Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: Clara Martins
“Existem pessoas que parecem perigosas. E existem aquelas que fazem seu corpo inteiro perceber o perigo antes da sua mente.”
Eu deveria ter ido embora. Qualquer pessoa minimamente sensata teria feito isso. Mas havia alguma coisa em Ethan Vance que tornava impossível pensar com clareza. Talvez fossem os olhos dourados, ou a maneira como ele parecia estar constantemente tentando controlar alguma coisa dentro de si. Ou talvez fosse o fato de que, pela primeira vez naquela noite, alguém parecia genuinamente preocupado comigo, mesmo agindo como um completo lunático.
— Você está me assustando de verdade — falei de forma direta, tentando manter a voz o mais firme possível para não demonstrar o tremor nas minhas mãos.
Falei, tentando manter a voz firme. Os olhos dourados dele permaneceram presos nos meus, intensos demais, como se procurassem alguma resposta escondida dentro de mim. Ao redor, o baile continuava normalmente: música clássica, taças tilintando e pessoas rindo. Mas perto de Ethan tudo parecia diferente, pesado, como se o ar tivesse ficado mais denso.
— Clara, você precisa confiar em mim e sair deste salão — murmurou ele novamente, aproximando o rosto em um sussurro urgente.
Soltei uma pequena risada nervosa, balançando a cabeça de forma incrédula.
— Você continua repetindo que eu corro perigo sem se dar ao trabalho de explicar absolutamente nada para mim — rebati, sustentando o olhar dele.
Por um instante, algo parecido com conflito atravessou o rosto de Ethan, como se ele estivesse tentando decidir até onde podia falar. Então, o homem elegante surgiu ao meu lado outra vez.
— Talvez seja porque certas explicações reais sejam difíceis demais de acreditar para mentes puramente humanas — intrometeu-se Julian, exibindo um sorriso de lado.
A voz calma dele fez um arrepio incomodo percorrer a minha nuca. Olhei para ele com desconfiança renovada. Julian continuava elegante demais para parecer real, impecável e controlado. Mas quanto mais tempo eu passava perto dele, mais desconfortável me sentia. Havia algo errado na maneira como ele sorria, algo frio, artificial, como se estivesse imitando emoções humanas em vez de realmente senti-las. Ethan também parecia perceber; a tensão entre os dois era quase visível.
— Você está incomodando ela com os seus jogos, Julian — falou Ethan friamente, e sua voz saiu em um tom impositivo de comando.
O rival ergueu uma sobrancelha elegante, desfrutando da clara perda de controle de Ethan.
— Engraçado você pontuar isso, Ethan. Tenho a forte impressão de que sou o menos intimidador entre nós dois neste exato momento — provocou Julian com o olhar brilhando em vermelho.
O maxilar de Ethan travou imediatamente. Meu olhar passou de um para o outro. Aquela definitivamente não parecia uma discussão normal. Existia história ali, ódio, algo antigo. Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, uma mulher passou apressada perto de nós e esbarrou no meu ombro. A taça escapou dos meus dedos. O vidro caiu no chão e se partiu com um estalo alto.
— Droga — resmunguei, olhando para os cacos espalhados.
Me abaixei automaticamente para pegar os cacos. Então senti a mão de Ethan segurando meu pulso. Quente, quente demais. Meu corpo inteiro reagiu de forma instantânea ao toque físico dele; a minha respiração falhou por um segundo e um calor subiu pelo meu braço.
— Não toca nisso de jeito nenhum — ordenou ele de forma baixa e rouca, mantendo o aperto firme no meu pulso.
Franzi a testa, tentando puxar meu braço de volta.
— São só cacos de vidro, Ethan. Me solta — pedi, lutando contra a força dele.
Mas Ethan continuava segurando meu pulso com firmeza, com os olhos dourados fixos na pequena gota de sangue surgindo na ponta do meu dedo indicador. O salão inteiro pareceu mergulhar em um silêncio absoluto de repente. Ele ficou totalmente imóvel, completamente imóvel diante da pequena ferida. Então percebi algo estranho: a respiração dele mudou de ritmo, tornando-se mais pesada, mais lenta e compassada, como se estivesse travando uma batalha interna para controlar alguma reação física. Meu coração começou a acelerar.
— Ethan…? — chamei de forma nervosa, encarando suas pupilas.
Ele piscou lentamente antes de soltar meu braço de forma abrupta e violenta, dando meio passo para trás como se o próprio toque da minha pele o tivesse queimado.
— Você está ferida — constatou ele com a voz rouca devido ao esforço de autocontrole.
Olhei para meu dedo, minimizando o pequeno corte.
— Eu vou sobreviver a isso, não foi nada — respondi, tentando parecer firme.
Julian soltou uma risada baixa atrás de nós. Quando me virei para ele, seus olhos estavam presos na gota de sangue, e pela primeira vez desde que o conheci o sorriso elegante desapareceu. Aquilo me assustou de verdade, porque por um segundo Julian pareceu faminto. A palavra surgiu na minha mente tão rápida que me senti idiota imediatamente. Faminto? O que diabos estava acontecendo comigo?
