Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol de São Paulo entrava pelas imensas janelas de vidro da cobertura com uma agressividade que fazia a cabeça de Lara latejar. O luxo que, na noite anterior, parecia um cenário de sonho sob a luz fraca do banheiro, agora era frio e intimidador. Ela estava sentada em uma cadeira de couro italiano, sentindo-se pequena e deslocada diante da mesa de carvalho negro de Arthur Valente.
Ela ainda usava o uniforme de brim cinza, mas a camiseta branca por baixo era nova, comprada às pressas em uma farmácia 24 horas após ela ter fugido da torre na madrugada. O calor do beijo de Arthur ainda parecia queimar em sua boca, mas o olhar que ele dirigia a ela agora não tinha nada de desejo. Era o olhar de um negociador prestes a fechar um abate. — Você dormiu, Lara? — Ele perguntou, sem levantar os olhos de um tablet. — Não muito, senhor. — Compreensível. — Arthur finalmente largou o aparelho e inclinou-se para a frente, entrelaçando os dedos longos sobre a mesa. — O que aconteceu ontem foi um... desvio de conduta. De ambas as partes. Mas eu não sou um homem que ignora oportunidades quando elas caem no meu colo. Literalmente. Ele deslizou um envelope de papel texturizado, preto fosco, em direção a ela. Dentro, havia poucas páginas, mas o peso do que estava escrito ali parecia esmagador. — O que é isso? — Ela perguntou, a voz saindo mais firme do que se sentia. — Os termos da sua rendição. — Arthur deu um sorriso de canto, desprovido de humor. — Eu fiz algumas pesquisas. Sua mãe, Dona Maria, está na fila do SUS para uma angioplastia que pode não chegar a tempo. Suas mensalidades da faculdade de Arquitetura estão atrasadas há seis meses. Você está a um passo do despejo e a dois passos de um colapso. Lara sentiu o sangue fugir do rosto. A humilhação de ter sua vida escaneada e exposta era pior do que ser pega nua. — Você me investigou? Isso é invasão de privacidade! — Irônico vindo de quem foi pega na minha ducha, não acha? — Ele rebateu, a voz gélida. — Não perca seu tempo com indignação, Lara. Use-o para ler. O contrato prevê o pagamento integral do tratamento da sua mãe na melhor clínica cardíaca do país, a quitação das suas dívidas e um salário que você não ganharia em dez anos como faxineira. Lara leu as cláusulas com o coração batendo na garganta. Mas, no final, seus olhos pararam no item principal: Exclusividade e Disponibilidade Total. — "Disponibilidade total"? O que isso significa na prática? Arthur levantou-se e caminhou até a janela, observando a cidade abaixo de seus pés como se fosse o dono de cada alma lá embaixo. — Significa que você não limpa mais chãos. Você será minha assistente pessoal durante o horário comercial. E, fora dele, você será o que eu decidir que você seja. Você vai morar onde eu mandar, vestir o que eu escolher e estar presente sempre que eu exigir. Sem perguntas. Sem negações. Ele voltou-se para ela, a aura de poder quase sufocando o oxigênio da sala. — Você me entregou o controle ontem naquela bancada, Lara. Eu só estou colocando isso no papel. Assine e sua mãe vive. Recuse, e você sai daqui agora, eu chamo a segurança e garanto que você não consiga emprego nem para lavar calçadas nesta cidade. Lara olhou para a caneta tinteiro de ouro sobre a mesa. Era o instrumento que selaria sua alma. Ela pensou no rosto cansado da mãe e na sensação das mãos de Arthur em seu corpo. O medo e o desejo se misturavam em um nó cego. Ela pegou a caneta. A mão tremia levemente enquanto sua assinatura, Lara Medeiros, manchava o papel oficial. Arthur pegou o documento, observando a tinta secar com uma satisfação predatória. — Excelente escolha. Agora, primeira lição como minha propriedade: jogue esse uniforme no lixo. Tem uma caixa na ante-sala com o que você vai usar hoje. Temos uma reunião em vinte minutos e eu não suporto atrasos.






