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CAPÍTULO 6 — A FLORESTA COMO REFÚGIO

A floresta nunca fora apenas um pedaço de território para Ella — era o único lugar onde ela podia respirar longe dos olhos atentos da alcateia. Ali, cada árvore parecia guardar segredos antigos, cada sombra parecia sussurrar caminhos que ela gostaria de seguir. Naquele espaço, onde a luz filtrada pelas copas dava a impressão de que o tempo desacelerava, ela encontrava a liberdade que lhe faltava entre muros e regras rígidas.

E naquela manhã, ela seguia um deles.

O ar estava frio o suficiente para fazer sua pele arrepiar, mas não era o clima que provocava o turbilhão dentro dela. Era outra coisa. Algo mais instintivo, mais profundo, mais proibido. Ella caminhava entre as folhas que ainda guardavam orvalho, sentindo cada som pulsar dentro de si — o farfalhar distante, o canto tímido dos pássaros, o estalar de gravetos sob seus próprios passos.

O cheiro dele ainda estava ali.

Não tão evidente como na noite em que se encontraram, mas suficiente para provocar um arrepio quente em sua nuca. Era um cheiro inconfundível, quente, selvagem, perigoso. Ele grudava nela de um jeito que nenhum perfume da alcateia jamais fizera.

Liam.

Seu nome soava como uma transgressão cada vez que ela permitia que surgisse em sua mente. E mesmo assim, era inevitável. O coração de Ella batia forte demais, como se a floresta inteira pudesse escutá-lo denunciar aquilo que ela não dizia em voz alta. Não sabia por que aquilo a atraía tanto. Não fazia sentido. Ele era um lobo solitário. Um problema ambulante. Uma ameaça às regras que ela tinha sido criada para seguir.

Mas também era o único que fazia sua pele reagir como se finalmente tivesse acordado. Como se tivesse encontrado algo que sempre faltou, mesmo antes de ela saber que faltava.

Ella parou perto do lago. O reflexo da água tremulava com o vento, distorcendo sua própria imagem, como se espelhasse a confusão que ela tentava esconder. A superfície prateada parecia quase viva, ondulando como um coração que não sabia se queria acelerar ou parar.

Por um instante ela imaginou que talvez fosse apenas uma loucura dela — talvez Liam não tivesse voltado. Talvez aquele cheiro fosse apenas memória. Talvez ela estivesse desejando demais algo que não deveria desejar.

Até que ouviu passos.

Firmes.

Silenciosos.

Perigosamente familiares.

Ella virou-se rápido, o coração subindo até a garganta, cada fibra do corpo pronta para travar ou correr — ela ainda não sabia qual das duas opções seria mais segura.

Liam emergiu das sombras como se fizesse parte delas. Ele não caminhava pela floresta; ele fluía, como se o ambiente o reconhecesse, como se as sombras se abrissem para deixá-lo passar. O olhar dourado pousou nela antes mesmo de ele dizer qualquer coisa.

E bastou isso.

— Você me seguiu — ele disse, baixo, rouco, como se a voz dele tivesse sido moldada pela madrugada e pelo pecado.

Ella sentiu algo apertar dentro do peito, mas ergueu o queixo, tentando parecer firme.

— E você não devia estar aqui — ela rebateu, tentando parecer firme.

Liam riu com o canto da boca. Não era uma risada leve — era um aviso. Um tipo de provocação que não buscava humor, mas controle.

— Nem você, princesinha da Lua Alta.

Ella sentiu o rosto esquentar.

— Não me chama assim.

— Por quê? — Ele deu um passo na direção dela. — Faz você lembrar do que espera que você seja?

Ella engoliu seco.

As palavras acertaram exatamente onde ela era mais frágil.

A floresta parecia prender o ar. Era como se as folhas tivessem parado de se mover, como se a natureza reconhecesse que havia algo prestes a acontecer.

— Eu só vim… — ela começou, tentando organizar pensamentos que simplesmente não queriam se alinhar.

— Me procurar? — Liam completou.

Ella não negou.

Não conseguiria. Nem se tentasse.

As distâncias sempre pareceram menores entre eles, mas naquela manhã… ele a diminuía ainda mais. Liam se aproximou com passos lentos, a ponto de o cheiro quente dele misturar com o dela. Era errado. Idiota. Perigoso.

E totalmente inevitável.

Ella sentiu cada batida do próprio coração ecoar em seus ouvidos, como se o som se amplificasse entre as árvores. Era uma reação que ela não controlava — uma mistura visceral de medo e atração, de perigo e desejo.

— A floresta é o único lugar onde eu não preciso ser perfeita — ela admitiu, sem conseguir esconder o que realmente sentia. A voz dela saiu mais baixa do que planejou, como se estivesse confessando um segredo que não deveria ter nome.

Liam inclinou a cabeça, estudando cada detalhe dela com olhos que não pediam permissão para ver.

— A floresta é o único lugar onde você pode ser você… ou onde você pode ser minha?

A frase caiu entre eles como um trovão abafado.

Ella ficou sem ar. Literalmente. O peito dela tentou expandir, mas algo — ou ele — a impediu.

Um segundo a mais e ela teria respondido algo que não poderia voltar atrás. Algo que mudaria tudo.

Mas Liam desviou o olhar antes — não por falta de vontade, mas por medo da própria vontade. A tensão que passou pelo corpo dele não era sutileza; era luta interna. Ele parecia estar segurando algo com as próprias garras.

— Vai embora, Ella — ele murmurou. — Antes que eu faça uma merda.

A forma como ele disse aquilo não era um aviso comum. Era um pedido, quase um lamento. Era um eu não confio em mim mesmo perto de você.

Ella queria perguntar que tipo de merda.

Mas, pela forma como ele a olhava… ela já sabia. Era um olhar que queimava, que puxava, que dizia tudo o que ele ainda achava que não podia dizer.

Ela deu um passo para trás.

E ele não a impediu.

Não tocou nela.

Mas o corpo dele tensionou, como se cada músculo gritasse para fazer exatamente o contrário.

O brilho nos olhos dele dizia tudo:

A floresta deixaria de ser apenas um refúgio.

Estava virando um território deles.

E, no fundo, os dois sabiam que aquilo era só o começo.

As folhas balançaram quando Ella recuou mais um passo, mas nada parecia abafado o suficiente para disfarçar o que se formava ali. Algo novo. Algo proibido. Algo inevitavelmente perigoso.

Ella respirou fundo, mantendo o olhar preso ao dele, como se temesse que, ao piscar, ele desaparecesse. E talvez desaparecesse mesmo — ele era feito disso, de sombras e decisões ruins. Mas também era feito de uma intensidade que ela nunca sentira antes.

Ela não disse adeus.

Ele não pediu para que ela ficasse.

Mas a troca silenciosa entre eles disse muito mais do que qualquer palavra teria dito.

Quando Ella finalmente virou o corpo para ir, a floresta pareceu abrir caminho para ela, mas não era libertação — era promessa.

Atrás dela, Ella sentiu o olhar dele queimando sua nuca.

E soube, com absoluta clareza, que Liam não iria embora.

Não de verdade.

Não dela.

E que, mais cedo ou mais tarde, um dos dois cruzaria essa linha primeiro.

Ou talvez fossem os dois, ao mesmo tempo.

Porque ali, naquela floresta, onde segredos nasciam e regras morriam, algo já estava feito:

O refúgio agora tinha dono.

Ou melhor — dois.

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