2 - Seja invisível

RUBI MONTENEGRO

Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui fechar o zíper do meu vestido preto. Era a peça mais larga que eu tinha, um tecido sem forma que eu usava para tentar desaparecer. Corri para o banheiro, joguei água no rosto e desci as escadas.

Ares Beckett estava lá embaixo.

Eu já tinha visto fotos dele, mas pessoalmente ele era muito mais impressionante. Alto, ombros largos e um rosto que parecia ter sido esculpido pessoalmente pelo criador. Ele tinha cabelos negros e uma barba por fazer que o tornava perigosamente atraente.

Meu pai estava ao lado dele, suando frio, mas foi minha mãe quem roubou a cena. Leonora estava rondando Ares como uma vendedora desesperada tentando empurrar uma mercadoria defeituosa.

Assim que pisei no último degrau, os olhos de Ares caíram sobre mim. Ele me escaneou da cabeça aos pés, parando na minha cintura larga com desdém explícito.

— Aqui está ela, Sr. Beckett! — Minha mãe correu até mim, puxando o tecido do meu vestido nas costas com força, tentando criar uma cintura que não existia. — Não se assuste com o... volume. Rubi é grande, mas é mansa.

Senti meu rosto queimar.

— Mãe... — sussurrei, mas ela apertou meu braço com as unhas, sorrindo nervosamente para Ares.

— Ela sabe o lugar dela — Leonora continuou. — Garanto que não lhe dará dor de cabeça. Ela come por três, é verdade, mas é silenciosa como uma porta. O senhor não vai nem notar que tem uma esposa, a menos que tropece nela. É um ótimo negócio, Sr. Beckett. Não desista do contrato por causa da... estética.

Ares olhou para a minha mãe com o mesmo tédio com que olharia para um inseto.

— Vamos — ele disse, ignorando o discurso de vendas humilhante dela.

Minha mãe me empurrou para a frente.

— Vá. E pelo amor de Deus, não estrague tudo — ela ordenou no meu ouvido. — Se ele devolver você, juro que te expulso de casa a pontapés.

Engoli o choro e segui Ares para fora. O motorista segurou a porta de trás para ele. Ares entrou, pegando o celular e ignorando minha existência.

Parei na calçada. Em qualquer encontro, o cavalheiro seguraria a porta, certo? Esperei cinco segundos. Ares nem levantou a cabeça.

O motorista, constrangido, correu para abrir a porta para mim do outro lado. Entrei no carro e me encolhi no canto oposto, tentando não encostar nele e ocupar o mínimo de espaço possível.

O caminho até o restaurante foi constrangedor.

Fomos guiados até uma mesa reservada num canto escuro de um restaurante exclusivo. Ares sentou e nem olhou o cardápio.

— Boa noite, Sr. Beckett. Eu queria agradecer por... — comecei, tentando ser educada.

— Não estamos aqui para socializar — ele cortou, sem levantar os olhos do guardanapo.

Calei. Ele pediu uísque para ele e água para mim, sem consultar. Em seguida, deslizou um envelope pela mesa.

— O que é isso? — perguntei.

— O nosso contrato pessoal. Leia.

Abri o papel. As cláusulas eram diretas: quartos separados, sem afeto público, proibição de entrar no escritório, quarto ou até mesmo na ala da casa que pertence a ele.

— Não quero você no meu caminho, Rubi. Em casa, eu prezo pelo silêncio. — Ele me encarou com frieza. — Como sou um homem de negócios justo, adicionei uma cláusula. Em um ano, assinamos o divórcio e você recebe $200.000 dólares. Na sua conta pessoal.

Arregalei os olhos, surpresa. Era dinheiro suficiente para eu fugir e recomeçar.

— Por que está fazendo isso?

— Para garantir que, quando o ano acabar, você vá embora sem olhar para trás. Portanto, apenas assine e seja invisível.

— Como o senhor quiser. — Não tenho escolha e de qualquer forma aquela quantia era minha esperança.

Ares colocou sobre a mesa uma caixinha de veludo. Era um anel de diamante enorme.

— Coloque — ordenou.

O anel entrou com dificuldade no meu dedo gordinho. Ele fez uma careta de desgosto.

— Escute bem. Não confunda esse anel com compromisso ou afeto. Para mim, você é apenas um incômodo necessário para ter minha herança. O jantar está pago. Eu tenho coisas mais importantes para fazer.

Ares se levantou, ajeitou o paletó e saiu do restaurante a passos largos, me abandonando lá sem se importar em como eu voltaria para casa.

O garçom chegou segundos depois com o prato que Ares deixou pago: um filé mignon suculento.

Endireitei as costas, peguei o garfo e a faca, cortando a carne enquanto as palavras da minha mãe retornavam à minha mente: "Se ele devolver você, juro que te expulso".

"Ele pode ter nojo de mim", pensei, levando a comida à boca enquanto uma lágrima solitária escorria. "Mas pelo menos hoje, não vou dormir de estômago vazio."

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App