4 - Minha pior algoz

RUBI MONTENEGRO

Havia dois meses que eu vivia naquela mansão como um fantasma. Eu tinha aprendido a arte de ser invisível, exatamente como Ares exigiu. Apesar de receber uma mesada generosa, meus dias eram passados nos cantos onde eu sabia que ele jamais pisaria: a biblioteca da minha ala e o jardim nos fundos da casa.

No começo, eu fui tola. Tentei ser gentil. Lembro-me da primeira semana, quando o encontrei no corredor e sorri, desejando um "bom dia". Ares nem sequer parou de andar. Ele apenas disse: "Você está no meu caminho. Mova-se."

Depois de situações como essa se repetirem, entendi o recado. Se ouvia seus passos no corredor, me escondia. Se ele estava na sala de estar, eu ficava no quarto.

Minhas roupas, antes apertadas, agora começavam a ficar um pouco mais frouxas. Não porque eu estivesse de dieta, mas porque a tristeza tinha um gosto amargo que tirava meu apetite. A comida, que sempre foi meu refúgio e meu abraço, agora parecia sem sabor. Eu comia apenas para sobreviver.

Hoje, uma chuva torrencial castigava as janelas da mansão. Eu estava na cozinha, sentada em um banco alto, observando Mary preparar um chá.

Mary era a única alma viva naquela casa que me olhava nos olhos. Ela era a funcionária mais antiga e, talvez por pena, começou a me tratar com gentileza.

— Menina Rubi, você precisa comer mais do que isso — Mary disse, empurrando uma torrada na minha direção. — Está pálida. O Sr. Ares não vai inspecionar se sumir um pouco de manteiga da despensa.

Sorri tristemente. Mary sabia que o problema não era a falta de comida na casa, mas a falta de vontade de viver que crescia dentro de mim.

— Obrigada, Mary. Mas só o chá está bom.

De repente, ouvimos o barulho da porta principal, seguido por risadas.

Risadas? Nessa mansão?

Eu franzi a testa. Ares nunca ria. Em dois meses, eu nunca tinha ouvido nada além de ordens ou silêncio vindo dele.

— O patrão chegou cedo — Mary comentou, secando as mãos no avental. — E parece que não está sozinho.

A curiosidade tomou conta de mim. Quem faria Ares Beckett rir?

Desci do banco silenciosamente.

— Não vá lá, querida... — Mary avisou, com um olhar preocupado.

— Só vou espiar do corredor. Prometo que ele não vai me ver.

Caminhei na ponta dos pés e espiei a sala, enquanto me escondia perto da parede. Esse foi um grande erro.

Ares estava lá, encharcado pela chuva, com a camisa branca colada nas costas largas. Mas ele não estava irritado com o clima. Ele estava prensando uma mulher contra a parede, devorando a boca dela com uma fome que eu nem sabia que ele era capaz de sentir.

Senti uma pontada no peito, como se alguém tivesse enfiado uma agulha no meu coração. Claro que ele tinha desejo. Só não por mim.

A mulher riu, afastando-o um pouco. Ela era deslumbrante. Alta, magra como uma modelo, com cabelos loiros perfeitos que nem a chuva parecia conseguir estragar.

— Calma, querido... — ela disse, virando o rosto para a luz, desviando dele.

Minha surpresa só aumentou. Eu conhecia aquele rosto.

Era Diana.

Memórias dolorosas do ensino médio me atingiram. Diana, a garota que colava bilhetes nas minhas costas escritos "Cuidado: Carga Pesada" e que me chamava de "Leitoa" na frente de todos.

De todas as mulheres do mundo, Ares tinha escolhido minha pior algoz.

Ares beijou o pescoço dela, murmurando algo que a fez rir novamente. Ele a pegou pela mão e começou a guiá-la em direção à escadaria.

Eles iriam subir para o quarto dele. Onde eu era proibida de entrar.

— Espere, Ares — Diana parou no primeiro degrau, ajeitando o vestido curto e molhado. — E a tal esposa gorda. Ela não vai atrapalhar?

Eu me encolhi, rezando para desaparecer.

Ares virou a cabeça instantaneamente. Seus olhos encontraram os meus, como se já soubesse que eu estava ali.

— Ela sabe o lugar dela. O lado leste da casa é proibido para ela. — Ele não desviou o olhar do meu enquanto completava a frase, fazendo questão de que eu ouvisse cada sílaba. — Fique tranquila, Diana. Você não terá que ver aquela gorda deprimente.

Ouvi os passos deles sumindo no andar de cima, seguidos pelo som da porta do quarto dele se fechando. Uma porta que eu nunca poderia abrir.

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