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Capítulo 5 — Ecos Sob a Pele

POV: Ethan Vance

“O perigo não começa quando monstros mostram os dentes. Começa quando eles encontram algo que não conseguem abandonar.”

Assim que Clara desapareceu pelo corredor do salão, Kaos começou a rosnar dentro da minha mente.

"Companheira assustada."

Ignorei o comentário e mantive os olhos presos em Julian. O vampiro continuava perfeitamente imóvel, segurando a taça de vinho como se nada tivesse acontecido. Mas eu conhecia Julian há tempo suficiente para enxergar os sinais: a rigidez discreta nos ombros, os olhos vermelhos escurecidos e a atenção excessiva. Ele estava interessado nela. Aquilo era um problema, um problema enorme.

— Você parece excessivamente tenso nesta noite, Ethan — comentou Julian calmamente, quebrando o silêncio com sua voz mansa e gélida.

Minha mandíbula travou sob a pele, os músculos se contraindo feito pedra.

— O que exatamente o seu instinto de predador percebeu aqui, Julian? — indaguei, encarando o meu rival de forma direta e hostil.

O sorriso dele aumentou apenas o suficiente para me irritar ainda mais.

— Então é verdade. O grande Alfa encontrou sua parceira — provocou o vampiro, e o tom de sua voz indicava que ele havia decifrado o enigma do laço de companheiros.

Droga. Kaos avançou com fúria dentro da minha mente imediatamente, arranhando a barreira da minha consciência com suas garras.

"Livre-se do vampiro agora."

Respirei fundo lentamente, forçando o oxigênio a entrar nos meus pulmões para manter o controle. A última coisa que precisávamos naquele momento era começar uma guerra entre raças no meio de território estritamente neutro e quebrar o Tratado das Sombras.

— Cuidado com as palavras que vai escolher dizer em seguida — avisei, falando baixo e mantendo o tom perigosamente cortante.

O oponente inclinou levemente a cabeça em uma reverência cínica, totalmente desprovido de qualquer temor.

— Ah, meu caro Ethan, eu sou um sobrevivente meticulosamente cuidadoso há séculos — rebateu Julian, mantendo o deboche.

Os olhos vermelhos dele deslizaram de forma rápida e predatória na direção do corredor por onde Clara havia saído.

— Mas admito de bom grado que isso que testemunhei aqui é… inteiramente inesperado.

Meu corpo inteiro ficou rígido. O reconhecimento de companheiros já era um evento extremamente raro entre Lycans nas últimas gerações. Mas acontecer entre um Lycan e uma humana? Aquilo deveria ser impossível e desafiava as leis da natureza. E mesmo assim Kaos a reconheceu no instante em que viu Clara pela primeira vez.

"Companheira."

Meu peito apertou novamente ao lembrar; a palavra ainda soava como um absurdo completo dentro da minha própria mente. O aristocrata girou lentamente a taça entre os dedos pálidos, saboreando o aroma do vinho.

— O conselho vai adorar receber um relatório detalhado sobre essa sua pequena fraqueza mortal — comentou Julian, com um brilho calculista no olhar.

Meu olhar dourado encontrou as pupilas vermelhas dele imediatamente, emitindo uma promessa fria, perigosa e letal de violência.

— Você não vai ousar contar isso a absolutamente ninguém, McCord — ameacei, dando meio passo à frente para encurtar a distância de forma intimidadora.

Ele soltou uma risada baixa e contida, desdenhando da minha imposição.

— Ethan… você realmente possui a ingenuidade de acreditar que consegue esconder algo dessa magnitude por muito tempo? — indagou Julian de forma cínica.

Eu sabia que talvez não conseguiria manter o segredo por muito tempo. Os sentidos sobrenaturais das outras raças já começariam a perceber mudanças instintivas rápido demais no meu comportamento, na forma possessiva como eu observava Clara e na maneira como meu instinto reagia perto dela. Kaos estava praticamente enlouquecido.

"Proteja ela dos sanguessugas."

Eu já tinha entendido urgência, mas o problema era que proteger Clara significava mergulhá-la de cabeça diretamente em um mundo monstros e guerras ancestrais que ela nem imaginava existir. E revelar aquela realidade provavelmente destruiria qualquer chance de ela continuar viva normalmente.

— Ela é apenas uma humana comum. Ela não sabe de nada sobre nós — defendi Clara, tentando afastar o foco do vampiro.

O inimigo ergueu uma sobrancelha elegante, mantendo o tom enigmático.

— Ainda não sabe, Ethan. Mas saberá — rebateu Julian com frieza.

Meu maxilar travou novamente. O vampiro deu um passo lento e audacioso na minha direção, diminuindo o espaço pessoal.

— Você sabe perfeitamente o que vai acontecer no mundo sobrenatural quando os outros líderes descobrirem a existência dela — relembrou Julian, adotando uma seriedade gélida.

Sim, eu sabia perfeitamente as consequências devastadoras daquele fato. Os Lycans mais antigos e conservadores enxergariam Clara como uma ameaça imediata à pureza das linhagens. Os lobos comuns poderiam interpretar aquilo como sinal de fraqueza e mudança abrupta na hierarquia. E os vampiros… os vampiros sempre desejavam aquilo que não podiam ter, principalmente Julian. Kaos rosnou violentamente.

"Perigo iminente."

Eu sentia a ameaça também na pele; a obsessão daquele sanguessuga começava cedo demais para o meu gosto.

