CAPÍTULO 3: Ordem de restrição

O som da porta de vidro se fechando pareceu despertar Júlio de um transe. Ignorando os gritos do pai que exigia que ele ficasse, Júlio disparou em direção à saída, passando como um furacão pelos funcionários que se encolhiam nos corredores, sussurrando entre si. Seus passos eram largos, o coração martelando no peito como um animal enjaulado, e uma única palavra girava em sua cabeça, insistente: Ana. Ana. Ana.

Ele cruzou a recepção da diretoria a tempo de ver as portas do elevador executivo começarem a se fechar no fim do corredor.

— Ana! Espere! — ele gritou, a voz rouca ecoando pelo mármore polido.

Ela ouviu. Através do vão da porta que se estreitava, os olhos de Ana encontraram os dele. Por uma fração de segundo, Júlio viu a máscara de gelo dela trincar, revelando uma dor profunda, quase um pedido silencioso. Mas foi rápido demais — tão rápido que ele quase duvidou de ter visto. Ela não apertou o botão para segurar a porta. O elevador fechou.

Desesperado, Júlio correu até o painel e começou a esmurrar o botão do segundo elevador, xingando baixinho a lentidão do sistema. O visor indicava que a cabine de Ana estava descendo para o subsolo, onde ficava o estacionamento executivo. Cada segundo de espera parecia um ano. Assim que o segundo elevador abriu, Júlio entrou, apertando o botão da garagem com força suficiente para machucar o próprio dedo.

Quando as portas se abriram no subsolo silencioso e mal iluminado, Júlio olhou ao redor, o cheiro de concreto e gasolina lhe apertando o peito. O eco de passos firmes denunciou a posição dela. Ana caminhava em direção a um SUV preto blindado de alto luxo, a postura ereta de quem se recusava a demonstrar qualquer fraqueza — mesmo sozinha, mesmo sem plateia.

— Ana, por favor, me ouve! — Júlio exclamou, correndo até ela e segurando de leve o seu braço.

No mesmo instante em que a mão de Júlio tocou o tecido do terno dela, uma corrente elétrica pareceu cruzar os dois. Ana puxou o braço como se tivesse sido queimada por fogo. Ela se virou bruscamente, o peito subindo e descendo com uma respiração pesada.

— Não encoste em mim, Senhor Prado — sibilou ela, os olhos faiscando de uma raiva que Júlio reconheceu muito bem. A armadura de advogada tinha caído por completo; agora era a Ana real que estava ali, ferida — a mulher que ele amara e perdera, e não a advogada blindada de minutos atrás.

— Do que o meu pai estava falando lá dentro? Que história é essa de dinheiro? — Júlio deu um passo à frente, os olhos implorando por respostas. — Você sumiu há cinco anos, Ana! Bloqueou o celular, mudou de endereço... Eu quase enlouqueci procurando por você! E agora você volta casada, com outro sobrenome, me olhando como se eu fosse um monstro?

Ana soltou uma risada amarga, os olhos marejados, embora ela se recusasse a deixar uma única lágrima cair. Ela jurara a si mesma, numa manhã cinco anos atrás, que nunca mais choraria diante de um Prado.

— Você quer falar de monstros, Júlio? Olhe no espelho. Olhe para o seu pai. Você quer saber por que eu fui embora? Pergunte ao homem que te deu a presidência daquela empresa às custas do meu sofrimento — ela deu um passo na direção dele, a voz trêmula de puro ódio. — Mas o passado não importa mais. Você fez a sua escolha quando aceitou se casar com a Roberta Martinez para salvar o patrimônio da sua família. Você vendeu a sua dignidade por um contrato.

— Eu não tive escolha! — Júlio deu um passo desesperado, encurtando a distância entre eles até que ele pudesse sentir o calor do corpo dela e o perfume que o assombrava todas as noites. — A construtora ia falir, meu pai ia ser preso, Roberta estav... Mas eu nunca esqueci você, Ana. Nem por um segundo.

Por um instante, o silêncio da garagem pesou. A tensão sexual acumulada por cinco anos de ausência, mágoa e desejo reprimido estalou entre os dois. Júlio olhou para os lábios vermelhos de Ana, os mesmos lábios que ele costumava devorar, e o instinto de puxá-la para si e tomá-la ali mesmo, contra o capô daquele carro, quase o venceu. Ele estendeu a mão para tocar o rosto dela.

Mas Ana deu um passo atrás, erguendo o queixo com uma altivez inabalável. A couraça voltou a cobrir seus olhos, embora por dentro cada célula do seu corpo implorasse pelo contrário. Ela apertou as unhas na palma da mão, usando a dor física para se ancorar na realidade e não na lembrança de como aqueles braços costumavam ser um lar.

— Guarda as suas mentiras para a sua esposa, Júlio. Eu não sou mais aquela menina tola que acreditava nas suas promessas de amor. O homem por quem eu me apaixonei morreu há cinco anos. O que está na minha frente hoje é apenas o CEO negligente que eu vou destruir no tribunal — ela destravou o carro e abriu a porta, olhando para ele uma última vez antes de entrar, gravando cada traço daquele rosto que ela jurara esquecer. — Fica longe de mim. Se você cruzar o meu caminho fora daquela sala de reuniões de novo, eu adiciono uma ordem de restrição ao seu processo.

A porta do SUV fechou com um estrondo seco. O motor roncou forte e o carro arrancou, os pneus cantando contra o concreto, deixando Júlio sozinho na penumbra da garagem, com os punhos cerrados e o gosto amargo da rejeição e de um desejo proibido queimando em sua garganta. Ele ficou ali, imóvel, por um tempo que não soube medir, encarando o espaço vazio onde o carro estivera, como se aquilo pudesse trazê-la de volta.

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