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CAPÍTULO 4 — O CHEIRO QUE NÃO DEVERIA EXISTIR

Ella percebeu antes que qualquer outro lobo pudesse nomear.

Não foi um comentário. Nem um olhar direto. Foi o silêncio breve demais quando ela passou pelo centro da alcateia ao amanhecer. Foi a pausa mínima nos movimentos, o ar que pareceu se rearranjar ao redor dela, como se algo invisível tivesse mudado de lugar durante a noite.

O cheiro.

Ela sentiu o próprio corpo reagir ao pensar nisso, como se a memória ainda estivesse fresca demais. Não era apenas o aroma de um lobo estranho — era a mistura. A sobreposição perigosa entre o que ela era e o que não deveria tocar.

Ella respirou fundo, mantendo o rosto sereno. Controle. Sempre controle.

— Treinamento — anunciou um dos sentinelas, quebrando o silêncio. — O alfa quer todos presentes.

Ela assentiu e seguiu adiante, consciente de cada passo, de cada respiração. O treino sempre fora um lugar seguro. Movimento, foco, disciplina. Ali, ela conseguia silenciar o mundo.

Mas naquela manhã, o mundo parecia atento demais a ela.

Durante o aquecimento, Ella sentiu olhares demorarem mais do que o normal. Não acusatórios. Avaliadores. Como se a alcateia tentasse entender o que ainda não tinha forma suficiente para ser dito.

— Você está distraída — murmurou Kael, um dos guerreiros mais antigos, aproximando-se enquanto ajustava as luvas. — Isso não é comum.

Ella forçou um meio sorriso.

— Apenas cansaço.

Kael a observou por um segundo a mais, o nariz se contraindo levemente. Ele não disse nada. Mas o olhar dizia o suficiente.

O treino começou. Movimentos rápidos, golpes precisos, respirações controladas. Ella se destacou como sempre — ágil, firme, segura. Ainda assim, havia algo diferente em seu ritmo, uma tensão contida sob a pele, como se estivesse lutando contra um inimigo invisível.

Quando o treino terminou, o alfa a chamou com um gesto curto.

— Venha — disse.

Ella obedeceu, sentindo o estômago apertar.

Eles se afastaram alguns metros, longe dos outros. O pai cruzou os braços, o olhar sério, atento a detalhes que poucos notavam.

— Você cruzou os limites novamente — afirmou.

Não foi uma pergunta.

Ella manteve a postura ereta.

— Eu caminhei perto da clareira.

— Sozinha. À noite. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Houve relatos de um cheiro estranho naquela área.

O coração de Ella deu um salto contido, mas seu rosto permaneceu inalterado.

— A floresta recebe forasteiros o tempo todo — respondeu. — Nem todos cruzam o território.

O alfa a estudou por longos segundos.

— Não era um cheiro qualquer — disse por fim. — Era recente. Forte. E… próximo demais do seu.

As palavras caíram como um aviso claro.

— Eu não permitirei que imprudências coloquem a alcateia em risco — continuou ele. — Muito menos você.

Ella assentiu lentamente.

— Entendo.

— Espero que sim.

O alfa se afastou, deixando para trás um silêncio pesado. Ella ficou ali por um momento, sentindo o peso do que quase fora dito. Eles sabiam. Talvez não o quê. Mas sabiam que algo estava fora do lugar.

E o cheiro não desapareceria tão cedo.

---

Do outro lado da floresta, Liam se movia com cautela.

Ele mantinha distância do território principal, mas não o suficiente para não sentir. O vento carregava marcas novas, reforçadas. A alcateia estava alerta. Caçando sinais. Caçando ele.

— Eu devia ir embora — murmurou, embora o corpo se recusasse a obedecer.

O cheiro de Ella ainda estava ali, como uma trilha impossível de ignorar. Não era apenas atração. Era reconhecimento. Um tipo de vínculo que ele aprendera a temer.

