Capítulo 5 — Eu tenho medo de perdê-la.
“Quando você sentir o meu calor
Olhe nos meus olhos
É onde meus demônios se escondem
É onde meus demônios se escondem”
Demons — Imagine Dragons
20:46
Chego em casa me sentindo revigorado, um fim de semana com Rosie pode trazer vida até às pessoas mais amarguradas.
Sento-me no sofá para retirar os sapatos e sinto o alívio de não ter mais os dedos comprimidos. Fecho os olhos e respiro fundo, aproveitando a paz que está à minha volta.
Ainda consigo sentir o efeito dos dois dias que salvam a minha semana. Com ela, sempre foi assim.
Ela é simplesmente extraordinária.
Pode parecer coisa de pai, mas não sou o único a pensar assim.
Ela é fofa, engraçada e, acima de tudo, feliz. Há alguma coisa em Rosie que torna difícil permanecer triste perto dela.
Ou, como dizem: “ela é encantadora”.
— James, você sabe que eu nunca gostei de sapatos jogados pelo chão da sala. — Sorrio ao ouvir sua voz melodiosa.
— Você não pode mais brigar por isso, querida. — Abro um dos olhos. Lea está encostada no arco da porta da cozinha, usando a camisola branca e com os cabelos loiros e cacheados presos por uma faixa no alto da cabeça.
— Mas gostaria. — Mesmo a contragosto, ela caminha em minha direção, fazendo seu lindo biquinho de quando é contrariada, e se senta no sofá.
— Por que perder tempo com tão pouca coisa? — questiono, e a ouço suspirar.
— Como ela está?
— Ela está linda, inteligente e uma moleca — digo, rindo ao me lembrar das travessuras que a pequena fez naquele fim de semana. — Não faço a mínima ideia de quem ela puxou isso.
— Eu posso imaginar. — Ela segura o riso. — Me lembro de uma pessoa que era assim, que conseguiu quebrar o braço quatro vezes no mesmo lugar, você sabe quem era esse cara?
— Talvez um primo seu? — Seu olhar se torna sarcástico. — Ok, eu assumo a minha culpa nessa parte dos genes.
Ela sorri — aquele sorriso que amei por tantos anos — e se aconchega em meu peito.
Não sinto o contato de sua pele, mas minha memória é cruelmente precisa: quase consigo imaginar os cabelos fazendo cócegas em meus braços.
— Não acha que está na hora de trazê-la de volta? — pergunta, virando-se para mim. — Uma criança precisa do pai.
Aquela pequena frase é suficiente para quebrar alguma coisa dentro de mim. Preciso me afastar.
— Uma criança também precisa da mãe — respondo, levantando-me e seguindo em direção ao segundo andar. Em questão de segundos, sinto o vazio me dominando como sempre. — E você nem mesmo está aqui.
— Você sabe que eu gostaria de estar. Eu daria tudo para vê-la novamente. — Lea aparece novamente em minha frente.
— Mas você não está. É só uma criação da minha cabeça, porque eu ainda não consegui aceitar que minha esposa morreu há três anos. — Aumento o tom de voz, frustrado, quase arrancando alguns fios de cabelo. — Como eu poderia cuidar de uma criança, sendo que não consigo nem mesmo cuidar de mim? Não consegui cuidar de você.
— Isso não é verdade. Você é a pessoa mais responsável que eu conheço — diz ela, caminhando em minha direção com a calma que sempre teve. Suas mãos seguem em direção ao meu rosto e eu me contento mesmo não sentindo seu calor. — Você cuidou dela enquanto eu estava internada e após a cirurgia, por que não agora?
Meu coração aperta. A garganta se fecha. Os olhos ardem.
O choro me atravessa antes que eu consiga contê-lo. Meus joelhos cedem, e, quando percebo, estou no chão.
A respiração descompassada anuncia o que já conheço bem demais.
De que adianta lutar contra algo que, cedo ou tarde, sempre me alcança?
