Capítulo cinco

Meu corpo dói.

É a primeira coisa que sinto.

Uma dor profunda, espalhada, como se cada parte de mim tivesse sido atingida ao mesmo tempo. Minha cabeça lateja assim que recobro a consciência, um peso incômodo pressionando minhas têmporas. Resmungo baixo, me mexendo lentamente, tentando ignorar o desconforto… até perceber algo estranho.

Cama?

Abro os olhos com dificuldade, piscando algumas vezes até conseguir focar. O quarto ao meu redor é mal iluminado, envolto em sombras suaves que deixam o ambiente quase misterioso. As paredes têm um aspecto rústico, madeira escura e detalhes que remetem a algo antigo… mas, ao mesmo tempo, tudo ali é absurdamente luxuoso. Os móveis são robustos, elegantes, e o silêncio é denso, como se aquele lugar estivesse isolado do resto do mundo.

Me sento devagar, mas uma dor aguda atravessa meu braço, arrancando um suspiro dolorido dos meus lábios. Levo a mão até ele por reflexo, tentando aliviar, e é quando percebo…

Minha roupa.

Olho para baixo, o coração acelerando.

Estou vestindo um baby doll.

Meu estômago revira na mesma hora.

Que droga… quem me vestiu?

Onde eu estou?

Minhas mãos apertam levemente o tecido, a mente entrando em alerta imediato. Meus pés tocam o chão frio quando tento levantar, mas meu corpo protesta. A dor na perna é intensa, e ao olhar para baixo, vejo uma faixa bem presa. Dou um passo… e o repuxar confirma o que eu já suspeitava.

Pontos.

Respiro fundo, tentando me manter firme, mesmo com o corpo ainda fraco, quando—

— Você não deveria estar de pé… ainda não está recuperada. — a voz surge, grave, firme, preenchendo o ambiente com uma presença impossível de ignorar.

Meu corpo inteiro se tensiona.

Viro o rosto rapidamente na direção da voz… e o vejo.

Saindo do banheiro.

Por um segundo… eu simplesmente paro.

Meus olhos se arregalam levemente, não só pela surpresa… mas pelo impacto.

Ele está apenas com uma toalha presa na cintura, ainda úmido, gotas de água escorrendo lentamente pela pele. Seu peitoral é largo, bem definido, os músculos desenhados de forma natural, sem exageros, mas com uma força evidente. O abdômen marcado desce até a linha em “V”, parcialmente escondida pela toalha, criando uma imagem quase… perigosa demais para ignorar.

Mas não é só isso.

O que realmente prende minha atenção… é o rosto.

Ele passa a toalha pelos cabelos, que são escuros, levemente ondulados, caindo de forma despreocupada até a altura das orelhas. Alguns fios ainda estão úmidos, desalinhados, dando a ele um ar desleixado… calculado.

A barba por fazer marca sua mandíbula de forma sutil, reforçando seus traços fortes. Não é exagerada… é exatamente o suficiente para torná-lo mais… intenso.

Mais perigoso.

Seus olhos são escuros, profundos, carregados de algo difícil de decifrar. Não há surpresa neles. Não há pressa. Apenas… controle. Como se ele estivesse sempre alguns passos à frente de tudo.

Como se nada o pegasse desprevenido.

Sua postura é relaxada, mas firme, ocupando o espaço de uma forma natural, dominante… sem precisar dizer uma única palavra além daquelas que já disse.

— Quem é você e onde estou? — questiono, a voz saindo mais firme do que eu realmente me sinto.

Ele não responde de imediato.

Simplesmente se afasta alguns passos, como se minha urgência não fosse nada além de um detalhe irrelevante. Pendura a toalha com calma em um cabideiro próximo, os movimentos tranquilos demais para alguém que claramente sabe mais do que eu. Em seguida, caminha até uma porta que eu não tinha notado antes… um closet.

— Você está no meu quarto neste momento. — ele responde, como se isso fosse suficiente.

Meu maxilar trava.

Vejo ele voltar com algumas roupas nas mãos, completamente à vontade, como se a situação fosse… normal.

— Eu não estou brincando. É melhor me falar onde eu estou! — minha voz sai mais alta agora, carregada de tensão, de medo… e de raiva.

Ele para.

Me olha.

E dessa vez… o ar muda.

O olhar dele se torna mais sério, mais direto… mais perigoso.

As roupas são deixadas sobre a cama sem pressa, e então ele começa a caminhar na minha direção. Meu corpo reage na mesma hora, dando alguns passos para trás, instintivamente, tentando manter distância… mas não há muito espaço.

Minhas costas encontram a parede.

E eu paro.

Ele se aproxima mais.

Perto demais.

Seus braços se apoiam na parede, um de cada lado do meu corpo, me prendendo ali sem precisar tocar de verdade. A presença dele é… sufocante. Intensa. Meu coração dispara no mesmo instante, não só pelo medo… mas por algo que eu me recuso a nomear.