— Fique longe dela se quiser manter a sua cabeça sobre os ombros, Julian — avisei de forma firme, trancando o olhar dele.

O rival sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos vermelhos e famintos.

— Acho que você está confundindo um mero interesse com uma ameaça de caça, Alfa — comentou Julian calmamente.

— Eu nunca confundo você com nada além de uma ameaça letal à minha alcateia — respondi direto, mantendo a postura de combate.

Por um breve instante, o salão pareceu pequeno demais e pesado demais para conter as duas energias. O oponente sustentou meu olhar por alguns segundos antes de rir baixo, quebrando o impasse.

— Impressionante… o grande e implacável Alfa Ethan Vance finalmente encontrou algo no mundo capaz de fazê-lo perder o controle absoluto — debochou o vampiro, ajeitando o terno.

Eu odiava o fato de ele estar certo, porque desde o instante em que Clara entrou naquele salão com seu vestido preto, meu autocontrole vinha se despedaçando lentamente. Kaos estava mais forte, mais presente e consideravelmente mais instintivo na superfície da minha mente. Tudo em mim reagia de forma involuntária a ela: o cheiro de lavanda com notas de pêssego, a voz desafiadora, o toque quente. Principalmente o toque. Eu ainda conseguia sentir perfeitamente o calor da pele dela na minha mão.

"Companheira."

Fechei os olhos por um breve segundo, lutando contra meu lycan. Maldição, pensei comigo mesmo, aquele laço estava se fortalecendo rápido demais.

Então senti a presença familiar antes mesmo do cheiro. Luke. Meu irmão mais novo surgiu perto da entrada principal do salão usando um terno escuro claramente escolhido sem nenhuma vontade. Os cabelos negros estavam levemente bagunçados, e a expressão irritada denunciava exatamente o quanto ele odiava eventos da alta sociedade. Os olhos dele encontraram os meus imediatamente e, então, estreitaram-se de forma drástica. Luke percebeu. Droga. Lobos reconheciam mudanças instintivas rápido demais dentro da própria alcateia ou matilha, principalmente entre irmãos. Kaos ficou alerta instantaneamente.

"Não confiar segredos ao filhote."

O recém-chegado se aproximou lentamente, quebrando a distância. Seus olhos castanho-claro dourados passaram rapidamente por Julian antes de voltarem para mim.

— O que aconteceu aqui, Ethan? — perguntou Luke falando baixo, capturando a eletricidade estática entre nós.

— Absolutamente nada — respondi seco, tentando encerrar o assunto.

Ele soltou uma risada ríspida e sem qualquer vestígio de humor real.

— Você sempre utiliza esse tom monótono e defensivo quando está prestes a avançar e arrancar a cabeça de alguém. — Rebateu ele, conhecendo meus hábitos.

Julian parecia se divertir absurdamente com a situação; claro que parecia, afinal, o vampiro adorava assistir conflitos internos da nossa espécie para mapear nossas fraquezas. O recém-chegado observou o corredor por onde Clara havia desaparecido minutos atrás. Então me olhou fixamente para os meus olhos castanho-claro dourados e finalmente entendeu. O choque atravessou o rosto do meu irmão tão rápido que quase passou despercebido. Quase, mas eu vi.

"Companheira, Ethan? Uma humana?"

A voz dele atravessou nossa ligação mental imediatamente. Fechei os olhos por um segundo. Merda. O lobo deu um passo para trás, confuso, incrédulo e assustado.

— Ethan… ela é uma humana comum — sussurrou Luke em meio ao choque.

Como se eu já não soubesse daquele terrível detalhe. Kaos rosnou novamente com força dentro da minha cabeça, reivindicando a posse.

"Companheira nossa. Proteger."

Meu irmão passou a mão pelo rosto lentamente, tentando processar o peso daquela informação.

— Isso simplesmente não é possível dentro das leis do nosso mundo — murmurou Luke, sem acreditar nos próprios sentidos.

Julian tomou um gole tranquilo e pausado de seu vinho tinto na penumbra, saboreando a ironia do momento.

— Essa parece ser a frase da noite, jovem lobo — divertiu-se Julian, mantendo o tom provocativo.

Ignorei o vampiro e meu foco permaneceu no meu irmão. Luke conhecia as regras tão bem quanto eu: a reação das alcateias tradicionais, da coroa, do caos político e o que aquilo significava.

— Ninguém fora deste círculo pode saber disso ainda, Luke. É uma ordem — falei com o meu irmão, mantendo a voz baixa, impositiva e carregada de autoridade Alfa.

Luke me encarou em absoluto silêncio por alguns segundos, medindo os riscos. Então, soltou uma risada nervosa, balançando a cabeça.

— Você realmente acha que vai conseguir esconder um vínculo desse tamanho por muito tempo das outras alcateias e matilhas, Ethan? — desafiou ele.

Luke me encarou em silêncio por alguns segundos. Então soltou uma risada nervosa.

Provavelmente não, mas precisava tentar. Porque no instante em que Clara fosse oficialmente ligada a mim, ela deixaria de ser apenas humana aos olhos do mundo sobrenatural e se tornaria alvo de vampiros, de Lycans e de criaturas muito piores.

Então senti novamente a presença dela. Meu corpo inteiro reagiu instantaneamente. Kaos ficou alerta.

"Companheira voltando para nós."

Levantei os olhos exatamente no momento em que Clara reapareceu na entrada do salão e, pela primeira vez em muitos anos de liderança e batalhas, o ar simplesmente desapareceu dos meus pulmões de forma avassaladora

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