Início / Paranormal / Sangue Eterno / CAPÍTULO TRÊS: Olhos que Não Mentem
CAPÍTULO TRÊS: Olhos que Não Mentem

Aprendi o nome dele antes que ele me dissesse.

Dorian Valecliff. Dezessete anos no papel, transferido com a família de algum lugar na Europa. Era o que o cadastro da escola dizia, e era o que as meninas repetiam pelos corredores com aquela entonação específica reservada a coisas que consideram impossíveis de alcançar.

Eu não precisava ouvir o nome delas para saber o que sentiam. Bastava olhar.

O problema era que ele não olhava para elas.

Na primeira aula do dia seguinte, percebi que ele havia escolhido uma carteira de onde podia me ver sem precisar se virar. Poderia ter sido coincidência — dei o benefício da dúvida na primeira, na segunda vez. Mas quando aconteceu pela terceira vez, em turmas diferentes, parei de me enganar.

Dorian Valecliff me observava como se eu fosse um problema que ele havia decidido resolver.

Na aula de inglês, o professor Marsh pediu duplas para uma atividade de leitura. Eu mal tinha terminado de olhar para o lado quando a cadeira ao meu lado raspou no chão.

— Você se importa? — Dorian disse, já sentado, voz baixa e levemente rouca, como de quem não usava muito. Não era exatamente uma pergunta.

— Parece que não — respondi, sem olhar para ele.

Ele não disse mais nada por um tempo. Abriu o livro na página certa antes de mim, o que me irritou por uma razão que eu preferia não examinar.

— Seu nome é Ayla — disse, eventualmente.

— Você teve um dia inteiro para descobrir isso.

— Sim — concordou, sem nenhum constrangimento. — Mas estou mais interessado em outras coisas que não consigo descobrir tão facilmente.

Levantei os olhos do livro.

De perto, ele era ainda mais desconcertante. A pele tinha aquela palidez específica de quem raramente toma sol — não doentia, mas fria, como mármore bem iluminado. Os olhos eram de um cinza esverdeado, o tipo de cor que muda dependendo da luz, e naquele momento estavam fixos em mim com uma intensidade tranquila que me fez querer me mexer na cadeira.

Não me mexi.

— Que tipo de coisas? — perguntei.

Uma sobrancelha levantou. Apenas uma, milímetros.

— O que você está pensando, por exemplo.

Franzi a testa. — Isso é uma linha de cantada muito ruim.

Algo passou pelo rosto dele — um relance rápido que poderia ter sido diversão, se tivesse durado um segundo a mais.

— Não é — disse. — É literalmente o que estou tentando descobrir.

A aula acabou antes que eu entendesse o que ele quis dizer com aquilo.

* * *

Kai me esperava na saída, encostado no muro com os braços cruzados e um humor que eu reconhecia de longe como péssimo.

— Ele ficou do seu lado a aula toda — disse, sem preâmbulo.

— Bom dia para você também.

— Ayla.

— Kai. — Parei na frente dele, cruzando os próprios braços. — Você vai me dizer o que está acontecendo ou vai continuar com essa de guardião misterioso?

Ele descruzou os braços. Os músculos do maxilar se moveram como se estivesse engolindo alguma coisa.

— Essas pessoas não são o que parecem.

— Que pessoas? Só a família nova ou estamos falando de algo maior?

— Nenhuma — ele disse, e havia algo naquele "nenhuma" que era maior do que os Valecliff. Maior, talvez, do que ele queria que eu percebesse.

Estudei o rosto dele por um longo segundo.

— Você está me escondendo alguma coisa — disse, devagar.

— Estou tentando te proteger.

— Isso não é uma negativa, Kai.

Ele fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia uma decisão neles que parecia ter custado.

— Me dá um tempo — disse. — Só um pouco mais de tempo. Depois te conto tudo, juro.

Nunca o tinha visto assim — com essa mistura específica de medo e culpa que fazia o rosto dele parecer mais velho do que era. Engoli a insistência.

— Tudo bem — disse, por fim.

Mas naquela noite, deitada no quarto olhando para o teto enquanto a chuva batia na janela com aquele ritmo irregular de Ravenmoor, pensei nas palavras de Dorian.

O que você está pensando, por exemplo.

Como se normalmente soubesse. Como se, comigo, não soubesse.

Adormeci com esse pensamento. E sonhei com floresta escura, e dois pares de olhos — um de mel quente, o outro de cinza frio — olhando para mim do escuro com expressões que não consegui decifrar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App