Capítulo 4
Ao ouvir a menção de bebida, a reação de Lorena foi imediata e protetora.

— De jeito nenhum! A Adriana não está se sentindo bem, ela não pode beber. — Interveio Lorena, com a voz carregada de urgência.

A lembrança da última vez em que Adriana teve um coma alcoólico ainda assombrava Lorena, que a acompanhava naquela fatídica reunião de negócios. O médico era categórico ao afirmar que, se tivessem demorado um pouco mais para chegar ao hospital, Adriana não teria sobrevivido, pois o trauma daquela noite permanecia vivo na memória de Lorena, e ela não permitiria que a amiga corresse esse risco novamente.

Renato, no entanto, não gostou da interferência e retrucou com um sorriso de escárnio:

— Você está subestimando a Adriana, não acha? Todo mundo sabe que a resistência dela é lendária! Quando ela foi para o norte fechar negócios com o António, aguentou duas rodadas numa mesa com vinte pessoas e saiu ilesa. E agora vai me dizer que três taças são demais? — Ele fez uma pausa dramática, olhando ao redor. — Isso é o quê? Escolha de quem merece o brinde ou uma desfeita com a Luciana?

Tentando suavizar o clima pesado que se instalava, Luciana interveio com um tom conciliador, embora superficial:

— Renato, não seja assim. A Adriana é uma moça delicada, não vamos pressioná-la.

— Eu? Pressionando? Onde foi que fiz isso? — Defendeu-se Renato, virando-se para buscar validação. — António, diga honestamente, você acha que estou sendo irracional?

António ergueu os olhos, lançando um olhar indecifrável que deslizou pelo rosto pálido de Adriana. Com um curvar de lábios gelado e indiferente, ele sentenciou:

— Não.

A resposta alimentou a arrogância de Renato, que estufou o peito.

— Viu só? Até o António concorda. Você é bondosa demais, Luciana. A Adriana não é assim tão frágil. Ela é uma raposa velha do mundo corporativo, sabe exatamente como jogar para ganhar e evitar prejuízos.

Diante da humilhação, Adriana não se defendeu. Seus olhos se fixaram em António, buscando desesperadamente algum sinal de humanidade, esperando que ele dissesse um simples "chega" ou "esqueçam isso". Era a esperança fútil de um condenado antes da execução, um último pedido silencioso por clemência.

Mas o silêncio de António perdurou, e em seus olhos só havia um vazio gélido.

Naquele instante, a ficha caiu. Foi como se um balde de água gelada, cheia de farpas de gelo, fosse despejado sobre ela, extinguindo a última centelha de esperança que ainda ardia em seu peito. Adriana sorriu, um sorriso distante e vacilante, e se curvou para pegar a taça sobre a mesa.

— Eu que não soube me comportar. Eu bebo. — Disse ela, com uma calma assustadora.

Antigamente, ela usava truques aprendidos em jantares de negócios. Forrava o estômago com leite ou iogurte, bebia pequenos goles. Graças a essas estratégias, ela sempre saía vitoriosa. Mas naquele momento, nenhuma técnica importava. Ela apenas virou o líquido goela abaixo. Uma, duas, três taças.

O vinho forte desceu queimando, irritando seu nariz e fazendo seu estômago, já sensível e dolorido, contrair-se em espasmos violentos. Mesmo assim, ela manteve a postura e ergueu a taça vazia em direção a ele.

— Terminei. Posso ir agora, Sr. António? — Perguntou Adriana, a voz trêmula, mas firme.

Adriana não soube se António assentiu ou não, pois não esperou pela resposta. Girou nos calcanhares e saiu da sala privada apressadamente.

Seu estômago revirava de forma incontrolável. Trancada no banheiro, enquanto vomitava até sentir que suas entranhas sairiam junto, teve um pensamento amargo: sorte a dela ter tomado remédio para o estômago antes de sair, e não antibióticos, ou o desfecho daquela noite poderia ter sido fatal.

Ninguém nasce com resistência ao álcool. Antes de entrar na Ventura Investimentos, Adriana era alguém que não bebia uma gota sequer. Tudo começou quando António, que possuía alergia severa a álcool, foi pressionado por um cliente difícil que insistia que beber era a única forma de mostrar "sinceridade".

Foi Adriana quem tomou a frente. Naquela primeira vez, sem experiência alguma, ela engasgou logo no primeiro copo. Mas ao lembrar o quanto António lutava por aquela oportunidade, ela forçou o líquido garganta abaixo, ignorando o sabor amargo e a queimação.

Aquele foi o primeiro projeto que ela conquistou para ele. António havia dito que ela era a heroína da Ventura Investimentos e havia prometido que, quando alcançassem o sucesso, dividiriam toda a glória.

Acreditando naquele futuro desenhado a dois, Adriana nunca mais permitiu que ele tocasse em uma gota de álcool. Sempre que havia um brinde, era ela quem estava na linha de frente.

