Mundo ficciónIniciar sesiónHELOÍSA
Cheguei à mansão com uma mala pequena na mão e o coração grande demais no peito, era uma mistura de nervosismo e ansiedade.
Era estranho pensar que aquele lugar agora fazia parte da minha rotina, como alguém que ficaria ali a semana inteira, dormindo sob aquele teto alto, seguindo regras que ainda não conhecia por completo.
O portão se abriu como da primeira vez, solene, e eu respirei fundo antes de descer do carro.
É só um trabalho, repeti mentalmente.
Um recomeço.
Matilde já me aguardava no hall, impecável como sempre, mãos cruzadas à frente do corpo, postura firme e olhar atento.
— Bom dia, senhorita Heloísa. Vejo que trouxe seus pertences — disse, sem sorrir, mas sem frieza excessiva.
— Bom dia, dona Matilde — respondi. — Trouxe só o essencial.
— Ótimo. A senhorita ficará durante a semana. Os finais de semana serão de folga, como já foi informado. Agora venha, vou lhe passar as instruções iniciais.
Seguimos pelo corredor largo enquanto ela falava com a precisão de quem repetia aquele discurso há anos. Horários, limites, rotinas. Tudo tinha lugar e ordem naquela casa.
Poderia tabelar como algo sufocante, mas teria que me adaptar as regras.
Quando cheguei , Kitana saiu correndo de algum canto do seu quarto imenso, como um furacão pequeno e barulhento.
— Oi , senhorita! — gritou, abrindo os braços.
Nem pensei. Me abaixei e a abracei, sentindo aquele corpinho leve se jogar contra mim sem medo algum.
— Bom dia, princesa.
— Você veio mesmo! — ela disse, feliz demais. — A Matilde falou que você ia cuidar de mim!
— Vou tentar fazer um bom trabalho — respondi, com sinceridade.
— Eu já gosto de você — decretou simplesmente, com os olhinhos brilhantes.
Meu peito apertou e se confortou ao mesmo tempo
Talvez ali estivesse a razão de eu ter sido escolhida.
A manhã passou rápido. Kitana tinha um motorista particular, funcionário antigo da mansão, que a levava para a escola todos os dias .
Eu a acompanhei até o carro, ajeitei o cinto, ouvi atentamente suas histórias confusas sobre colegas, professoras e um coelho imaginário que, segundo ela, morava no pátio.
Chegamos em sua escola , lhe ajudei com a sua mochila e a levei até sua sala a entregando nas mãos da professora. Porém antes que eu desse um passo para ir embora, fui surpreendida por Kitana.
— Você volta pra me buscar? — perguntou, segurando minha mão.
— Volto, sim.
— Promete?- me encarou nos olhos
A menina tinha mesmo um talento para persuasão, porém de modo encantador
— Prometo.- ergui minha mão como se estivesse diante de um júri.
Só após escutar a minha resposta se virou em seus calcanhares e foi conversar com as suas coleguinhas de classe.
Sorri e fui embora.
Ao chegar na casa ajudei no preparo do almoço junto aos empregados. Matilde ia me explicando tudo com riqueza de detalhes, principalmente os gostos — ou melhor, desgostos — de Kitana.
— Ela não come legumes verdes. Detesta cenoura. Não gosta de nada que tenha “cara de saudável” — disse, num tom quase resignado.
Olhei para os ingredientes sobre a bancada e acenei.
— Entendi…
— Com o tempo, talvez a senhorita consiga introduzir algo. Mas não force demais.
Assenti.
Na hora certa, fui buscar Kitana na escola. Ela saiu pulando me passando sua mochila e se agarrando a minha mão livre.
— Heloísa! Na sexta-feira vai ter o dia do cabelo maluco! A professora disse que o penteado mais criativo ganha!
— É mesmo? — sorri. — Então vamos ter que pensar em algo bem incrível que se destaque dos demais.
Os olhos dela brilharam.
— Tipo… muito incrível?
— Exatamente! você vai ser a mais mais .- pisquei um olho para ela
Kitana deu um gritinho agudo, batendo palmas me fazendo sorrir
— Eu vou ganhar! Eu vou ganhar!
***
De volta à sua casa, ajudei Kitana a trocar de roupa e tomar banho — apesar de ela fazer quase tudo sozinha, fazia questão de me explicar cada passo, como se estivesse me ensinando algo muito sério, enquanto eu prendia uma risada.
Logo após descemos para o almoço.
— Por que você não gosta de legumes? — perguntei com cuidado, lhe observando comer.
— Porque todos são ruins — respondeu, com a boca cheia.
