A manhã seguinte nasceu inquieta.
Ella sentiu isso antes mesmo de abrir os olhos. A alcateia estava em alerta — não declarado, mas pulsando sob a rotina aparentemente normal. O vento carregava mensagens que não precisavam de palavras, e cada lobo parecia caminhar com atenção redobrada, como se o chão pudesse revelar segredos a qualquer passo.
Ela se levantou devagar, prendendo os cabelos e ajustando a roupa com cuidado excessivo. Controle. Sempre controle. Ainda assim, o coração batia mais rápido do que deveria.
Liam havia se afastado. Ela repetiu isso mentalmente como um mantra. Era o correto. O necessário.
Mas correto não significava simples.
Ao sair da cabana, Ella percebeu imediatamente os olhares. Não eram diretos, nem acusatórios — eram curiosos, atentos demais. Como se algo nela tivesse mudado durante a noite e todos tentassem identificar o quê.
— Bom dia — disse uma das mulheres mais velhas, com um sorriso curto.
— Bom dia — respondeu Ella, mantendo a voz firme.
Enquanto caminhava pelo centro da alcateia, sentiu o cheiro dele mais fraco, distante, mas ainda presente. Um rastro residual, quase imaginário… e ainda assim suficiente para fazê-la estremecer.
— Filha do alfa.
A voz masculina veio de trás. Ella se virou lentamente, encontrando o olhar de Ruan, um dos patrulheiros mais jovens. Ele a observava com atenção excessiva, o nariz levemente contraído.
— Algo errado? — ela perguntou.
— Não — respondeu ele rápido demais. — Só… notei que você tem andado muito pela floresta ultimamente.
Ela sustentou o olhar, sem recuar.
— Sempre fiz isso.
Ruan assentiu, mas não pareceu convencido.
— A floresta anda… diferente — comentou. — Cheiros novos. Passos que não reconhecemos.
— A floresta não pertence a ninguém — respondeu Ella, firme.
Ele sorriu de lado.
— Algumas coisas pertencem, sim.
Antes que ela pudesse responder, ele se afastou, deixando no ar um aviso silencioso. Ella respirou fundo, sentindo o peso da atenção que começava a se voltar para ela.
Eles estavam perto demais.
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Do outro lado do território, Liam observava.
Mantinha distância, como prometera, mas não conseguia ir embora. Havia algo ali que o prendia, algo que não se resolvia com força ou fuga. Ele se movia entre as sombras, atento aos padrões da alcateia, às mudanças sutis no comportamento dos sentinelas.
Eles estavam fechando o cerco.
Liam cerrrou os punhos, frustrado. Nunca fora imprudente. Nunca deixara rastros tão claros. Mas Ella… Ella desorganizava tudo. Sua presença o fazia esquecer regras que aprendera desde cedo.
— Isso não pode continuar — murmurou para si mesmo.
Ainda assim, quando o vento mudou de direção e trouxe o cheiro dela — mais limpo, mais calmo — algo dentro dele se aquietou por um instante.
Ela estava segura. Por enquanto.
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No final da tarde, o alfa convocou o conselho.
Ella sentou-se ao lado dele, mantendo a postura perfeita, mas sentindo o peso da situação apertar-lhe o peito. Os anciãos conversavam em voz baixa, trocando olhares longos, preocupados.
— Há um lobo rondando nosso território — disse um deles. — Não pertence a nenhuma alcateia conhecida.
— Ele conhece bem a floresta — acrescentou outro. — Não deixa rastros fáceis.
— Ainda assim, foi visto — afirmou o alfa, com a voz firme. — E isso é um problema.
Ella sentiu o olhar do pai deslizar até ela por um breve segundo, rápido demais para ser casual. Ela manteve o rosto impassível.
— Reforçaremos as patrulhas — continuou ele. — Ninguém anda sozinho à noite. Principalmente nas áreas próximas à clareira.
O coração de Ella apertou.
— Isso não é um ataque — disse um dos anciãos. — É observação.
— Observação pode virar ameaça — respondeu o alfa. — Não podemos permitir riscos.
Ella apertou as mãos sobre o colo, sentindo o conflito crescer dentro dela. Parte de si queria falar, alertar, dizer que Liam não era uma ameaça. Outra parte sabia que qualquer palavra a colocaria sob suspeita imediata.
Ela permaneceu em silêncio.
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Quando a noite caiu, Ella tentou resistir.
Ficou na cabana, ocupando-se com tarefas simples, forçando a mente a permanecer ali. Mas cada som da floresta parecia chamá-la, cada mudança no vento trazia perguntas que não a deixavam em paz.
Ela não pretendia encontrá-lo. Dizia isso a si mesma enquanto caminhava. Apenas precisava confirmar. Precisava ter certeza de que ele estava bem. De que realmente iria embora.
A lua surgia por entre as árvores quando Ella chegou à borda da clareira.
— Eu sabia que viria.
A voz de Liam veio baixa, controlada.
Ela se virou, encontrando-o encostado em um tronco, parcialmente escondido pela sombra. O coração dela acelerou de imediato.
— Eu não vim para ficar — disse ela.
— Nenhum de nós vem — respondeu ele, aproximando-se alguns passos. — E ainda assim…
O silêncio entre eles se estendeu, pesado.
— Estão fechando o território — contou Ella. — Patrulhas reforçadas. Caçam você agora.
— Eu sei — disse Liam. — Já senti.
Ela o observou com atenção. Havia tensão em seus ombros, cansaço contido no olhar.
— Você precisa ir — insistiu.
— E você precisa parar de vir — devolveu ele.
Os olhos dela brilharam à luz da lua.
— Eu tentei.
Liam deu mais um passo à frente, parando perigosamente perto. O cheiro dele a envolveu de imediato, despertando algo primal, impossível de ignorar.
— Ell a… — ele começou, mas parou, respirando fundo. — Você não percebe o que isso faz com a gente?
Ela levantou o rosto, os olhos firmes.
— Eu percebo. Todos percebem.
Por um instante, o mundo pareceu se resumir àquele espaço mínimo entre eles. O desejo não dito, o perigo iminente, a impossibilidade de recuar sem perder algo essencial.
Liam ergueu a mão, parando a poucos centímetros do rosto dela. Não tocou.
— Se continuarmos assim — disse ele —, alguém vai nos ver.
— Já estão vendo — respondeu Ella em um sussurro.
Ele abaixou a mão lentamente.
— Então essa é a última vez — afirmou. — Pelo menos por agora.
Ella sentiu o peito apertar.
— Você sempre diz isso.
— Porque quero acreditar — respondeu ele.
Eles se afastaram um do outro, cada passo custando mais do que deveria. Antes de desaparecer entre as árvores, Liam lançou um último olhar para ela — intenso, carregado de promessas não feitas.
Ella ficou sozinha na clareira, sentindo os olhares invisíveis da floresta sobre si.
Não eram apenas os deles agora.