Antes que eu pudesse entender qualquer coisa, Ethan se colocou discretamente na minha frente, bloqueando Julian da minha visão. Protetor e possessivo. Aquilo deveria me irritar, mas estranhamente me fez sentir segura. O grande problema era que eu não entendia o motivo daquela confiança irracional.
— Clara, vá até o banheiro e lave esse corte imediatamente — ordenou Ethan, sem olhar para trás.
— Você está falando perfeitamente sério por causa disso? — confrontei, cruzando os braços.
— Sim — respondeu ele de pronto, mantendo o tom firme.
A resposta veio rápida demais. Meu olhar alternou entre os dois homens. Julian havia recuperado a compostura novamente, mas agora eu conseguia perceber algo sombrio escondido por trás da aparência impecável, algo perigoso, muito perigoso. Engoli em seco.
— Certo… eu já volto — cedi, afastando-me dos dois.
Me afastei lentamente deles, sentindo o peso do olhar de Ethan me acompanhando pelo salão inteiro. Meu coração ainda estava acelerado. Entrei no banheiro feminino e apoiei as mãos na pia de mármore. Respira. Eu estava claramente cansada demais, era a única explicação lógica, porque nada naquela noite fazia sentido. Primeiro a mensagem anônima, depois Ethan, agora aquele comportamento completamente absurdo por causa de um corte ridículo no meu dedo.
Abri a torneira e lavei o pequeno ferimento. Mas enquanto observava a água escorrendo pela pele, uma lembrança atravessou minha mente: os olhos de Ethan brilhando. Não como reflexo de luz, brilhando de verdade. Fechei os olhos imediatamente. Não, impossível. Eu devia estar imaginando coisas. Quando levantei a cabeça novamente, quase levei um susto. Uma mulher me observava pelo espelho atrás de mim. Ela era alta, elegante e vestida de preto. Os cabelos escuros caíam em ondas suaves sobre os ombros, e os olhos azul-acinzentados eram intensos demais para serem confortáveis. Ela parecia mais velha que eu, talvez trinta e poucos anos, bonita de um jeito estranho, como tempestade antes da chuva.
— Ethan Vance raramente perde o controle daquela maneira em público — comentou a desconhecida, olhando fixamente para o meu reflexo no espelho.
Meu estômago apertou instantaneamente com a menção ao nome dele. Me virei devagar, encarando a mulher de frente.
— Desculpa… por acaso você me conhece? — indaguei com surpresa na voz.
A mulher sorriu discretamente, mantendo a postura impecável.
— Não pessoalmente, senhorita Martins — respondeu ela, afastando-se do espelho.
A voz dela era perfeitamente suave, mas milimetricamente calculada em cada sílaba.
— Mas eu conheço muito bem homens da natureza dele — continuou ela, analisando minhas reações com precisão cirúrgica.
Cruzei os braços instintivamente, assumindo minha postura de jornalista investigativa defensiva.
— E o que exatamente isso significa no seu vocabulário? — perguntei, sustentando o olhar azul dela.
Ela inclinou levemente a cabeça para o lado, como se estivesse me decifrando passo a passo na penumbra do banheiro.
— Significa que você deveria tomar o máximo de cuidado possível a partir de agora — alertou ela em um tom de aviso sombrio.
Ótimo, pensei comigo mesma de forma irônica. Mais uma pessoa misteriosa e cheia de segredos me dizendo para tomar cuidado sem se dar ao trabalho de explicar porcaria nenhuma sobre o perigo.
— Vocês por acaso ensaiaram esse discurso de mistério juntos antes de entrarem no baile? — perguntei irritada, firmando os passos.
Para a minha total surpresa, ela soltou uma risada baixa, contida e genuína, desarmando a tensão por um breve segundo.
— Não, nós não ensaiamos. Mas talvez devêssemos criar um roteiro para os humanos — divertiu-se ela com o comentário.
Observei a mulher por alguns segundos. Algo nela parecia diferente dos outros convidados: mais alerta, mais perigoso. Mas, ao contrário de Julian, ela não me assustava completamente.
— Quem é você de verdade? — perguntei de forma direta, exigindo fatos.
Ela hesitou por um breve instante, medindo as consequências, antes de dar sua resposta na penumbra.
— Meu nome é Maya — apresentou-se ela de forma seca.
Só aquilo. Maya. Nenhum sobrenome foi pronunciado e nenhuma explicação extra foi dada para a minha mente. Perfeito.
— Clara — me apresentei em resposta, sustentando o contato visual.
Os olhos dela escureceram discretamente ao ouvir meu nome. Aquilo foi rápido, mas eu percebi. Todo mundo naquela noite reagia de forma estranha ao meu nome, e eu estava começando a odiar isso. A mulher se aproximou lentamente da pia ao meu lado. Então, olhou diretamente para meu reflexo no espelho.
— Você realmente não faz a menor ideia do que está acontecendo ao seu redor neste exato momento, não é, Clara? — indagou Maya, olhando fixamente para as minhas pupilas.
Meu coração desacelerou. Porque pela primeira vez em toda aquela noite insana, alguém parecia genuinamente preocupada com a minha segurança.







