Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla abriu os olhos, assustada, e olhou para aquele homem que estava falando com ela. Era um homem grisalho, mais velho, forte, usando botas, calça jeans, camiseta polo e chapéu. Ele era Radael, o fazendeiro, dono daquelas terras, muito mal-humorado; ele nem se preocupou em perguntar como ela estava. Ele apenas a mandou sair. Ela se sentou, desorientada, sonolenta, se levantou com dificuldade e gaguejou, constrangida, apreensiva:
— Mo-mo-moço, desculpa, eu só estava cansada, eu precisava descansar um pouco. Aqui, a cidade ainda é Terrário ou é a do lado?
Ele a olhou de cima a baixo, reparando no vestido úmido, colado ao corpo, marcando sua silhueta, que era linda, por sinal, reparou nos olhos expressivos e nas marcas pelo rosto e pelo corpo, hematomas. Então ele cerrou os olhos e respondeu intrigado:
— Sim, aqui é a cidade de Terrário ainda, mas é quase a cidade do lado. Por quê? Você está fugindo de alguém?
Ela olhou para os lados, apreensiva, ajeitou a roupa, enrolou o cabelo num coque desajeitado e respondeu:
— Não, não. Desculpa invadir suas terras, eu não tinha intenção. Eu juro por Deus que eu não mexi em nada, eu só precisava descansar. Eu vou indo então.
Ela caminhou um pouco, mancando; de repente parou e se virou para trás. Ele estava subindo no trator. Ela olhou e falou apreensiva:
— Moço, eu posso te pedir um favor? Eu sei que você não me conhece, mas você não teria vinte reais para me emprestar? Eu só preciso para pegar um ônibus. Eu… eu não tenho dinheiro, moço.
Radael, sentado no trator, ficou olhando, reparando na beleza dela, no jeito de parecer inferiorizada, acuada como um animal indefeso, então passou uma ideia pela cabeça dele em ajudá-la para ter mais respostas e talvez encontrar o que tanto precisava. Então ele estendeu a mão e assentiu com a cabeça:
— Sim, eu tenho. Vem até aqui, suba no trator, nós vamos até a fazenda e eu te empresto o dinheiro; você pode comer. Está machucada, não está?
Ela assentiu, aproximou-se desconcertada, agora sentindo medo dele por perceber que ele era um homem mais velho e que eles estavam sozinhos lá no meio do nada, perto do canavial. Ela disse sentindo o ar faltar:
— Eu cortei meu pé.
Ela a segurou pela mão, a puxou e a colocou em pé dentro do trator. Foi ligando a máquina e falou sério:
— Vou te levar pra casa grande. Eu acho que você não está bem para sair por aí sozinha. Vinte reais… pra onde você vai com vinte reais? Tem alguém te esperando?
Ela negou com a cabeça baixa, falou engolindo o choro:
— Não, não tem. Eu sou sozinha, moço. Muito obrigada por me ajudar. Eu nunca te vi pela cidade. Você trabalha aqui?
Ele percebeu que ela era um pouco ingênua, além de linda, respondeu, seco:
— Trabalho.
Ela ficou apreensiva, esperando ver se ele falaria mais algo, e foram até a fazenda em silêncio. Quando chegaram, ele desceu primeiro da máquina, ajudou-a a descer segurando-a pela cintura e ficou atraído, a achando linda, delicada, mesmo que com uma beleza simplória. Darla era negra, tinha cabelos pretos, longos, cacheados e seu corpo era enxuto, com tudo no lugar, bastante atraente.
Os dois foram entrando, Radael abriu a porta, guiou-a até a sala, falou para ela se sentar e disse que já voltava. Ela ficou segurando as mãos, balançando a perna apreensiva, então logo ele voltou com um kit de primeiros socorros, ajoelhou-se na frente dela e, olhando, perguntou intrigado:
— Você andou descalça? Tudo isso?