Liam se agachou próximo a um tronco caído, fechando os olhos por um instante. A memória da noite anterior retornou com força — a proximidade, a honestidade crua, a contenção que quase se rompera.

— Filha do alfa — sussurrou.

Era a pior combinação possível.

Ele se levantou, decidido a se afastar de vez, quando sentiu algo diferente. Outro cheiro. Mais agressivo. Menos curioso. Patrulha.

Liam se moveu rápido, desaparecendo entre as árvores, silencioso como sombra. Observou de longe dois lobos da alcateia passando pela trilha próxima à clareira, atentos, farejando o ar.

— Ele esteve aqui — disse um deles.

— Recentemente — confirmou o outro.

Liam cerrou o maxilar. O tempo estava se esgotando.

---

Ella tentou passar o restante do dia como sempre fizera. Conversou com as mulheres da alcateia, ouviu histórias antigas, ajudou na organização das provisões. Sorriu quando esperado. Respondeu quando chamada.

Por dentro, tudo gritava.

Ao cair da noite, ela se recolheu cedo, trancando a porta da cabana. Precisava de silêncio. Precisava pensar. Sentou-se à beira da cama e respirou fundo, tentando organizar os próprios pensamentos.

Era simples, disse a si mesma. Bastava não ir. Bastava obedecer. Bastava esquecer.

Mas quando a lua surgiu novamente, clara e insistente, algo dentro dela se rompeu.

Ella fechou os olhos, sentindo o lobo interior se agitar, inquieto. O cheiro dele voltou à memória com uma força quase física.

— Pare — sussurrou.

Mas seu corpo já se levantava.

Ela saiu da cabana sem fazer ruído, desviando das trilhas mais vigiadas, seguindo caminhos antigos que aprendera quando ainda era criança. O coração batia forte, não de medo — de expectativa.

Quando chegou à clareira, a lua já estava alta.

Liam estava lá.

Ele surgiu das sombras como se nunca tivesse saído, o olhar atento, o corpo tenso. Por um instante, nenhum dos dois falou. O silêncio entre eles estava carregado demais para palavras simples.

— Estão te procurando — disse Ella por fim.

— Eu sei — respondeu ele. — Sinto isso no ar.

Ela se aproximou alguns passos, parando a uma distância segura.

— O cheiro… — começou, hesitando. — Eles notaram.

Liam assentiu lentamente.

— E você?

Ella engoliu em seco.

— Eu também.

O olhar dele suavizou por um segundo, mas havia preocupação ali.

— Isso precisa acabar — disse ele novamente, com mais firmeza. — Antes que seja tarde demais.

— E se já for? — ela perguntou.

A pergunta pairou entre eles, perigosa.

Liam deu um passo à frente, o suficiente para que seus cheiros se misturassem novamente. O efeito foi imediato. O lobo dentro dele se agitou, exigente. Ella sentiu o arrepio percorrer-lhe a pele.

— Então alguém vai se machucar — respondeu ele, a voz baixa.

Ella levantou o olhar, firme.

— Eu não sou fraca.

— Eu sei — disse Liam. — É isso que me assusta.

Eles permaneceram ali por longos segundos, presos naquele limite invisível. Não se tocaram. Não se afastaram. A lua os observava, silenciosa e cúmplice.

— Se continuarmos — disse Ella —, não será apenas proibido.

— Será guerra — completou Liam.

Ela assentiu lentamente.

— Mesmo assim… — começou.

Liam ergueu a mão, interrompendo-a, mas não tocou.

— Pense — disse ele. — Pela primeira vez, pense no que você quer. Não no que esperam de você.

Ele recuou um passo.

— Eu vou me afastar por enquanto — continuou. — Mas a lua… — Ele olhou para o céu. — A lua sempre cobra.

Sem esperar resposta, Liam desapareceu entre as árvores.

Sozinha na clareira, Ella fechou os olhos, sentindo o cheiro que ainda insistia em permanecer. Agora, ela sabia. Não era apenas desejo. Era escolha.

E escolhas tinham consequências.

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