Capítulo 4 – Tenha uma boa noite.
Descemos do carro e logo vejo o quarto com as fitas da polícia.
— Ok, quem será o policial mal e o policial bom? — Catherine pergunta, fazendo-me rir. — Eu voto que você seja o mal.
— Por que eu? — questiono.
— Bem, talvez pela sua aparência — diz, apontando para o meu rosto. — Cara cansada, cabelo despenteado, barba, esse jeito ranzinza... Você praticamente nasceu para o papel. — conclui dando de ombros.
— Era para ser um elogio? — questiono enquanto seguimos até a guarita onde as pessoas pegam as chaves dos quartos.
— Aí depende de você, parece ser seu estilo parecer meio mal-encarado. — responde, analisando o lugar.
E, não, esse definitivamente não é o meu estilo.
Ao chegar, vejo a mulher que se identificou como Helena quando estávamos colhendo os depoimentos, esposa do dono.
— Boa noite, querem um quarto? — pergunta girando o banco em que se encontra sentada.
— Não. Estamos investigando o assassinato do quarto 7A e precisamos dos registros de quem se hospedou aqui naquele dia. — digo, apoiando-me no balcão mostrando o distintivo.
— Mas é sigiloso. — Helena rebate, arregalando os olhos.
— Helena, deixe que olhem. — Quem responde isso é o dono do motel que aparece por trás da esposa, Gerald foi entrevistado por Lana após a visita ao local na noite anterior. — Uma pergunta antes, por que isso é necessário se a Layla cometeu suicídio?
— Segundo a autópsia foi assassinato. — diz Catherine e os olhos do dono se arregalam.
— Busque o caderno. — ordena, virando-se para a esposa.
Assim a mulher se levanta e segue para os fundos, voltando com um caderno.
— Só não acho que isso vá ajudar muito. A maioria usa identidades falsas por causa dos casos extraconjugais, se é que me entendem. — A mulher que não deve passar dos quarenta anos diz, dando de ombros.
Abro o caderno e começo a copiar os nomes. Pelo canto do olho, percebo Catherine concentrada em alguma coisa dentro da guarita. Antes que eu pergunte o que chamou sua atenção, ela se vira para mim.
— Foster, você terminou as anotações? — pergunta e eu afirmo balançando a cabeça. — Eu não vi a cena do crime, vamos passar lá antes de voltar à delegacia.
Após esse comentário ela se vira e segue em direção ao quarto, eu agradeço pelo caderno e a sigo.
Passamos por baixo das faixas e entramos no quarto. Catherine varre o ambiente com os olhos, procurando qualquer detalhe que possa ter sido ignorado.
Após alguns minutos ela se volta para mim bufando.
— Não tem nada. Absolutamente nada — diz, prendendo os cabelos em um rabo de cavalo. — Como alguém entra e sai de um lugar trancado por dentro?
— Alguém que tinha a chave? Mas só ela tinha a chave do quarto. — digo, olhando para o chão.
— O dono tem a chave. — responde com os olhos arregalados em minha direção. — Todos os motéis ou hospedarias têm chaves reservas para o caso de o cliente perder a original, mas qual relação o dono tem com a vítima, segundo os depoimentos ele não a conhecia nem estava trabalhando no dia.
— Lana o entrevistou. Ele afirma que não estava trabalhando naquele dia e, pelo que lembro, o álibi era bem fraco. Mas a questão é outra... — As peças começam a se encaixar. — Se ele não estava trabalhando no dia, como ele sabe o nome da vítima se não a conhecia antes? — pergunto, dando voltas pelo quarto. — Os dados da vítima não foram divulgados nem nada do tipo. — Uma ideia me atinge, e volto os olhos para a folha em que copiei os nomes dos clientes daquele dia. — E o nome dela não está registrado como cliente, pode ser que tenha usado uma identidade falsa, mas isso comprova ainda mais que não teria como ele saber o nome dela.
— Ela era a amante — Catherine sussurra, mais para si mesma do que para mim.
Nossos olhares se encontram. Não precisamos dizer mais nada.
Voltamos à guarita. Gerald parece mais nervoso do que antes. Catherine se aproxima com um sorriso tranquilo, assumindo sem esforço o papel da policial boa.
— Onde o senhor estava ontem no horário do assassinato?
— Eu já disse, não estava passando bem, decidi ficar em casa e minha esposa veio no meu lugar. — responde, um pouco vermelho.
— A senhora que ficou responsável por essa recepção? — Catherine continua questionando, mas, desta vez, é Helena.
— Não, é raro que eu fique aqui, estava lá dentro, na cozinha e outro funcionário estava responsável pela recepção. — Seu tom não demonstra nervosismo, mas sim curiosidade.
— E como o senhor tinha tanta certeza de que era suicídio se não estava aqui? Ou, melhor: como sabia que o nome dela era Layla? — pergunto, observando sua reação. Quero ver até onde ele consegue sustentar a mentira.
— Eu não sei, devo ter ouvido alguém falar, não sei. — responde, passando as mãos pelos poucos cabelos que ainda restavam.
— Que mal lhe pergunte, mas o que aconteceu com o braço do senhor? — Catherine pergunta, apontando para o braço do homem que está enfaixado.
— Me cortei enquanto cozinhava. — responde rapidamente.
— Se o senhor está tão seguro do seu paradeiro no horário do crime, certeza que não vai se importar de aguardar conosco a viatura da polícia e nos acompanhar à delegacia. — diz Catherine com a voz calma e o sorriso tranquilo estampado no rosto enquanto envio uma mensagem pedindo reforços. — E aguardará o mandado para analisarmos seu DNA com o DNA encontrado na faca, se bobear ainda comprovamos que o bebê que Layla esperava tem um parentesco com o senhor.
Catherine olha para mim com um sorriso satisfeito. Pela primeira vez em muito tempo, sinto o peso de um caso sair dos meus ombros.
23:39
De volta à delegacia, interrogamos Gerald até ele assinar a confissão. Agora, só falta o resultado do DNA para completar a papelada. Nunca resolvi um caso tão rápido na vida.
—Pelo modo, ela chamou o dono para contar sobre o bebê e ele não aceitou tão bem. — digo, quando entramos na sala. — Assim tudo se desenrolou.
— Pelo menos acabou — diz Catherine, deixando-se cair na cadeira. — E a família da vítima logo será avisada.
— Obrigado pela ajuda — digo, olhando para ela. — Prometo levar a senhorita a sério a partir de hoje. E, para provar que estou falando sério, eu preencho a papelada desta vez.
— Nós resolvemos em conjunto, mas se você quer fazer esse favor eu não vou negar. — ela diz, sorrindo, logo desvia os olhos para o relógio no pulso e seu sorriso aumenta. — Eu continuo de folga.
— Pode ir se divertir, eu termino por aqui. — respondo, sorrindo de volta.
Mas, em vez de sair, ela permanece no meio da sala e começa a desabotoar o longo sobretudo. Por baixo dele, surge um vestido preto de mangas longas, ajustado às suas curvas.
Ela estava vestida assim esse tempo todo?
Os cabelos, antes presos em um rabo de cavalo, são soltos e caem em cascata por suas costas.
Ela sorri, abre a mochila e tira de dentro um par de saltos, substituindo as botas. Depois, segue em direção à porta com a mesma segurança de sempre. Só então percebo que estava prendendo a respiração.
— Após terminar a papelada, não demore a ir embora. — Ao terminar a fala, abre a porta, mas olha para trás antes de atravessar. — Tenha uma boa noite. — Com isso ela segue o seu caminho para fora da sala.
Tenho a impressão de que essa parceria ainda vai me dar muito trabalho.