta oposta da mesa, soltou um risinho irônico antes de tomar um gole de vinho.
— Se dependesse da Roberta, a Prado Construtora faliria apenas para sustentar o armário dela — alfinetou Marta, que nunca fizera questão de esconder o desprezo pela nora. — Em vez de se preocupar com cortinas, Roberta, deveria se preocupar em dar um herdeiro para o meu filho. Já estão casados há cinco anos e esta casa continua vazia. Se não fosse aquele seu aborto suspeito logo após se casarem, agora eu teria um netinho para me alegrar.
Roberta fechou a cara instantaneamente, os olhos faiscando de ódio direcionados à sogra.
— Um filho vem na hora certa, Marta. Júlio vive trancado naquele escritório.
Júlio ouviu a discussão como quem ouve chuva batendo numa janela distante — presente, mas incapaz de tocá-lo de verdade. Ele já perdera a conta de quantos jantares haviam terminado daquele jeito: a mãe alfinetando, a esposa rebatendo, e ele, no meio, apenas esperando o momento em que pudesse fugir para o silêncio do próprio quarto. Cinco anos casado, e ele ainda não sabia dizer com certeza se aquilo era mesmo um casamento ou apenas uma trégua prolongada entre dois desconhecidos que dividiam sobrenome e endereço.
— Chega de cobranças por hoje — Júlio levantou-se abruptamente da mesa, jogando o guardanapo sobre o prato. — Estou sem apetite. Com licença.
Júlio subiu as escadas em direção ao quarto de hóspedes — onde dormia há meses —, trancando a porta atrás de si. Ele sentou-se na cama, segurando a cabeça com as mãos, sentindo-se sufocado por aquele casamento por contrato.
Do lado de fora daquelas paredes, ele era o CEO implacável, o herdeiro do império Prado. Ali dentro, sozinho, ele era apenas um homem preso em uma vida que não escolhera, pensando em uma mulher que jurara odiar e não conseguia. Ele fechou os olhos e, por um instante traiçoeiro, permitiu-se lembrar do som da risada dela antes de tudo desmoronar — um som que nenhuma fortuna do mundo conseguira comprar de volta. Lá fora, ainda podia ouvir o eco abafado da discussão entre mãe e nora continuando sem ele, como se sua ausência à mesa fosse apenas um detalhe irrelevante naquele teatro de sempre.







