Mundo de ficçãoIniciar sessãoRUBI MONTENEGRO
O casamento foi rápido e sem convidados. Apenas assinaturas em um cartório e uma cerimônia civil que durou menos de dez minutos. Não houve beijo, nem troca de olhares. Apenas a caneta arranhando o papel, me unindo a Ares Beckett. Agora, eu estava parada na entrada da mansão Beckett, me sentindo uma intrusa. O vestido branco que minha mãe escolheu apertava terrivelmente minha cintura, e o suor frio fazia o tecido pinicar minha pele. Ares começou a desabotoar o paletó quando uma senhora de uniforme apareceu. — Boa noite, Sr. Beckett. E senhora... Beckett. — A governanta hesitou, varrendo minha figura larga com surpresa. — O jantar de comemoração está servido. O chef preparou o menu especial. Senti uma pontada de esperança. Talvez, à mesa, pudéssemos fingir civilidade. Ares parou no meio da escada, virando o rosto apenas para a governanta, ignorando minha presença como se eu fosse um móvel desagradável. — Eu não vou jantar, Mary. A governanta piscou, confusa. — Mas senhor... a mesa está posta... Ares soltou um suspiro impaciente e, finalmente, seus olhos frios caíram sobre mim, analisando o tecido esticado sobre meu abdômen. — Perdi o apetite. Ver tanto excesso de banha apertada nesse vestido... sinceramente, meu estômago embrulha. Sirva a Rubi. Tenho certeza de que ela consegue comer por nós dois, não é, esposa? — Ele me chamou de "esposa" com um tom óbvio de desgosto. A governanta baixou os olhos, morta de vergonha. — Sim, senhor. Ares subiu as escadas sem olhar para trás. — Sinto muito, senhora — Mary murmurou. Balancei a cabeça, segurando as lágrimas. — Também não tenho fome, obrigada — menti. — Apenas me mostre o quarto. Mary me guiou até uma suíte na ala oposta. O quarto era lindo, mas o espelho da penteadeira refletia a verdade cruel: uma noiva gorda, inchada e rejeitada. Pouco depois que Mary se retirou, ouvi batidas na porta. Meu coração acelerou estupidamente. — Pode entrar. Ares entrou, mas parou na soleira, mantendo uma distância segura. — Esqueci de pegar a via assinada do nosso acordo pessoal — disse ele, estendendo a mão. — Me entregue. Fui até minha bolsa e tirei o papel. Quando estendi a folha, nossos dedos quase se tocaram, e ele recuou a mão com um puxão brusco, limpando-a na calça logo em seguida. A humilhação subiu pela minha garganta. — Eu só queria que soubesse que vou me esforçar para ser uma boa esposa e... — Não se esforce. — Ele me interrompeu, ríspido. — Você é útil para os meus negócios, Rubi, mas não crie ilusões. Mulheres como você não me despertam reação alguma. Eu gosto de mulheres que se cuidam. Mulheres magras, bonitas e elegantes. Ele deu um passo à frente, seu olhar cheio de nojo percorreu meu corpo. — Você é imensa, Rubi. Desleixada. Mulheres obesas como você não me despertam nada além de repulsa. Você é um repelente natural de desejo. Agradeço por ter quartos separados, porque eu jamais conseguiria deitar ao lado de alguém tão... deformada. Ares se virou e saiu, batendo a porta. Fiquei parada, estática. Repulsa. Deformada. Repelente natural de desejo. Caminhei até a varanda, abraçando meu corpo trêmulo. O som de um motor potente interrompeu o silêncio. Olhei para baixo e vi o carro de Ares saindo em disparada. Na nossa noite de núpcias, ele preferia fugir para qualquer lugar do que respirar o mesmo ar que sua esposa "baleia". Enquanto as luzes do carro sumiam, percebi que nunca tinha estado tão sozinha e tão odiada em toda a minha vida.