— Eu tenho medo de perdê-la. — A confissão sai entre o choro enquanto me entrego ao desespero, deitado no chão do quarto, completamente sozinho. — Perdê-la como perdi você.
7:03
Chego para o plantão e me pego observando a mesa impecavelmente organizada da senhorita Bell. É estranho pensar que ela está aqui há apenas um mês.
— Bom dia, Foster. — Ela aparece ao meu lado entrando na sala.
— Bom dia, senhorita Bell — respondo no automático, colocando o novo desenho de Rosie em minha mesa.
— Gostaria de conversar com você sobre esse termo “senhorita” — diz, fazendo aspas com os dedos enquanto se senta à minha frente. — Eu o odeio, por favor me chame apenas de Bell ou de Catherine, até mesmo Cath se quiser.
— A senhorita acabou de cometer seu maior erro — digo, segurando o riso e recebendo seu olhar curioso.
— E qual seria? — questiona.
— Dizer que odeia alguma coisa — respondo, como se fosse óbvio. Ela estreita os olhos para mim.
— Então, a partir de hoje, você só vai me chamar assim? — pergunta, levantando-se e contornando a mesa. Confirmo com a cabeça. — Nesse caso, não vai se importar se eu chamar você de Jayjay.
— Como você descobriu esse apelido? — questiono sobressaltado.
— Agradeça a seu amigo Henry — responde ela, escorando-se em minha mesa e olhando para o desenho. — Que lindo Jayjay, é da sua filha?
— Sim, ela fez neste fim de semana — digo, pegando o porta-retrato dela em seu aniversário e entregando-o a ela. — Essa é ela com dois anos, preciso trocar por uma foto atual.
— Que coisa mais linda! Ela é uma versão sua em miniatura. — Um sorriso brinca em seus lábios enquanto passa o dedo pelo vidro. — Menos os olhos, os dela são mais escuros. Traga-a algum dia, de preferência um em que a delegacia estiver tranquila.
— Esse dia não vai ser hoje. — Nós dois olhamos para a porta. Henry está ali, como se tivesse sido conjurado. — Assassinato na avenida Logan.
08:00
Ao chegar ao endereço, encontramos um estúdio de arte.
Telas cobrem as paredes da recepção. Peças de cerâmica e vasos ocupam pontos estratégicos entre tapetes felpudos, sofás e plantas.
Seguimos pelo corredor até o ateliê. Há mais telas abstratas, uma parede tomada por materiais de cerâmica, vasos de formas estranhas espalhados pelo cômodo e, no meio de tudo aquilo, um corpo caído no chão.
O corpo está de bruços. Quando nos aproximamos, a provável arma do crime se revela fincada em sua nuca.
— Uma espátula? — questiona Catherine ao meu lado enquanto os peritos se espalham pelo cômodo e o legista se encontra ajoelhado ao lado do corpo.
— Foi certeiro — diz Matheo enquanto retira a "arma" do crânio da vítima. — Morreu na hora. Foi como desligar um computador.
— Ótima comparação — sussurra Catherine, enquanto se aproxima, colocando as luvas.
— O que temos até o momento? — pergunto, aproximando-me também com as luvas em mãos. Vejo o sangue que escorreu pelo rosto virado para o lado e empapou a camisa.
— Pelo estado do corpo, a vítima foi morta entre uma e três da manhã. Foi um único golpe que perfurou o crânio, talvez a espátula tenha sido afiada antes da ocorrência. — Marco lista as informações enquanto guarda a espátula em um saquinho plástico. — O corpo vai para a análise, mas não parece ter acontecido uma briga ou agressão física, foi atacado pelas costas.
Olho ao redor. Precisamos levantar impressões digitais, verificar câmeras e conversar com todos que faziam parte do convívio da vítima.
Catherine caminha até a mesa encostada no canto e pega o porta-retrato sobre ela.
— Podemos começar as entrevistas? — questiona.