— Todos?
— Todos — confirmou, convicta.
Soltei um risinho baixo
— Sabe… eles ajudam a gente a ficar forte e saudável. Mesmo que não goste, às vezes é bom provar.
Ela me encarou por alguns segundos, avaliando.
— Só provar?
— Só provar.
Levantei a mão, com a palma aberta acreditando firmemente que ela aceitaria a minha proposta.
Ela sorriu e bateu a dela na minha.
— Tá bom.
***
O resto da tarde passou entre tarefas da escola, desenhos espalhados pelo chão e conversas aleatórias. Quando o horário do chefe se aproximou, Matilde me avisou que eu deveria me recolher.
— O jantar será servido para a criança e o senhor Luiz Fernando. A partir desse horário, os demais funcionários permanecem em seus aposentos.
Assenti, me perguntando o que ele estaria fazendo aqui tão cedo. Afinal de contas Matilde havia dito que ele não costumava jantar em casa porque trabalhava até tarde.
No quarto destinado a mim — simples mas organizado — senti uma agonia estranha.
Andava de um lado para o outro
Eu odiava me sentir presa. E aquela casa, à noite, parecia ainda maior, mais fechada, e…sufocante.
Quando Matilde passou para avisar que minhas fardas já estavam disponíveis, para que eu pudesse pegar pela manhã no quarto dos empregados, resolvi aproveitar o silêncio para buscá-las logo.
Assim evitaria correrias no dia seguinte.
Os corredores estavam quase todos às escuras. Apenas luzes baixas guiavam o caminho. Caminhei com cuidado, segurando a respiração com medo de ser pega no flagra porque estava infringindo as regras da casa, até ver uma porta semiaberta.
— Deve ser aqui… — murmurei.
Empurrei a porta.
E congelei.
De pé diante de um quadro, estava ali um homem alto, com seus 1.90 de altura por aí, cabelos alinhados sem um fio para fora do lugar, com a camisa social aberta no colarinho na cor azul escuro, usando calça social e sapatos tão lustrosos quanto o chão que eu pisava. Ostentando uma expressão fechada, com um olhar duro que se voltou em minha direção como se eu fosse uma intrusa invadindo o seu santuário.
O choque foi físico ao reconhecer o homem com quem eu havia dormido.
Entretanto, nem parecia o mesmo em comportamento.
O do bar sorria fácil, tinha um olhar cálido e uma energia acolhedora.
Mas esse que se encontrava diante de mim agora, era frio, um ar arrogante, com um olhar sombrio que parecia me atravessar como se eu fosse um incômodo em seu espaço vital.
— Quem é você? — a voz saiu cortante como navalha. — O que pensa que está fazendo aqui?
Minha boca abriu, mas nenhuma palavra saiu de imediato.
— Eu…sou a nova babá da Kitana — engoli em seco. — Me desculpe. Achei que este fosse o quarto dos empregados.
Ele deu uma risada sem humor.
— Claro que achou. — O olhar dele escureceu me olhando raivoso. — Então era isso. Uma jogada bem planejada para conseguir se aproximar de mim.
— Não — respondi rápido. — Não é o que você está pensando. Eu...- me cortou secamente erguendo o dedo indicador de modo a me intimidar.
— Eu conheço muito bem esse tipo de aproximação vindas de mulheres como você — ele continuou, a voz carregada de desprezo. — Investigou o bar que costumo frequentar, se aproximou, me seduziu, para que a levasse para a cama, e agora está na minha casa como babá da minha filha.
Meu rosto queimou pelo constrangimento e acusação injusta.
— Eu não sabia quem o senhor era. — falei com firmeza me irritando com suas palavras , me sentindo humilhada, apesar do tremor. — Eu não sabia que essa era sua casa. Eu não sabia de nada.
— E ainda assim apareceu aqui — rebateu. — Coincidência demais para o meu gosto.
Ele deu um passo na minha direção apontando em direção a porta com um olhar colérico.
— Saia. Agora.
Meu corpo obedeceu antes que minha mente processasse tudo.
Dei um passo para trás, o coração batendo tão forte que doía, meus olhos encheram-se de água.
Foi então que algo pequeno se jogou contra mim.
— Não! — a voz fina ecoou pelo corredor.
Kitana.
Ela se agarrou à minha perna com força, como se eu fosse o seu único porto seguro no mundo.
— Não manda ela embora — pediu, com a voz tremendo. — Eu gosto dela. Eu quero que ela fique papai.
O homem congelou.
Olhou para a filha. Depois para mim.
E naquele instante, eu soube.
O conflito estava só começando.







