Mundo de ficçãoIniciar sessãoDo alto da sede da Prado Construtora, os vidros fumês da sala de reuniões emolduravam São Paulo como uma fotografia parada — mas para Júlio Prado nada naquela manhã parecia imóvel.
O ar-condicionado parecia congelar os ossos, e ainda assim um suor frio escorria por sua nuca, denunciando uma tensão que ele vinha tentando esconder havia dias.
Na cabeceira da mesa, seu pai, Edgar Prado, batia os dedos na madeira de mogno com impaciência, o anel de ouro produzindo um estalido seco a cada golpe. Era o mesmo gesto que Júlio conhecia desde menino — o prenúncio de uma tempestade.
— Se a mídia descobrir que o Residencial Splendor está com rachaduras estruturais na fundação, as nossas ações despencam antes do fim do dia, Júlio! — esbravejou o patriarca, com a voz rouca. — Nós precisamos calar esses moradores. Compre o silêncio deles!
— Não é tão simples, pai. Não são apenas rachaduras — Júlio respondeu, a voz grave carregada de exaustão. Ele afrouxou o nó da gravata, sentindo-se sufocado, e por um instante fechou os olhos, como se pudesse apagar dali o peso dos últimos dias sem dormir estudando os laudos que chegaram até ele. Quantas noites ele passara tentando encontrar uma saída que não envolvesse jogar sujo? — O laudo pericial aponta que houve negligência material na fundação. O prédio corre risco real de desabamento. Há famílias ali dentro. E eles contrataram um escritório de advocacia internacional de peso para representá-los.
— Advogados se compram, Júlio. Sempre se compram — Edgar rebateu, com o desdém de quem nunca duvidara do próprio poder. — Você ainda tem muito a aprender sobre como este mundo funciona.
Júlio engoliu a resposta ácida que lhe subiu à garganta. Havia dias em que ele se perguntava se um dia se tornaria aquele homem sentado à cabeceira da mesa — capaz de sacrificar qualquer coisa, qualquer pessoa, em nome do balanço financeiro. A ideia lhe revirava o estômago mais do que qualquer laudo de engenharia.
Antes que Edgar pudesse gritar novamente, o bipe do telefone ecoou. A voz da secretária soou trêmula:
— Senhor Prado? O advogado dos moradores do Residencial Splendor acabou de chegar.
— Mande entrar! — ordenou Edgar, ajeitando o paletó com arrogância, um sorriso predatório já se formando nos lábios. — Vamos acabar com esse blefe.
Júlio respirou fundo, esperando ver algum advogado sênior de cabelos brancos, dessas raposas de tribunal acostumadas a negociar acordos bilionários em surdina, pronto para barganhar um acordo financeiro qualquer que fizesse o problema desaparecer discretamente. Ele já ensaiava mentalmente os argumentos, os números que usaria para conter o estrago.
Fazia cinco anos que Júlio tinha treinado a si mesmo a não pensar nela — um exercício diário, quase religioso, de empurrar qualquer lembrança de volta para o fundo da mente no instante em que ela ousava aparecer.
Funcionava na maior parte dos dias. Não funcionava nas noites em que ele bebia sozinho na biblioteca, nem nas manhãs em que acordava com um nome preso na garganta que ele se recusava a pronunciar nem mesmo sozinho no quarto. Ele se perguntou, por uma fração de segundo absurda, que idade ela teria agora. Se ainda usava o cabelo daquele jeito solto que ele adorava. Se pensava nele com o mesmo ódio que ele jurava sentir por ela — um ódio que, no fundo, ele sabia havia muito tempo, era feito da mesma matéria-prima do amor que nunca tinha realmente ido embora.
Sacudiu a cabeça, irritado consigo mesmo por deixar a mente vagar justamente naquele momento. Foco, Júlio. Havia um prédio prestes a desabar, famílias em risco, e um pai prestes a cometer mais uma atrocidade em nome do lucro. Não havia espaço ali para fantasmas antigos.
Mas o som que quebrou o silêncio da sala não foi a voz grave e cansada que ele esperava. Foi o eco firme e compassado de saltos altos contra o piso de granito, cadenciado como um relógio contando os segundos até uma sentença.
A porta dupla de vidro jateado se abriu.
O tempo parou para Júlio. O oxigênio sumiu de seus pulmões de forma tão violenta que ele sentiu uma dor física no peito. O papel que ele segurava amassou-se completamente em seu punho fechado.
Era ela.
Por um instante, o cérebro de Júlio se recusou a processar a cena. Cinco anos de buscas silenciosas, de madrugadas em claro imaginando aquele rosto, de perguntas engolidas em seco — tudo colidiu de uma só vez contra a mulher parada na soleira da porta.
Mas não a Ana de cinco anos atrás. Não a jovem universitária de cabelos presos em um coque frouxo, roupas simples e olhar doce que ele costumava segurar nos braços jurando amor eterno. A mulher que cruzava a porta exalava um poder avassalador. Ela vestia um terno de alfaiataria italiano sob medida, os cabelos escuros caíam em ondas impecáveis pelos ombros, e um perfume importado, marcante e sofisticado, invadiu o ambiente, apagando o cheiro de café caro da sala.
Júlio sentiu o chão ceder sob os próprios pés. Era ela, e ao mesmo tempo não era mais. A garota que ele amara tinha desaparecido, e em seu lugar havia uma desconhecida blindada — forjada, ele suspeitou com um aperto doloroso no peito, por alguma coisa que ele nem sabia se ajudara a causar.
Os olhos dela, antes cheios de calor e ternura, agora eram duas pedras de gelo. Por trás daquela fachada impecável, o coração de Ana batia tão descontrolado quanto o dele — mas ela havia passado os últimos cinco anos aprendendo, à força, que sobreviver significava nunca deixar transparecer.
— Ana...? — o nome escapou dos lábios de Júlio em um sopro desacreditado. Seu coração martelou contra as costelas, tão alto que ele achou que todos na sala podiam ouvir.
Ao seu lado, Edgar Prado empalideceu drasticamente, arregalando os olhos ao reconhecer a mulher que, cinco anos antes, ele havia ameaçado e escorraçado do país. Por uma fração de segundo, algo parecido com pânico cruzou o rosto do patriarca — rápido demais para que Júlio, ainda paralisado, percebesse.
Ana Gusmão — agora Toricelli — nem sequer piscou ao encarar os dois homens que destruíram sua vida. Ela caminhou com uma elegância felina até o lado oposto da mesa, deslizou uma pasta de couro preta sobre a superfície brilhante e encarou Júlio fixamente. Nenhuma linha de seu rosto vacilou. Ela sustentou o olhar dele com um controle impecável que cortou o peito de Júlio como uma lâmina — a mesma blindagem que ela havia treinado por cinco anos.
Com um meio sorriso implacável e distante, ela estendeu a mão, como se estivesse cumprimentando um adversário qualquer em um tribunal, e não o homem que uma vez jurara amar para sempre.
— Doutora Ana Toricelli, Senhor Prado. Represento as trinta famílias do Residencial Splendor. E não viemos aqui para fazer um acordo. Viemos para exigir o acerto de contas.







