Mundo de ficçãoIniciar sessão
O saguão de embarques internacionais de Guarulhos fervilhava de gente àquela hora, mas para Ana Gusmão o mundo parecia ter emudecido. Sentada num banco de plástico duro, ela apertava contra o peito uma única mala de mão — tudo o que restara de uma vida inteira, desfeita em poucas horas. Ao redor dela, famílias se despediam entre abraços demorados, crianças puxavam os pais pela manga ansiosas para embarcar em alguma aventura de férias, casais trocavam últimos beijos apressados antes do check-in fechar. Ninguém ali parecia notar a mulher imóvel no canto mais afastado dos bancos, como se a dor pudesse ser silenciosa o bastante para se tornar invisível.
Fazia menos de quatro horas que sua vida tinha virado do avesso. As ameaças, os gritos, o desprezo nos olhos — tudo ainda ecoava em sua cabeça como um disco arranhado, girando sem parar. Ana fechava os olhos por instantes e via de novo cada rosto, cada palavra afiada, como se a própria memória se recusasse a lhe conceder um segundo sequer de trégua.
Seu celular vibrou no colo. Ana encarou a tela por um longo instante antes de destravá-la. O nome do banco piscava no topo da notificação, e logo abaixo, um valor que representava tudo o que ela jurara nunca aceitar. Não era para ficar com aquele dinheiro — nunca fora essa a intenção — apenas devolvê-lo, cada centavo, à origem que tentara comprá-la como se fosse mercadoria. Com dedos trêmulos, abriu o aplicativo, conferiu uma última vez e confirmou. Salvou o comprovante da transação depois de tocar em “Concluir”. Não sobrava nem orgulho suficiente para sentir alívio.
Guardou o celular no bolso do casaco e levou as mãos ao rosto, enxugando as lágrimas que insistiam em escapar antes que alguém pudesse vê-la chorar. Ana Gusmão não chorava em público. Prometeu a si mesma que nunca mais choraria em público, respirando fundo até o ar preencher os pulmões doloridos. Endireitou as costas contra o encosto duro do banco, como se o próprio gesto pudesse costurar de volta os pedaços que sentia se espalharem por dentro do peito.
— Passageiros do voo com destino a Roma, embarque pelo portão doze — anunciou a voz metálica pelos alto-falantes.
Ela se levantou, ajeitou a alça da mala no ombro e caminhou até o portão sem olhar para trás, como se alguém pudesse aparecer correndo pelo saguão para impedi-la — como nas novelas de que ela costumava zombar assistindo ao lado de sua falecida mãe. Ele não apareceu. Ninguém apareceu. Era assim que aquela história terminava: sozinha, com uma mala de mão e um coração em pedaços.
A funcionária no portão conferiu seu passaporte com um sorriso automático de rotina, alheia ao fato de que carimbava, sem saber, o fim de uma vida inteira. Ana seguiu pelo corredor estreito até a aeronave, cada passo ecoando mais alto do que deveria em seus próprios ouvidos.
O avião decolou pouco depois das três da tarde. Ana escolheu a janela, encostou a testa fria no vidro grosso e observou o Brasil encolher lá embaixo até virar apenas uma mancha verde e cinza no horizonte. As luzes da cidade piscavam ao longe como promessas quebradas, cada uma um pedaço da vida que ela deixava para trás sem nenhuma garantia de retorno.
Foi só então, com o país inteiro que a rejeitara reduzido a um ponto insignificante entre as nuvens, que ela permitiu que a última lágrima escorresse.
“Eu nunca mais vou voltar”, prometeu a si mesma em silêncio, os olhos fixos na vastidão azul lá fora. “Mas se um dia eu voltar...”
Ana fechou os olhos, e quando os abriu, o mesmo brilho de gelo que um dia definiria a “Doutora Ana”, já começava a se formar em seu olhar.
“...vai ser para fazer cada um deles pagar.”







