CAPÍTULO 2: Nos vemos no tribunal

Júlio Prado vacilou, mas também estendeu a mão para cumprimentar Ana. Foi um toque de segundos, mas ele sentiu aquela eletricidade que ele conhecia bem. Doutora Ana Toricelli apenas meneou com a cabeça para Edgar Prado que rapidamente recolheu sua mão sem ser cumprimentado.

As palavras de Ana ecoaram pela sala como um veredito, cada sílaba pronunciada com a precisão fria de quem já tinha ensaiado aquele discurso centenas de vezes diante do espelho. Júlio continuava estático, os olhos fixos na mulher que ele procurou desesperadamente por anos e que agora parecia uma completa estranha — e ainda assim, inegavelmente, a mesma mulher que ele nunca conseguira esquecer.

Edgar Prado, no entanto, recuperou a compostura com uma rapidez que traía anos de prática em esconder o próprio medo atrás do desdém. Sua expressão chocada se transformou em um sorriso de escárnio. Ele se recostou na cadeira de couro, olhando para Ana de cima a baixo, como quem avalia uma peça de leilão.

— Ana Gusmão... Ou melhor, “Doutora Toricelli” — desdenhou Edgar, enfatizando o sobrenome como se aquilo fosse uma piada de mau gosto. — Devo admitir que estou surpreso. Pensei que o dinheiro que te dei no passado tivesse sido suficiente para você comprar uma vida confortável bem longe do meu filho e do meu país. Pelo visto, o seu preço aumentou e você resolveu usar esses moradores idiotas para tentar extorquir a minha empresa de novo.

Algo na postura de Ana mudou — quase imperceptível, um leve enrijecer dos ombros, um piscar mais lento que o normal — mas ela não deu ao velho a satisfação de uma reação maior. Anos de treino tinham lhe ensinado a engolir a raiva antes que ela chegasse ao rosto.

Júlio franziu a testa, olhando do pai para Ana, tentando costurar sentido nas palavras que acabara de ouvir. Dinheiro? Do que Edgar estava falando? Uma sensação gelada começou a subir por sua espinha, o tipo de certeza incômoda de que estava prestes a descobrir algo que mudaria tudo o que ele pensava saber sobre os últimos cinco anos de sua vida.

Ana permaneceu imóvel. Ela sequer olhou para Júlio; manteve seus olhos gélidos cravados no velho patriarca. O silêncio que se instalou na sala pesava como uma sentença aguardando ser lida. Com um movimento calmo, quase cirúrgico, ela abriu a pasta de couro e retirou um calhamaço de documentos, deslizando-os até o meio da mesa com um baque surdo que ecoou mais alto do que qualquer grito.

— O senhor deveria medir suas palavras, Senhor Edgar Prado — rebateu Ana, com uma calma que soou mais ameaçadora do que qualquer explosão. — O que está nessa mesa não é uma tentativa de extorsão. É o laudo assinado por engenheiros independentes e peritos criminais. A Prado Construtora usou cimento vencido e ferro de qualidade inferior na fundação do Residencial Splendor para desviar verba. Vocês economizaram milhões colocando a vida de trinta famílias em risco.

Por dentro, Ana sentia o coração disparado, cada palavra custando mais do que ela jamais admitiria em voz alta. Mas todo o tempo que esperou para este exato momento não tinha sido em vão. Ela aprendera, à custa de muita dor, que a única linguagem que homens como Edgar Prado entendiam era a de provas irrefutáveis e ameaças cumpridas.

— Isso é um blefe! — Edgar esmurrou a mesa, levantando-se tão bruscamente que a cadeira de couro raspou o piso com um chiado agudo. Ele se inclinou na direção dela, a voz destilando veneno, uma veia latejando visível em sua têmpora. — Escute bem, garota. Você pode ter colocado um terno caro e arranjado um sobrenome estrangeiro, mas para mim você continua sendo a mesma menina insignificante e sem eira nem beira que eu chutei para fora da vida do meu filho. Se você tentar levar isso a público, eu destruo a sua carreira. Eu tenho juízes, delegados e a mídia inteira no meu bolso. Você sumiu uma vez para salvar a sua pele. Sugiro que faça o mesmo agora, antes que eu acabe com você de verdade.

Júlio finalmente reagiu, levantando-se em um salto, o sangue latejando nos ouvidos de fúria e vergonha misturadas.

— Pai, chega! Cale a boca!

Mas nem seu próprio pai, nem a fúria que sentia por ele, conseguiam desviar a atenção de Júlio da mulher parada diante deles, impassível como uma estátua de gelo prestes a rachar.

Ana olhou em seu celular e digitou uma mensagem rápida, depois deu um passo à frente. Ela não recuou um milímetro diante da ameaça. Um sorriso afiado, quase cruel, brotou em seus lábios perfeitamente pintados de vermelho.

— O senhor ficou velho, Edgar, e sua arrogância só piorou — disse ela, num tom baixo e letal. — Mas o mundo mudou. Eu vim aqui para tentar conversar com vocês sobre um acordo e evitar um processo desgastante e demorado. Mas como é impossível ter uma conversa civilizada com o poderoso Edgar Prado, autorizei a minha sócia a fazer o imediato protocolo eletrônico do processo. Daqui a pouco, uma liminar de remoção dos moradores e acomodação em local seguro às custas desta construtorazinha será emitida, e a imprensa internacional vai receber o dossiê completo. Os seus juízes comprados não vão querer se queimar para salvar uma construtora que está prestes a ruir. Passar bem, senhores. Nos vemos no tribunal.

Sem dar tempo para respostas, Ana deu meia-volta e caminhou em direção à saída, os saltos batendo firmes e cadenciados contra o piso de granito, cada passo um eco da mesma determinação que a levara para longe do Brasil cinco anos antes. Atrás dela, deixou Edgar Prado vermelho de raiva e à beira de um infarto e Júlio paralisado numa sala de reuniões que, de repente, parecia pequena demais para conter tudo o que acabara de desabar sobre eles.

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