Mundo de ficçãoIniciar sessãoEncontraram o corpo na quinta-feira de manhã.
Não era ninguém que eu conhecesse bem. Maya Sorensen, dezesseis anos, cabelo ruivo, ficava sempre no fundo da sala de história. Quieta, discreta, o tipo de menina que passava pelos corredores sem que ninguém prestasse muita atenção. Até uma equipe de resgate a encontrar no limite da floresta, com marcas que o xerife local descreveu para a imprensa como "ataque de animal".
Ravenmoor ficou em silêncio por um dia inteiro.
Depois começou a falar.
Eu ouvia fragmentos no corredor, na lanchonete, nos banheiros da escola — do jeito que rumores crescem em cidades pequenas, por camadas, cada versão um pouco mais distorcida que a anterior. Diziam que as marcas eram profundas demais para ser lobo. Diziam que ela tinha sido encontrada sem... Não. Eu cortava o pensamento antes de terminar.
O que me perturbava de verdade não era o rumor.
Era que, desde que a notícia chegou, Kai havia sumido de si mesmo.
Não do mundo — ele apareceu na escola, sentou do meu lado no almoço, disse as coisas certas no momento certo. Mas havia uma ausência nele que era mais assustadora do que qualquer ausência física: estava presente e ao mesmo tempo em outro lugar, os olhos fixos em algum ponto que eu não conseguia enxergar.
— Você conhecia ela? — perguntei na mesa do almoço, num momento em que os outros tinham se levantado.
Kai ergueu os olhos do prato.
— Um pouco — disse. — A família dela é de Ravenmoor há muitas gerações.
— E as marcas? O que você acha que foi?
Ele pousou o garfo na mesa com uma calma que parecia ensaiada.
— Às vezes animais fazem coisas que não se encaixam no esperado — disse. — A floresta tem suas próprias regras.
Encarei o rosto dele. Ele me devolveu o olhar com exatamente a expressão neutra que uma pessoa usa quando não quer revelar nada, e eu soube — com aquela certeza incômoda que às vezes vinha de lugares sem nome — que ele estava mentindo para mim.
Não sobre Maya.
Sobre si mesmo.
* * *
Dorian apareceu na biblioteca naquela tarde.
Eu estava com a desculpa de estudar, mas na prática ficava relendo a mesma página há vinte minutos. Ele se sentou do outro lado da mesa sem pedir licença, o que me irritou, e abriu um livro que possivelmente era só um acessório.
— Você ficou chocada com o que aconteceu — disse, sem preâmbulo.
— Alguém morreu. A maioria das pessoas fica chocada com isso.
— Você não é a maioria das pessoas.
Fechei o livro.
— O que você quer, Dorian?
Ele levantou os olhos com aquela calma absoluta que parecia ser o estado natural dele.
— Que você entenda que o que aconteceu com a garota da floresta não foi um animal. — Fez uma pausa de dois segundos. — E que você tenha cuidado onde vai à noite.
O ar entre nós ficou parado por um momento.
— Quem fez isso? — perguntei, mantendo a voz baixa.
— Ainda não sei ao certo — disse. E havia naquele "ainda" uma familiaridade com esse tipo de incerteza que deveria me assustar mais do que assustou.
— Você parece muito calmo para alguém que está me dizendo que tem um assassino em Ravenmoor.
— Entrar em pânico nunca resolveu nada.
Olhei para ele por um longo momento. Havia uma consistência naquele rosto, naquele tom — como se ele tivesse visto coisas piores do que uma cidade pequena com um segredo, e sobrevivido para falar sobre elas.
— Por que você está me contando isso? — perguntei. — Você nem me conhece.
Ele inclinou levemente a cabeça. A luz fraca da biblioteca pegou nos traços dele de um jeito que o tornava ainda mais difícil de ler.
— Porque você é a única pessoa neste lugar que não consigo ler — disse.
A frase caiu no silêncio da biblioteca como pedra na água, e os círculos foram se expandindo por um tempo depois que ela acabou.
— Ler — repeti.
— Entender — ele corrigiu, levemente. Mas não era isso que tinha dito.
E eu sabia disso. E ele sabia que eu sabia.
Nenhum dos dois disse mais nada.







