Ao ouvir essas palavras, Telmo sentiu uma mistura agridoce de pesar e inveja, suspirando antes de comentar com sinceridade:
— O Sr. António é um homem de sorte. Ter um talento como você ao lado dele explica por que ele construiu um império tão bem-sucedido. É uma pena que eu não tenha tido a mesma oportunidade.
Adriana, mantendo a postura impecável de sempre, sorriu com humildade e respondeu suavemente:
— O senhor me lisonjeia, Sr. Telmo. Mas, comparado ao Sr. António, a sua trajetória de começar do zero e erguer tudo com as próprias mãos é o que realmente desperta a minha admiração.
Embora soubesse que aquelas palavras faziam parte da etiqueta corporativa e do jogo de cintura necessário em jantares de negócios, Telmo não pôde evitar se sentir lisonjeado. O reconhecimento dela, sempre tão oportuno, amaciou seu ego.
— É por isso que gosto de negociar com você, Adriana. Você tem o dom de dizer exatamente o que a gente precisa ouvir para se sentir bem. — Disse ele, rindo, já estendendo a garrafa para servir mais uma dose. — Vamos, este brinde é em sua homenagem.
Rapidamente, Adriana interceptou o gesto com delicadeza, lembrando-se do histórico médico do cliente.
— O seu fígado precisa de descanso, Sr. Telmo. Deixe que eu bebo esta pelo senhor. Eu seco o copo, o senhor fica à vontade.
Telmo sempre preferiu lidar com pessoas diretas e francas, e aquela atitude protetora apenas reforçou o apreço que tinha pela personalidade dela. No entanto, ao vê-la virar a bebida de uma só vez, a preocupação falou mais alto:
— Não se esforce tanto, menina! Esse projeto só assino com você, não adianta mandarem mais ninguém.
— Então já deixo aqui o meu agradecimento, Sr. Telmo! — Exclamou Adriana, servindo-lhe apenas um pouco de água enquanto enchia o próprio copo novamente para manter o protocolo.
Foi naquele momento, sob a luz amarelada do lustre do restaurante, que Telmo notou algo errado. A palidez no rosto dela não era natural, e havia uma tensão sutil em seus ombros.
— Adriana, você está se sentindo bem? — Perguntou ele, franzindo a testa com preocupação genuína. — Sua cor não está boa.
— Não é nada, estou bem. — Garantiu ela, forçando um sorriso para disfarçar o mal-estar que lhe revirava o estômago.
— Tem certeza? Se quiser, posso pedir para o meu motorista te levar ao hospital agora mesmo. — Insistiu ele.
Adriana abriu a boca para recusar mais uma vez, mas foi interrompida por batidas discretas na porta do reservado. Um garçom entrou logo em seguida, equilibrando uma garrafa de vinho luxuosa em uma bandeja de prata.
— Com licença, Sr. Telmo. O Sr. António soube que o senhor estava jantando aqui e pediu para te entregar este vinho como cortesia.
Telmo analisou o rótulo: um Romanée-Conti. Um gesto de extrema generosidade e opulência. Contudo, mais do que o valor da garrafa, o que o intrigou foi a ausência do remetente. Se António também estava no Jardim Dourado, por que não viera jantar com Adriana, seu braço direito?
A dúvida não durou muito. Antes que Telmo pudesse verbalizar a questão, a porta se abriu novamente e António entrou, trazendo Luciana consigo.
— Sr. Telmo, espero que o vinho seja do seu agrado. — Cumprimentou António, com a voz grave e controlada, enquanto seu olhar passava direto por Adriana como se ela fosse parte da mobília.
O homem vestia apenas uma camisa branca impecável, feita sob medida, que realçava sua silhueta esguia e aristocrática. O paletó, no entanto, não estava com ele. O tecido escuro de alta costura repousava sobre os ombros de Luciana, envolvendo-a em uma intimidade indisfarçável, protegendo-a do ar condicionado do ambiente.
A ironia daquela cena era amarga. Adriana se lembrava de ter escolhido aquele casaco pessoalmente para ele, cuidando de cada detalhe, apenas para vê-lo agora aquecendo outra mulher.
— Sendo um presente seu, como eu poderia não gostar? — Respondeu Telmo, levantando-se para cumprimentá-lo, mas seus olhos logo se desviaram para a acompanhante. — E esta bela dama é...?
A pergunta ficou no ar, carregada de subtexto. Um homem oferecer o próprio paletó a uma mulher enviava uma mensagem universal de posse e cuidado. Instintivamente, Telmo olhou para Adriana, buscando alguma reação.
Ela, porém, permaneceu impassível, embora seu rosto parecesse ter perdido ainda mais a cor, tornando-se quase translúcido.