Darla assentiu, constrangida por estar com os pés sujos de terra, e respondeu de cabeça baixa:
— Sim, eu perdi meus chinelos. Então... você mora sozinho? Essa fazenda é muito grande. Eu nunca tinha visto uma assim tão de perto.
Ele respondeu, começando a limpar o machucado no pé dela:
— Sim, eu moro sozinho, graças a Deus. Então, o que aconteceu com você, menina? Do que ou de quem estava fugindo? Pode falar a verdade. Eu não vou contar nada a ninguém.
— Eu sou maior de idade, moço. Eu juro... Ai, tá doendo! — ela disse ao sentir ele fazendo o curativo.
Ele perguntou:
— Então, você é maior de idade. Entendo. Se meteu em problemas? Fez alguma coisa errada por aí na rua?
Darla o olhou profundamente nos olhos e respondeu apreensiva, mas com firmeza:
— Moço, eu vou ser sincera com você. Eu tenho problemas em casa. Eu moro com meu irmão, a minha cunhada, meus pais já morreram tem anos e eu não estou me dando bem com eles. Então eu resolvi, sim, eu resolvi seguir o meu caminho, ter a minha própria vida. Eles não me deixam fazer nada, eu juro pra você. Inclusive, você pode olhar, eu tô toda marcada. O meu irmão, me agride. Quase todos os dias, tá? Ele me b**e sem motivo. Ele chega com raiva do trabalho e desconta em mim. Ele briga com a esposa e desconta em mim. Sem contar que eles me fazem de empregada na casa.
Ela ficou emotiva, com os olhos marejados, e continuou falando:
— Deus sabe o quanto eu tenho me esforçado para aguentar, mas eu não acho isso justo. Eu nunca nem namorei. Eu quero casar, ter a minha família, e eles querem me fazer de empregada. Se eu continuar nessa vida, eu juro pra você, moço, eu prefiro morrer do que continuar, porque eu não aguento mais. Eu estou exausta. Olha pra mim, eu tô toda machucada. E sabe o que eu fiz? Só peguei uma carona com o vizinho, porque estava chovendo e eu tinha que chegar logo em casa pra colocar o jantar no fogo. Moço, eu juro que estou falando a verdade.
Ela começou a ficar nervosa por perceber que Radael não falava nada. Ele terminou o curativo, a olhando, parecia estar pensativo. Então logo se levantou, guardando as coisas, e falou sério:
— Entendo. E você gostaria de um emprego? Isso te ajudaria no momento?
Ela arregalou os olhos surpresa e perguntou:
— Um emprego? Está falando sério? Você faria isso por mim? Eu juro que sou muito honesta, moço, eu juro!
Ele sorriu com malícia e respondeu:
— É, mas talvez não seja bem o que você está pensando. Como você pode ver, essa casa é grande e organizada. Eu já tenho funcionária para cuidar da casa, para cuidar das coisas lá fora. Eu já tenho quase tudo que eu preciso. Exceto uma coisa, que talvez você possa aceitar. Ou não. Você está aberta a propostas? Está tão desesperada quanto parece?
Darla não queria acreditar, mas falou apreensiva, já imaginando:
— Sim, estou. O que quer que eu faça?
Radael ficou sério, ajeitou o chapéu na cabeça e, olhando-a fixamente, com malícia, a cobiçou:
— Eu não gosto de sair e preciso de uma mulher, mas não para ter algo sério. Namoro ou casamento, nada disso.
— Você é atraente e jovem.
— Quero uma mulher que se deite comigo sempre que eu quiser. Tem que me dar prazer, e eu… pagarei por isso. Terá casa, segurança e regras a seguir.
Ela ficou olhando, perplexa, levantou constrangida, franziu a testa e disse:
— Isso é sério? Você não parece do tipo que precisa pagar para ter uma mulher.
— Isso é estranho, ofensivo, mas eu acho que me sinto lisonjeada também.







