Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som da porta de vidro se fechando pareceu despertar Júlio de um transe. Ignorando os gritos do pai que exigia que ele ficasse, Júlio disparou em direção à saída, passando como um furacão pelos funcionários que se encolhiam nos corredores, sussurrando entre si. Seus passos eram largos, o coração martelando no peito como um animal enjaulado, e uma única palavra girava em sua cabeça, insistente: Ana. Ana. Ana.
Ele cruzou a recepção da diretoria a tempo de ver as portas do elevador executivo começarem a se fechar no fim do corredor.
— Ana! Espere! — ele gritou, a voz rouca ecoando pelo mármore polido.
Ela ouviu. Através do vão da porta que se estreitava, os olhos de Ana encontraram os dele. Por uma fração de segundo, Júlio viu a máscara de gelo dela trincar, revelando uma dor profunda, quase um pedido silencioso. Mas foi rápido demais — tão rápido que ele quase duvidou de ter visto. Ela não apertou o botão para segurar a porta. O elevador fechou.
Desesperado, Júlio correu até o painel e começou a esmurrar o botão do segundo elevador, xingando baixinho a lentidão do sistema. O visor indicava que a cabine de Ana estava descendo para o subsolo, onde ficava o estacionamento executivo. Cada segundo de espera parecia um ano. Assim que o segundo elevador abriu, Júlio entrou, apertando o botão da garagem com força suficiente para machucar o próprio dedo.
Quando as portas se abriram no subsolo silencioso e mal iluminado, Júlio olhou ao redor, o cheiro de concreto e gasolina lhe apertando o peito. O eco de passos firmes denunciou a posição dela. Ana caminhava em direção a um SUV preto blindado de alto luxo, a postura ereta de quem se recusava a demonstrar qualquer fraqueza — mesmo sozinha, mesmo sem plateia.
— Ana, por favor, me ouve! — Júlio exclamou, correndo até ela e segurando de leve o seu braço.
No mesmo instante em que a mão de Júlio tocou o tecido do terno dela, uma corrente elétrica pareceu cruzar os dois. Ana puxou o braço como se tivesse sido queimada por fogo. Ela se virou bruscamente, o peito subindo e descendo com uma respiração pesada.
— Não encoste em mim, Senhor Prado — sibilou ela, os olhos faiscando de uma raiva que Júlio reconheceu muito bem. A armadura de advogada tinha caído por completo; agora era a Ana real que estava ali, ferida — a mulher que ele amara e perdera, e não a advogada blindada de minutos atrás.
— Do que o meu pai estava falando lá dentro? Que história é essa de dinheiro? — Júlio deu um passo à frente, os olhos implorando por respostas. — Você sumiu há cinco anos, Ana! Bloqueou o celular, mudou de endereço... Eu quase enlouqueci procurando por você! E agora você volta casada, com outro sobrenome, me olhando como se eu fosse um monstro?
Ana soltou uma risada amarga, os olhos marejados, embora ela se recusasse a deixar uma única lágrima cair. Ela jurara a si mesma, numa manhã cinco anos atrás, que nunca mais choraria diante de um Prado.
— Você quer falar de monstros, Júlio? Olhe no espelho. Olhe para o seu pai. Você quer saber por que eu fui embora? Pergunte ao homem que te deu a presidência daquela empresa às custas do meu sofrimento — ela deu um passo na direção dele, a voz trêmula de puro ódio. — Mas o passado não importa mais. Você fez a sua escolha quando aceitou se casar com a Roberta Martinez para salvar o patrimônio da sua família. Você vendeu a sua dignidade por um contrato.
— Eu não tive escolha! — Júlio deu um passo desesperado, encurtando a distância entre eles até que ele pudesse sentir o calor do corpo dela e o perfume que o assombrava todas as noites. — A construtora ia falir, meu pai ia ser preso, Roberta estav... Mas eu nunca esqueci você, Ana. Nem por um segundo.
Por um instante, o silêncio da garagem pesou. A tensão sexual acumulada por cinco anos de ausência, mágoa e desejo reprimido estalou entre os dois. Júlio olhou para os lábios vermelhos de Ana, os mesmos lábios que ele costumava devorar, e o instinto de puxá-la para si e tomá-la ali mesmo, contra o capô daquele carro, quase o venceu. Ele estendeu a mão para tocar o rosto dela.
Mas Ana deu um passo atrás, erguendo o queixo com uma altivez inabalável. A couraça voltou a cobrir seus olhos, embora por dentro cada célula do seu corpo implorasse pelo contrário. Ela apertou as unhas na palma da mão, usando a dor física para se ancorar na realidade e não na lembrança de como aqueles braços costumavam ser um lar.
— Guarda as suas mentiras para a sua esposa, Júlio. Eu não sou mais aquela menina tola que acreditava nas suas promessas de amor. O homem por quem eu me apaixonei morreu há cinco anos. O que está na minha frente hoje é apenas o CEO negligente que eu vou destruir no tribunal — ela destravou o carro e abriu a porta, olhando para ele uma última vez antes de entrar, gravando cada traço daquele rosto que ela jurara esquecer. — Fica longe de mim. Se você cruzar o meu caminho fora daquela sala de reuniões de novo, eu adiciono uma ordem de restrição ao seu processo.
A porta do SUV fechou com um estrondo seco. O motor roncou forte e o carro arrancou, os pneus cantando contra o concreto, deixando Júlio sozinho na penumbra da garagem, com os punhos cerrados e o gosto amargo da rejeição e de um desejo proibido queimando em sua garganta. Ele ficou ali, imóvel, por um tempo que não soube medir, encarando o espaço vazio onde o carro estivera, como se aquilo pudesse trazê-la de volta.