— Me deixe fazer as apresentações. — Disse António, pousando a mão levemente nas costas da mulher ao seu lado. — Esta é a Luciana, a nova diretora do Setor Três da Ventura Investimentos. Luciana, este é o Sr. Telmo, do Grupo Azevedo, um velho amigo e parceiro da empresa.
Luciana deu um passo à frente, estendendo a mão com um sorriso confiante e ensaiado.
— É um prazer, Sr. Telmo. Espero que possamos realizar grandes projetos juntos.
— O prazer é todo meu, Sra. Luciana. — Respondeu ele, apertando a mão dela, mas a confusão em sua mente aumentava.
O Grupo Azevedo e a Ventura Investimentos tinham um histórico longo de parcerias, e Telmo conhecia bem a estrutura interna da empresa.
O Setor Três foi criado há menos de um ano e, durante todo esse tempo, a cadeira de diretor permaneceu vaga. No mercado, era consenso que o cargo estava reservado para Adriana. Afinal, era ela quem carregava o departamento nas costas, acumulando funções e, em apenas alguns meses, transformara a performance do setor na melhor de toda a Ventura Investimentos. O esforço dela era sobre-humano.
Ver outra pessoa chegar agora para colher os louros daquele trabalho árduo parecia uma injustiça cruel. Até Telmo, que era apenas um cliente, sentiu uma pontada de indignação por Adriana. Era o clássico caso de "uns plantam, outros colhem".
— A propósito, Sr. Telmo. — Continuou António, sem perceber ou ignorando o clima pesado. — O projeto atual entre nossas empresas passará a ser conduzido pela Senhora Luciana. Trouxe ela aqui justamente para que vocês pudessem se conhecer e alinhar os próximos passos.
Ao ouvir aquilo, Telmo não conseguiu esconder o desagrado e franziu o cenho.
— Mas... a Adriana sempre foi o meu ponto de contato. Essa mudança repentina no meio do processo...
António cortou a objeção com um gesto dismissivo, sua voz soando fria e pragmática:
— A Adriana é apenas uma secretária. Ela assumiu a gestão temporariamente porque a Sra. Luciana ainda não havia retornado ao país. Agora que a titular do cargo chegou, é natural que as coisas voltem à sua devida ordem. — Explicou ele, suavizando o tom para tranquilizar o cliente. — Não precisa se preocupar, Sr. Telmo. A Luciana tem doutorado em Finanças pelo Instituto WT de Negócios no País M e ocupou cargos em bancos de elite no exterior. Eu a trouxe a peso de ouro para a Ventura Investimentos. A competência dela é inquestionável.
Mas a preocupação de Telmo nunca era sobre competência técnica, era uma questão de lealdade e justiça. Ele sabia o quanto Adriana havia se sacrificado por aquele contrato. Ver António descartar o esforço dela com tanta facilidade, entregando o projeto de bandeja para outra pessoa, era revoltante. No entanto, a reação de Adriana foi o que mais o surpreendeu. Ela permaneceu calma, uma estátua de gelo diante da humilhação.
Por dentro, Adriana analisava a situação com uma clareza dolorosa. António vinha pessoalmente apresentar Luciana, usando sua própria influência para blindá-la e garantir que o cliente a aceitasse. Era um nível de cuidado e proteção que ele jamais dedicara a ela em todos aqueles anos.
Resignada, Adriana ergueu o queixo e disse, com a voz firme:
— Vou organizar toda a documentação e os relatórios do projeto para fazer a transição para a Senhora Luciana o mais rápido possível.
— Agradeço a cooperação, Adriana. — Disse Luciana, com uma polidez que soava quase condescendente.
Adriana se limitou a assentir com um breve aceno de cabeça. Pegou sua bolsa e se levantou, dirigindo-se ao cliente:
— Sr. Telmo, vou deixá-los à vontade para conversar com a nova diretora. Com licença.
Telmo queria pedir que ela ficasse, mas sabia que não tinha autoridade para interferir nas decisões internas da Ventura Investimentos. Restou-lhe apenas uma forma sutil de protestar e defender a honra da amiga.
— Bom, é uma decisão interna de vocês, e como externo não posso opinar. O projeto continua o mesmo, afinal. Mas o Senhor António conhece bem as minhas regras: gosto de fechar negócios bebendo e fazendo amigos. — Disse Telmo, lançando um olhar desafiador. — Da última vez, a Adriana tomou nove doses de destilado comigo e ganhou meu respeito. Gostaria de saber se a Senhora Luciana tem a mesma disposição e resistência para me acompanhar.
Não querendo perder a oportunidade de se provar, Luciana pegou o copo cheio sobre a mesa e sorriu.
