Capítulo 2 — Não foi um suicídio.
07:05
Ao chegar para o meu plantão diurno, de primeira, vejo Arthur, o novato, caminhando em minha direção com a testa enrugada.
Só pode ser má notícia.
— Ei, me pediram para te avisar que os resultados da autópsia ainda não saíram, mas as cópias das fotos tiradas estão na sua mesa. — Sigo em direção ao corredor, mas sinto o braço de Arthur, auxiliar do legista que entrou para a equipe há um mês, em meu ombro, me fazendo seguir para o outro lado. — Smith quer falar com você na sala dele. Parece que a sua nova parceira chegou — diz, com um sorriso sacana.
— Mal chegou e já está arrastando asa para a garota nova? — pergunto, seguindo com ele até a sala do chefe.
— O quê? Não, só seria uma ótima oportunidade para interagir com outro ser humano, principalmente do sexo feminino... — Seu falso tom indiferente me faz revirar os olhos.
— Pois se esforce para resolver algum caso antes. Assim vai poder se vangloriar para ela — digo, e ele logo segue rindo pelo corredor. Resta-me disfarçar meu descontentamento ao entrar no escritório de Smith.
Ao entrar, vejo o senhor de idade avançada com o mesmo semblante de calma, sentado atrás de sua mesa, com seus óculos meia-lua na ponta do nariz e os cabelos ralos e já brancos.
O que eu não esperava era encontrar, do outro lado da mesa, os olhos castanhos e o sorriso convidativo de uma bela moça.
— Bom dia, Sr. Foster — diz o senhor, levantando-se.
— Bom dia, senhor Smith — respondo ao cumprimento, intercalando o olhar entre ele e a moça de olhos curiosos. — Arthur me disse que gostaria de falar comigo.
— Sim, pedi que te chamasse — confirma, dando a volta na mesa. — Gostaria de lhe apresentar a senhorita Bell.
Ao dizer isso, a moça de traços latinos se levanta, e posso perceber os coturnos de salto, a calça jeans apertada, o suéter azul e o casaco com botões abertos, que b**e em suas coxas. Além dos cabelos, que se ondulam ao chegar às pontas e caem pelas costas, emoldurando o rosto simpático.
Ela não estava vestida apropriadamente para aquele ambiente, e presumi que veio diretamente do aeroporto ou algo do tipo.
— Olá, me chamo Catherine Bell — diz, estendendo a mão, que logo apertei. — Espero não ser um problema entrar no meio de um caso.
Sinto-me intrigado — e há algo mais que ainda não consigo definir.
Não duvido de suas habilidades — ainda nem tive tempo para isso —, mas os anos neste trabalho me ensinaram a observar as pessoas.
E, não querendo julgá-la pela aparência, sua estatura baixa, seu sorriso agradável e carismático, o rosto em formato de coração e os olhos doces me dão a impressão de que ela não pertence a esse meio.
A forma de se portar e a pouca idade que aparenta não me dão a segurança de que ela andaria em meio a cenas grotescas. Eu mesmo demorei um bom tempo para aprender a não vomitar.
Alguma coisa me diz que essa parceria não será fácil.
— James Foster — aceno. — E está tudo bem.
— Bem, a papelada já está quase em ordem. Já conversei com a senhorita e a deixei por dentro do caso. — Smith diz, acomodando-se em sua mesa novamente. — Por que não a leva até o escritório que irão dividir para analisar as informações da vítima? Pelo menos até eu terminar aqui.
— Sim, senhor. Vamos. — Respondo, abrindo a porta e esperando que ela passe primeiro para que me acompanhe.
Sinto os olhares de todos queimando em minhas costas e, ao chegar ao escritório, percebo que a mesa de Lana já está vazia.
— Eu cheguei hoje, ainda não tive tempo de desempacotar minhas coisas, então Smith me deu o dia de folga para me organizar — ela diz, olhando em direção à antiga mesa de Lana. — Mas amanhã estarei aqui para começarmos a resolver o caso.
— Esse último caso já está resolvido — digo, pegando o arquivo e passando os olhos pelos dados da vítima e pelas fotos. — Foi suicídio.