A respiração dele atinge minha pele, quente, próxima demais. O cheiro… uma mistura limpa de sabonete com algo mais profundo, amadeirado… marcante. Forte. Envolvente de uma forma perigosa.

— Se não o quê? — ele pergunta, a voz baixa, controlada, carregada de um desafio silencioso.

Engulo em seco.

Meu corpo inteiro está em alerta.

Mas eu não desvio o olhar.

Sinto seus dedos se aproximarem, e antes que eu reaja, ele afasta uma mecha solta do meu cabelo, colocando-a atrás da minha orelha com uma calma que contrasta completamente com a tensão entre nós.

Meu coração acelera ainda mais.

— É melhor se sentar antes que você estoure seus pontos… amor. — ele diz, a última palavra saindo mais baixa, quase como um teste.

E, por mais que eu queira responder à altura…

Meu corpo ainda dói.

E ele sabe disso.

Ele se afasta de mim sem dizer mais nada e segue em direção ao banheiro, como se aquela proximidade de segundos atrás simplesmente não tivesse acontecido. A porta se fecha atrás dele, e o som suave do clique ecoa no quarto silencioso.

O ar parece mudar.

Mais leve… ou talvez apenas menos sufocante.

Solto o ar que nem percebi que estava prendendo, minha postura relaxando minimamente agora que ele não está tão perto. A dor na minha perna volta com mais intensidade assim que tento me mover, como se meu corpo estivesse apenas esperando um momento de distração para me lembrar de cada impacto, cada ferimento.

Com cuidado, caminho até a cama, cada passo lento, calculado, sentindo o leve repuxar dos pontos a cada movimento. Me sento com um suspiro contido, levando a mão até a coxa enfaixada, tentando aliviar a dor que pulsa constante sob a pele.

Minha cabeça ainda gira.

Tudo está confuso demais.

O acidente… os tiros… aquele homem… e agora isso.

Esse lugar.

Ele.

Antes que eu consiga organizar qualquer pensamento, a porta do banheiro se abre novamente.

Levanto o olhar.

Ele volta já vestido, agora com roupas escuras que caem perfeitamente no corpo, destacando ainda mais sua estrutura firme. A camisa ajustada marca o peitoral e os braços, e há algo ainda mais sério na forma como ele se move… mais controlado, mais fechado.

Sem dizer nada, ele pega uma caixa sobre uma das mesas e caminha até mim.

Meu corpo se enrijece levemente quando ele se aproxima, mas dessa vez… não recuo.

Ele se agacha à minha frente.

A proximidade é diferente agora. Mais… prática. Mas ainda assim intensa.

Seus dedos alcançam a faixa na minha perna, e ele começa a desenfaixá-la com cuidado, movimento por movimento, como se soubesse exatamente onde tocar… e onde evitar. O tecido se solta lentamente, revelando os pontos ainda recentes. A pele ao redor está sensível, levemente avermelhada.

Observo cada gesto.

A forma como ele analisa o ferimento com atenção, o olhar focado, preciso. Ele não parece hesitar em nenhum momento.

Pega um algodão, limpa a área com delicadeza, mesmo que o contato ainda faça meu corpo reagir com pequenos espasmos de dor. Seus movimentos são firmes, mas cuidadosos… experientes.

Silenciosos.

Como se já tivesse feito isso muitas vezes.

Depois, ele pega uma nova faixa e começa a enfaixar novamente, com a mesma precisão, ajustando sem apertar demais, mas o suficiente para manter tudo no lugar.

Eu o encaro.

Tentando entender.

— Onde eu estou? — pergunto novamente, dessa vez com a voz mais calma, mais controlada… mesmo que por dentro eu ainda esteja um caos.

Ele não levanta o olhar de imediato.

Termina de prender a faixa antes de responder.

— Você está em segurança aqui. — diz simplesmente.

Seguro o ar por um segundo.

Segurança.

Essa palavra parece distante demais para ser real.

Ele se levanta então, pegando a caixa novamente, como se já tivesse feito o que precisava fazer.

— No jantar… você vai conversar com alguém. — ele continua, já se afastando alguns passos — um homem que conhecia sua mãe.

Meu coração dá um salto.

Me levanto um pouco mais rápido do que deveria, ignorando a dor que dispara na perna.

— Eu estou procurando por alguém… — digo, a voz saindo mais urgente — Ares Neytan.

Ele para.

A mão ainda na maçaneta.

O silêncio que se forma é diferente.

Pesado.

Lento.

Ele vira o rosto na minha direção, os olhos encontrando os meus com uma intensidade que faz meu estômago revirar. Não há surpresa ali. Nem dúvida.

Apenas… certeza.

— Você está olhando para ele. — ele diz, firme, direto.

Meu coração simplesmente para por um segundo.

Antes que eu consiga reagir… antes que eu consiga dizer qualquer coisa—

Ele abre a porta.

E vai embora.

Me deixando sozinha…

Com mais perguntas do que respostas.

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