Sua resistência foi forjada assim, taça por taça. Ironicamente, a armadura que ela construiu durante sete anos para protegê-lo se transformou agora na flecha que ele usava para defender outra mulher, acertando Adriana bem no meio da testa.

Doía, mas a dor trazia uma clareza brutal.

Ao sair do Clube Oásis, uma chuva fria de outono caía sem aviso, tornando a noite ainda mais lúgubre. O estômago de Adriana continuava a protestar, e seu rosto não tinha cor alguma. Ela pegou o celular para pedir um carro, mas o motorista de António a avistou e correu até ela, protegendo-se da chuva.

— Srta. Adriana, o jantar já acabou? O Sr. António não vem? Ele não saiu com a senhora? — Indagou o motorista, confuso.

— Ainda não. Acho que vai demorar um pouco. — Respondeu ela, a voz fraca e aérea. Lá dentro, o clima estava animado e António tinha sua musa nos braços. Certamente não teria pressa em sair.

O motorista olhou para a entrada do clube e depois para o estado deplorável de Adriana. Tomando uma decisão rápida, ofereceu:

— Srta. Adriana, deixe que eu a leve para casa primeiro. Está chovendo muito e vai ser difícil conseguir um carro nesse horário.

Adriana não recusou. O mal-estar era tanto que ela não tinha forças para ser orgulhosa. No entanto, o carro mal havia percorrido metade do caminho quando o telefone tocou. Era António, exigindo saber onde o motorista estava.

Quando o homem explicou honestamente que estava levando Adriana para casa porque ela não se sentia bem e achou que o jantar demoraria, a voz de António ressoou fria e cortante pelo viva-voz do carro:

— Você se lembra de quem paga o seu salário?

O motorista estremeceu, visivelmente assustado.

— Estou voltando agora mesmo para buscá-lo, senhor. — Respondeu ele, apressado.

Antes de desligar, a voz de António mudou drasticamente, como gelo derretendo ao sol, perdendo toda a frieza anterior.

— O carro já está chegando. Está frio aí fora, espere lá dentro. — Disse ele, num tom carinhoso.

— Então fica comigo aqui dentro, António... — Ouviu-se a voz doce de Luciana ao fundo, antes da ligação cair.

Adriana não soube o que ele respondeu, pois a linha ficou muda. O silêncio no carro se tornou constrangedor. O motorista olhava para ela pelo retrovisor, o rosto contorcido em desculpas silenciosas.

— Pedro, pode me deixar aqui no acostamento mesmo. Peço um táxi. — Disse Adriana, poupando-o de ter que expulsá-la.

Naquele trecho da estrada não havia onde se abrigar. Sentindo o peso na consciência, Pedro entregou um guarda-chuva para ela antes de dar meia-volta e partir. Talvez o universo tivesse sentido pena dela, pois não demorou muito para que um carro de aplicativo aceitasse a corrida.

Apesar disso, o estrago estava feito. No dia seguinte, Adriana acordou ardendo em febre. Seu corpo, já debilitado pelo pós-aborto recente e pela gastrite, entrou em colapso total, incapaz de resistir à chuva e ao estresse da noite anterior.

Ela tinha uma reunião crucial agendada com Telmo Azevedo, do Grupo Azevedo. Justamente o projeto que António criticava na reunião. Se ela desmarcasse, sabia que António usaria isso para atacá-la com mais sarcasmo e desdém.

Adriana olhou para o termômetro, trinta e oito e meio. Uma temperatura que não matava, mas que tornava a existência miserável. O sensato seria tomar um antitérmico e descansar, mas Telmo era conhecido por ser um "pé de cana" que só gostava de fechar negócios na mesa de bar.

Adriana cerrou os dentes, jogou a cartela de remédios de volta na gaveta e pegou a pasta de documentos. Saiu de casa sem olhar para trás.

...

Adriana mal havia terminado de pedir os pratos e o vinho quando Telmo chegou ao restaurante. Ao ver que a mesa já estava servida com suas preferências exatas, o humor dele melhorou instantaneamente.

— Adriana, você é incrível! Tem certeza de que não quer vir trabalhar para mim e ser minha secretária? O salário é você quem decide! — Exclamou ele, sentando-se com entusiasmo.

— Agradeço muito a generosidade, Sr. Telmo. Mas meu contrato com a Ventura Investimentos ainda está vigente e, por enquanto, não pretendo mudar de ares. — Respondeu ela com seu profissionalismo habitual.

Era sua resposta padrão. Sua competência era notória no mercado, e não faltavam propostas de quem quisesse tirá-la da Ventura. Certa vez, um cliente embriagado tentou recrutá-la na frente de António. Ele não disse nada na hora, mas naquela noite descontou sua possessividade na cama, com uma intensidade quase punitiva. Para acalmá-lo e provar sua lealdade, Adriana acabou assinando um contrato de longo prazo com a empresa.
Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App