— Talvez eu não tenha a mesma capacidade da Adriana, mas estou disposta a acompanhar o Sr. Telmo para celebrarmos nossa parceria.
Porém, antes que o líquido tocasse os lábios dela, António agiu rápido. Ele interceptou a mão de Luciana e lhe tomou o copo.
— Ela não está se sentindo bem hoje. Bebo no lugar dela.
Sem dar chance para contestação, António virou o copo de uma vez, descendo o álcool queimando pela garganta.
Telmo arregalou os olhos, atônito. Ele sabia perfeitamente que António tinha uma alergia severa a álcool. Em todos os jantares de negócios ao longo dos anos, era sempre Adriana quem bebia por ele, servindo de escudo humano para proteger a saúde do chefe. Telmo e António se conheciam há muito tempo, e aquela era a primeira vez que ele via o empresário se colocar em risco para poupar alguém.
Se ele estava disposto a sofrer uma reação alérgica por Luciana, o que significavam todas as vezes que Adriana bebeu até quase desmaiar por ele? Eram sacrifícios vazios?
Do lado de fora do reservado, encostada na parede fria do corredor, Adriana fazia a si a mesma pergunta cruel.
...
Mais tarde, já em seu apartamento, Adriana tomou seus remédios e se deitou, sentindo o corpo exausto. O telefone tocou quase imediatamente. Era Teresa. A amiga a bombardeou com perguntas sem nem dizer "olá":
— Você descansou? Comeu direito? E o mais importante, seguiu a ordem do médico e ficou longe de álcool, certo?
Adriana tentou desconversar, dando respostas vagas, mas Teresa a conhecia bem demais. O tom evasivo foi o suficiente para detonar a bomba.
— Você está mentindo para mim! Você bebeu de novo, não foi?
— Foi um jantar de negócios, Teresa, eu não tive escolha... — Tentou justificar Adriana, com a voz fraca.
— Você quer morrer? É isso? — Gritou Teresa do outro lado da linha, a voz tremendo de raiva e preocupação. — Esqueceu que quase teve uma intoxicação alcoólica grave outro dia? E aquele desgraçado do António ainda te obriga a ir nessas reuniões?
— Não vai mais acontecer, prometo. — Disse Adriana, fechando os olhos.
— Você sempre diz isso! A sua palavra não vale nada quando se trata dele.
— Dessa vez é verdade.
— Ah, é? E quão verdadeira é essa promessa agora?
Adriana respirou fundo, tomando a decisão que vinha adiando há tempos.
— Teresa, você conhece algum advogado bom? Alguém capaz de brigar de igual para igual com o departamento jurídico da Ventura Investimentos.
Houve um silêncio breve do outro lado, seguido por um tom de voz mais sério.
— O que você está planejando?
— Vou rescindir meu contrato com a Ventura Investimentos. Mas você sabe que assinei um contrato de longo prazo com cláusulas leoninas. Se eu sair agora, a multa é absurda e as condições são terríveis. O jurídico deles é implacável, advogados comuns não teriam coragem de pegar o caso.
Teresa percebeu que, pela primeira vez, a amiga não estava blefando.
— Espera... você é mesmo a Adriana?
— Em carne e osso.
— Meu Deus, hoje é um dia histórico! Temos que estourar um champanhe... ou melhor, um suco! A minha amiga finalmente acordou desse coma amoroso! — Celebrou Teresa, com um alívio palpável na voz. Se não soubesse que Adriana precisava descansar, teria ido até lá para conversar a noite toda. — Pode deixar comigo. Vou revirar a cidade e arranjar o advogado mais "tubarão" que existir para te tirar dessa.
Antes de desligar, Teresa fez questão de reforçar que estaria ao lado dela para o que der e viesse. Conversar com alguém que realmente se importava aliviou um pouco o peso no peito de Adriana. O sono começava a vir, pesado e reparador, quando o celular tocou novamente.
Era António.
Ela atendeu, mantendo a voz neutra, sem deixar transparecer nenhuma emoção.
— Pois não, Sr. António?
— Traga o meu remédio para alergia. Agora. — A ordem veio curta e grossa, no mesmo tom imperativo de sempre, como se ela fosse obrigada a estar disponível 24 horas por dia.
— Certo, Sr. António. — Respondeu ela, com uma calma mecânica.
Assim que a chamada encerrou, Adriana não se levantou para pegar as chaves do carro, nem foi até a farmácia. Em vez disso, ela pressionou o botão de desligar do celular, observando a tela ficar preta. Colocou o aparelho sobre o criado-mudo, puxou o edredom até o pescoço e fechou os olhos.
Se alguém quis bancar o herói, salvar a donzela e beber o que não devia, que lidasse com as consequências de sua própria alergia. Isso já não era mais problema dela.