“Eu nunca tive ninguém, nem estradas até o lar
Eu quero ser alguém para alguém”
Someone To You — Banners
4:28
Estou a caminho depois de receber um chamado pelo rádio do carro: um suposto suicídio em um quarto de motel.
Ao chegar, encontro a movimentação de praxe: policiais e peritos criminais colhendo depoimentos, enquanto hóspedes, contidos pela fita policial, tentam entender o motivo da aglomeração em frente ao quarto 7A.
Antes de descer do carro, olho pelo retrovisor, e o homem com olheiras profundas, barba por fazer e cabelos ruivos que gritam por um corte me encara de volta.
Desço do carro com uma única certeza: preciso dar um jeito na minha vida.
— James. — Lana caminha em minha direção com o sono estampado no rosto. Agradeço mentalmente por esta ser nossa última noite no plantão noturno. — Que bom que chegou. Isso aqui está uma bagunça.
— Dá para perceber. — Escondo o riso, e seus olhos azuis faíscam. — Lana, quais são as informações? — pergunto à loira parada ao meu lado.
— Pelo relato do funcionário do motel, uma garota pediu um quarto e entrou sozinha — diz, analisando o bloco de notas onde está escrito o depoimento. — O casal que estava no quarto ao lado ouviu o barulho de algo sendo jogado contra a parede e relatou na recepção. Quando foram averiguar, encontraram a garota no chão, com o pescoço cortado e a faca em sua mão.
Olho à minha volta, e o local é um simples motel de beira de estrada, como tantos outros.
— Só para deixar claro: corta esse cabelo e apara a barba — Lana diz, destruindo qualquer linha de raciocínio que eu tentava construir.
— Tem algum suspeito? — pergunto, ignorando sua fala enquanto vejo a movimentação dos hóspedes diminuir.
— Ao que parece, ninguém entrou ou saiu, pois a janela e a porta estavam trancadas por dentro. Não há sinal de arrombamento e, para o nosso desespero... — Ela para de falar e se vira em minha direção. — Eles não possuem câmeras.
— Como não possuem câmeras? — pergunto, indignado, indo em direção ao quarto, com Lana em meus calcanhares.
— É algo como evitar que a intimidade dos clientes seja exposta. — Enquanto formula essa frase, ela me oferece um par de luvas. — Todo mundo sabe: é um local propenso para homens casados se encontrarem com as amantes. É genérico e discreto — diz, fazendo pouco caso.
Ao entrar no quarto, percebo a decoração simples: uma pequena mesa embaixo da janela, uma cama de casal com apoio de cada lado, uma porta que provavelmente leva ao banheiro e uma TV de 24 polegadas pendurada na parede.
Logo abaixo do aparelho está o corpo da garota, que não deve passar dos vinte anos.
Apesar de estar sentada no chão, com a cabeça encurvada para frente, vejo os cabelos castanhos-escuros um pouco bagunçados, a camisa branca rendada no busto e manchada pelo sangue que escorreu de sua garganta, terminando na calça jeans e na sapatilha nos pés.
— Já tiraram as fotos do corpo para análise e já irão levá-la para o IML. Vocês têm alguma suspeita? — pergunta Henry, parando do nosso lado.
O moreno dos olhos verdes, cansados por trás dos óculos de aro redondo, é meu amigo de longa data e cunhado.
— É difícil ter alguma suspeita sem nenhuma prova, né? — diz Lana, indo em direção ao corpo. — Teremos que esperar o relatório da autópsia.
— Sendo prático, provavelmente foi suicídio — digo, recebendo dois olhares de pura indagação. — Encontraram a “arma” do crime em suas mãos. Ninguém entrou ou saiu, pois só a menina tinha a chave, e eu duvido muito que ela tenha se levantado para trancar a porta com a garganta cortada. — Ando pelo quarto e aponto. — Não tem nenhum sinal de uma segunda pessoa aqui, apenas um copo de bebida e uma bolsa de roupas.
— E o barulho na parede? — pergunta Henry. — Ela também se jogou contra a parede?
— Talvez tenha perdido o equilíbrio quando cortou a própria garganta. Essas paredes são finas.
— Melhor esperar a autópsia — diz Lana, apaziguando os ânimos. — E eu tenho duas novidades para te contar, James. Vamos.
— Como assim ir para outro distrito? — pergunto, sentindo meu olho direito pular.
— Você sabe que eu e a Nick vamos nos casar — ela responde tranquilamente, andando até sua mesa, que se encontra de frente para a minha. — Ela foi chamada para dar aula na DeVry University, que é a maior universidade de Chicago, mas fica em outro distrito, e seria muito cansativo o percurso da minha nova casa até aqui. — Seu olhar me pede desculpas. — Eu não te contei antes porque duvidava que conseguiria essa transferência tão rápido, mas me ligaram do departamento pedindo que eu comparecesse ao novo distrito amanhã para assinar a papelada.
— Mas somos parceiros desde o começo da nossa carreira. Temos esse caso novo e outros dois que ainda não resolvemos. — Encosto na mesa, cruzo os braços e encaro a loira, que, como sempre, parece não entender a gravidade da situação.
— Aí é que entra a outra novidade: tem uma garota sendo transferida de Nova York para cá. — Após receber essa informação, apenas sinto meus olhos esbugalharem. — E você vai ter que prometer ser bonzinho com ela, por favorzinho — pede, à minha frente, juntando as mãos como em uma prece.
— Eu prometo, mas quem te vê falando isso imagina que eu seja um monstro.
— Você não é um monstro, apenas tem uma alma de velho, sabe? — Vendo a minha cara de ódio, solta uma gargalhada.
— Alma de velho? A situação só melhora, né? — Não poupo o tom de sarcasmo.
— Eu apenas sei que você não é fã de mudanças, pessoas novas em sua vida, pessoas felizes à sua volta... — Faz uma cara de quem descobriu a resposta de um enigma. — Pensando bem, você tem realmente alma de velho. — Após sua fala, caminha em passos apressados em direção à porta, segurando a risada.
— É sério isso? — Nesse momento, sinto o tique nervoso aumentar.
— Já vou. Ela vai chegar de viagem amanhã, e não esqueça de ser educado. — Assim, fecha a porta.
Sempre tive dificuldade em sair da minha zona de conforto, mesmo quando já não existe conforto algum nela.
Mudanças raramente chegam sozinhas. Quando percebemos, o mundo já está de cabeça para baixo, e tudo o que podemos fazer é torcer para que nossas pernas permaneçam firmes ao tocar um terreno desconhecido.
Sento-me em minha cadeira e respiro fundo. Preciso me acalmar.
Olho os porta-retratos da minha mesa. Vejo Lea com um sorriso tão fácil; ela sempre esteve tão linda.
E, no outro, minha pequena Rosie, com as bochechas vermelhas em seu aniversário de dois anos. Tenho que adicionar um lembrete para comprar seus morangos antes de visitá-la este final de semana.
E não me esquecer de perguntar se ela acha que tenho alma de velho.