Mundo de ficçãoIniciar sessãoA noite em São Paulo não tinha nada de poética para quem precisava atravessá-la de ônibus. Para Lara, o céu carregado era apenas um aviso de que suas roupas demorariam mais para secar no varal da pequena quitinete na Zona Leste. Ela limpou o suor da testa com o dorso da mão enluvada, sentindo o peso do carrinho de limpeza metálico ranger sob seu comando.
O 42º andar da Valente Tower era um universo paralelo. Ali, o ar era purificado, a temperatura era mantida constantes 21 graus e o silêncio era tão denso que Lara conseguia ouvir o próprio batimento cardíaco. Era o reduto de Arthur Valente, o homem que as revistas chamavam de "O Tubarão do Mercado". Para Lara, ele era apenas o dono das digitais que ela precisava apagar das superfícies de vidro e o dono do rastro de perfume caro que flutuava pelo corredor. — Só mais esse andar, Lara. Só mais esse e você volta para casa — sussurrou para si mesma, tentando ignorar a pontada de exaustão em suas costas. Ela abriu a porta da suíte executiva com o cartão magnético de serviço. O escritório era vasto, decorado com móveis de design e obras de arte que custavam mais do que ela ganharia em dez vidas. Ao fundo, a porta do banheiro privativo estava entreaberta. Lara entrou para recolher as toalhas usadas, mas parou no meio do caminho. O mármore negro do banheiro brilhava sob a iluminação embutida, e o aroma de sândalo e uísque era quase narcótico. Ela olhou para as próprias mãos, ressecadas pelos produtos de limpeza, e depois para a ducha de teto banhada a ouro, que parecia uma cascata de luxo. Lara sabia que era loucura. Sabia que, se fosse pega, perderia o emprego que pagava os remédios da mãe. Mas a tentação de se sentir humana por quinze minutos, de lavar a crosta de cansaço e pobreza de sua pele, foi mais forte que o medo. Com as mãos trêmulas, ela trancou a porta. Despiu-se do uniforme de brim cinza, sentindo-se estranhamente exposta naquele ambiente de realeza. Quando a água quente atingiu seus ombros, Lara soltou um gemido baixo. Era como se cada gota estivesse lavando suas preocupações. Ela usou o sabonete líquido de marca francesa que estava na bancada, fechando os olhos enquanto a espuma rica e perfumada deslizava por seus seios e quadris. Naquele momento, envolta pelo vapor, ela não era uma faxineira. Ela era a dona do mundo. Ela saiu do box dez minutos depois, a pele tingida de um rosa profundo. Sem toalha seca à mão — as limpas estavam no armário alto que ela não alcançava sem a escada do carrinho —, ela vestiu apenas a camiseta branca de algodão fino do seu uniforme. O tecido, em contato com sua pele ainda úmida, tornou-se instantaneamente translúcido, colando-se às suas curvas como uma segunda pele. Lara estava passando a mão pelo espelho embaçado para ver o próprio reflexo quando ouviu o som. Bip. O destrancar da porta eletrônica do escritório. Passos pesados e decididos ecoaram pelo carpete alto. O sangue de Lara gelou. Arthur Valente nunca voltava àquela hora. Nunca. Ela ficou paralisada no centro do banheiro, o coração martelando contra as costelas, quando a porta da ante-sala se abriu. Arthur parou abruptamente. Ele segurava o paletó em uma das mãos e um copo de cristal na outra. A luz do corredor iluminava sua silhueta imponente: os ombros largos que preenchiam a camisa branca, a mandíbula perfeitamente esculpida e os olhos que, ao encontrarem Lara, perderam qualquer traço de cansaço. O olhar dele não foi de susto. Foi uma varredura lenta, predatória, que começou nos pés descalços dela, subiu pelas pernas expostas e parou demoradamente no busto, onde os mamilos de Lara, rígidos pelo choque e pelo frio do ar-condicionado, se desenhavam nitidamente sob a camiseta molhada. — Eu não me lembro de ter contratado esse tipo de serviço — a voz de Arthur era um rosnado baixo, carregado de uma tensão que fez o ventre de Lara se contrair violentamente. Lara tentou cobrir o corpo com as mãos, mas era tarde demais. O estrago — ou o início dele — estava feito. — Senhor Valente... eu... eu pensei que o andar estivesse vazio — ela gaguejou, a voz sumindo enquanto ele dava o primeiro passo em sua direção. — O andar está vazio, pequena intrusa — ele disse, deixando o paletó cair no chão sem desviar os olhos dela. — Mas agora eu estou aqui. E você está nas minhas dependências, usando a minha água e o meu sabonete. Arthur parou a centímetros dela. O cheiro de poder e desejo que ele exalava era quase sufocante. Ele estendeu a mão e, com o polegar, ergueu o queixo de Lara, forçando-a a encarar a escuridão em suas pupilas. — O que você acha que deve ser a punição para quem invade a toca de um lobo?