— Como você sabe que foi um suicídio se ainda não saiu o relatório da autópsia? — pergunta, e seu olhar confuso me faz esquecer, por segundos, o porquê de ser um suicídio.
— Pode analisar o arquivo — digo, entregando-lhe a pasta. — Não há nenhum vestígio da presença de outra pessoa com ela no quarto, e não tinha jeito de sair ou entrar lá dentro, pois estava tudo trancado. Além disso, a faca estava na mão da garota.
Vejo-a se apoiar na antiga mesa de Lana. Seus olhos percorrem cada parte do arquivo como se as páginas fossem peças de um quebra-cabeça.
Por vezes, suas sobrancelhas se levantam, seu nariz enruga e sua boca forma um bico.
Não leva nem dez minutos para ela abrir um sorriso, endireitar a coluna e me lançar um olhar carregado de sarcasmo.
— Não foi um suicídio. — Ela não diz; afirma. Cruza uma bota sobre a outra e me encara em desafio.
— Por que acha isso? — pergunto, fazendo pouco caso e me sentando atrás da minha mesa.
Ela se desencosta da mesa e caminha em minha direção. A postura adorável que vi minutos atrás no escritório de Smith evapora. Por um instante, não reconheço a mulher que se aproxima: os passos agora são firmes, e os olhos permanecem cravados em mim.
A vejo se sentar com a maior calma do mundo à minha frente e abrir o arquivo em minha mesa.
— Nas informações, diz que Layla Marshall, de 23 anos, era destra, escrevia com a mão direita — ela fala, apontando para as informações no começo da pasta.
— E, se a senhorita não percebeu... — digo, virando as folhas e encontrando a foto do corpo da garota. — A faca foi encontrada na mão direita.
— Mas esse corte não foi feito pela mão direita — ela responde, virando mais folhas e encontrando a foto do corte. — Em um corte, a pele acompanha a faca: no lado em que a faca entra, a pele fica para dentro, e, por onde a faca sai, a pele fica para fora. Está vendo que a faca entrou do lado direito e saiu do esquerdo? — diz, acompanhando o corte com o dedo pela direção que a faca seguiu. — Se ela fosse fazer o corte, seria pela mão dominante, que é a direita. Porém, você compreende que uma pessoa prestes a se suicidar está cega e dominada por sentimentos como raiva, desespero ou tristeza? Não faz sentido ela elaborar esse tipo de corte, além de o corte estar completamente reto para uma manobra tão fechada e nada prática para um momento de desespero.
O raciocínio faz sentido. Pego um lápis, ofereço outro a ela e reproduzimos o movimento do corte. A posição é desconfortável, pouco natural — difícil demais para combinar com o cenário que eu havia aceitado tão depressa.
— Não foi um suicídio — repito, mais para mim do que para ela. De repente, várias teorias atravessam minha cabeça, mas nenhuma consegue se sustentar.
— Não disse? — Seu olhar sarcástico faz com que eu nem mesmo agradeça a ajuda, mas ela não dá a conversa por encerrada ao cruzar os braços e escorar as costas na cadeira, ainda me olhando. — Eu vi a forma como me mediu de cima a baixo na sala do Smith e decidi relevar. Não queria começar com o pé esquerdo. — Ela pausa a fala e aproxima o corpo. — Mas a forma como me olhou enquanto eu analisava o arquivo, como se duvidasse das minhas habilidades, fez o meu sangue ferver. — Apoia as mãos sobre a mesa, e eu não consigo desviar os olhos dos seus. — Pois sei que meu currículo tem muita experiência, e me arrisco a dizer que estive em casos piores do que você. Então, não me subestime, pois trabalharemos juntos e de igual para igual.
Ela se levanta, dá-me as costas e caminha até a mesa que, a partir de amanhã, será sua. Pega a bolsa.
Mas, antes de sair pela porta, me olha.
— Preciso ir aproveitar o resto do meu dia de folga, mas amanhã continuamos. — Assim, ela simplesmente sai.
Sinto que não cumprirei a promessa que fiz a Lana.
E, realmente, essa parceria não seria fácil.